Somos bárbaros

Candido Portinari (A Criança Morta)

Mas que humanidade é essa? Será que estamos precisando de uma reedição da segunda guerra mundial para aplacar as bestas que tomaram conta de nossas mentes e almas? Reconstruir os campos de concentração para exterminar todos os que pensam diferente de nós? Trazer de volta a doença, a fome, a sede, a miséria e morte? É esse o empoderamento que tanto falam?

Não me conformo com o massacre da escola de Suzano, os oito mortos, os dez feridos, as centenas de crianças que vão carregar para sempre um trauma horrível, conhecer a morte tão cedo, na sua frente, cega e implacável. Um dos dois atiradores tinha apenas 16 anos, tão jovem quanto suas vítimas. Qual o sentido de tudo isso?

Não me venham com papo de liberação de armas, apologia à violência. Isso tudo existe há muito tempo, quando descobrimos que matar o próximo era possível, desde que em nome do Rei, do Estado, da Lei, da Ordem, da Moral, da Religião, do Partido, da Inveja, do Preconceito, da Ignorância,de tudo! Atentados à escolas ocorrem no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. Tomamos alguma atitude? Que nada, ainda estamos discutindo abobrinhas, em gênero, número e grau.

Enquanto isso, crianças morrem. Até quando, Meu Deus, vamos aceitar passivamente tamanha barbaridade? Quando trouxerem de volta a segunda guerra mundial, por favor, não se esqueçam das bombas atômicas. Talvez elas deem um jeito em nossa desumanidade.

Sem saída

O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade” (Elizabeth Bishop)

Até quando vamos nos iludir? Quantas vidas mais a cidade levará para alimentar suas mazelas, sua malandragem, sua incivilidade? Que me perdoem os cariocas – meus conterrâneos – mas grupo de extermínio agindo em pleno centro,nas barbas das tropas do Exército, é o fim do mundo. Aliás, o fim de uma cidade que um dia foi cantada como a maravilhosa. Perdeu a graça, o viço, o senso e o amor de seus filhos. Sinceramente? Não acredito mais em alguma saída.

Que pelo menos identifiquem, prendam e punam os responsáveis pelo bárbaro assassinato no Estácio, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem, tenham o nome que for. Já toleramos facções do tráfico, milícias, corruptos, assaltantes, pivetes e canalhas de todos os estirpes, engravatados ou não. Permitir a ação impune de grupos de extermínios é acabar com o pouco de ar que ainda se respira no Rio, concordar com o assassinato de qualquer um que incomode os donos do poder. É deletar a democracia. É voltar para o tempo dos coronéis.

Meus pêsames e desculpas aos amigos e familiares de Marielle Franco. Meus pêsames à população carioca.

A ponta da baioneta

Sentiu alguma coisa espetando suas costas com força. Tentou se afastar mas o incômodo persistiu, empurrando-o para a frente. Deu um impulso, girou o corpo para trás e, com horror e espanto, viu a baioneta, brilhante e mortal, cortando o ar em sua direção. O movimento seguinte foi rápido e nebuloso. Com o abdômen aberto, de uma ponta a outra, ajoelhou no chão. Curiosamente, não sentia dor. A visão turvou, uma fraqueza enorme fez seu corpo desabar de vez. Só conseguiu balbuciar a clássica expressão:

– O que foi que eu fiz?

Pois é… O assunto é sério e nosso personagem poderia muito bem ter sido vítima de uma baioneta perdida, principalmente se ele estivesse em um campo de batalha da Primeira Guerra Mundial, nas Guerras Napoleônicas ou até mesmo na Guerra do Paraguai. No calor da luta, no meio da soldadesca, ninguém tem sangue frio suficiente para procurar o inimigo. Ou racionalidade.

Até onde sei, hoje em dia nenhum exército faz a famosa “carga de baionetas”, aquele ataque – geralmente desesperado – onde a tropa avança destemidamente em direção ao inimigo, com as baionetas em riste na ponta dos fuzis, prontas para cortar o pescoço de quem aparecer pela frente. Uma carnificina que só os filmes de guerra antigos adoravam!

Mas os tempos mudaram, não é mesmo? As guerras modernas estão cada vez mais tecnológicas, dependendo de drones, mísseis inteligentes, satélites, blindados robôs, miras laser e mais uma infinidade de aparatos que, com certeza, ainda nem ouvimos falar. É claro que estou pensando nos países do primeiro mundo, donos de arsenais poderosos o suficiente para destruir a vida no planeta em questão de horas. Ou menos!

Bom, toda essa introdução (o quê, ainda vem texto por aí?) serve para mostrar a que ponto chegamos na mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Não estamos mais em guerra com o Paraguai, o Uruguai conseguiu sua independência e a Argentina perdeu o interesse nas provocações. Aliás, chegamos a um ponto tal que ninguém sequer pensa em perder tempo, dinheiro e vidas declarando guerra ao Brasil.

Não, nossa guerra é mais cruel, é interna. E nem é uma guerra civil, como a espanhola na década de 30 ou angolana, que durou de 1975 até 2002. No Rio, onde a situação está completamente fora de controle, sequer as forças armadas são respeitadas. A bandidagem, muito bem armada e orientada, parece ter um serviço de inteligência melhor do que o da polícia. Aliás, a fuga da favela da Rocinha do inimigo público número 1 da vez, furando um cerco feito pelas forças armadas e PM foi simplesmente uma vergonha. Será que já estão apurando quem “ajudou”?

Duvido.

Quem sofre com essa “guerra” é, sem dúvida, a população. Toda ela. A morte da turista espanhola chocou o mundo e, não duvidem, manchou indelevelmente a imagem já muito manchada da cidade. O assassinato do coronel comandante do 3º batalhão da polícia militar, em plena rua Hermengarda, no Méier, com 17 tiros, em plena manhã de uma quinta-feira, foi de um absurdo tão grande que me deu a sensação de estar em Aleppo, no meio de um daqueles combates ferozes. Ah, tá, lá a guerra é civil, aqui não.

A lista de mortes revoltantes, que era mensal, agora é diária. A população se retrai e se defende como pode, mudando horários, hábitos ou indo embora da cidade. O que vejo, sinto e acredito é que a guerra contra o tráfico foi perdida e nem foi hoje. Foi perdida quando favelas se expandiram e simplesmente fizemos cara de paisagem. Foi perdida quando trocamos saneamento básico por teleféricos. Quando glamorizamos a miséria como parte da “cultura carioca”. Quando colocamos serviços de gás, luz, telefone, internet e transporte público nas mãos de milicianos e traficantes. Quando esquecemos da educação e da saúde. E por aí vai.

Há quantos anos se combate o tráfico? Segundo a própria Polícia Militar, desde o final dos anos 70. Quarenta e muitos anos depois, milhares de vidas perdidas, milhões (ou bilhões) de reais torrados e nosso futuro jogado no lixo. Caramba, quem está lucrando com essa batalha interminável, cruel, sem sentido, sem bandeiras? Ainda não sabemos sequer quem compra e fornece drogas e o armamento pesado para a bandidagem. Ou será que, simplesmente, não ousamos (ou podemos) falar?

Enfim, chegamos a um ponto que a luta é por território, dinheiro. Gente muito poderosa está por trás dessa “indústria”, gente do topo da pirâmide. Ganha muito, com certeza. Li em algum lugar que com a derrocada das Farcs colombianas, a exportação da droga para os Estados Unidos e Europa está se fazendo pelo Brasil. Com um substancial aumento dos lucros, é óbvio. Gente, fico imaginando os valores que uma “Lava-Jato” do tráfico não revelaria. Os nomes. As empresas. As ONGs. Os militares. A justiça. A mídia. O executivo, o legislativo, a puta que pariu!

A ponta da baioneta está espetada nas costas da população, seja de que classe social for (balas perdidas não escolhem rostos). Temos plena noção de que tudo está errado mas ficamos em silêncio, inertes, paralisados pelo medo. Durante uma carga de baioneta, podemos correr, lutar, talvez até nos render. O problema é que a guerra do Rio não tem regras e todos somos alemães, inimigos de qualquer um. Que pena. Qualquer dia desses o Rio acaba. Ou se transforma em uma Faixa de Gaza tropical…

Bom dia

Caiu para o lado, como se tivesse levado um soco muito forte no pescoço. Estava atordoado mas ainda conseguia enxergar. Seus ouvidos zumbiam! Havia alguma coisa quente, viscosa, escorrendo por baixo da cabeça pendida. Tentou se virar para ver o que era mas em vão: seu corpo estava imóvel. Os olhos ainda se mexiam, dava prá ver o painel do carro, o volante, as chaves… Um gosto forte de sangue inundou sua boca.

Lembrou-se do celular no bolso da camisa. Isso, ligaria para o trabalho avisando que não ia chegar. Mas estava tão cansado. Frio. Muito frio. A cabeça vazia, uma sensação de abandono. Não sentia dor ou medo. Apenas uma vontade enorme de ir embora, de fechar os olhos e dormir.

*****

— Porra, cê tá maluco ? Precisava atirar no cara ?
— Ele ia dá um teco na gente.
— Não, seu merda, ele tava soltando o cinto, sujou tudo, vambora, larga isso aí e se manda!
— Mas e o carro do babaca ? Não foi uma encomenda?
— Se manda, mané, corre antes que os homis cheguem aí.

*****

Cinco e trinta da manhã, uma esquina qualquer da cidade do Rio de Janeiro. O dia mal começou…

Conto publicado na I Coletânea Scriptus, Balaio de Ideias, 2009

Assalto!

A carioca termina o plantão no centro cirúrgico de um hospital na Baixada Fluminense, no domingo, já bem noitinha. Ela mesma, recém saída de uma cirurgia, não pode guiar, mas conta com a ajuda inestimável do namorado, já a postos no estacionamento. O trajeto para casa é simples, trânsito bom, ruas vazias, todo mundo em casa vendo o Fantástico.

Todo mundo não. No meio do caminho, ou melhor, na entrada da Avenida Brasil, um automóvel toma a frente e para repentinamente, fechando o trânsito. De dentro saem quatro homens empunhando fuzis de assalto e mandam o casal entregar o carro, carteira, bolsa e celulares. Um deles toma a direção e desaparecem na escuridão, na direção da zona norte.

Os dois, atônitos, correm para uma birosca próxima. Uma patrulha da PM se aproxima, mas os policiais saem disparam a pé pela avenida para impedir um outro assalto alguns metros atrás. Uma jovem, penalizada, encosta seu carro e os leva até a delegacia de Ricardo de Albuquerque, onde conseguem registrar a queixa e avisar a família. Na atual conjuntura do Rio, todos respiram aliviados: estão inteiros, vivos.

****

Pois é, a narrativa acima infelizmente não é ficção, aconteceu com minha filha mais velha no domingo passado. Estavamos entrando em casa, por volta das dez da noite quando recebemos sua ligação, pedindo que acionássemos a seguradora. Um susto enorme, sensação de impotência e alívio foram os sentimentos mais fortes. Como assim, nossa filha virou estatística?

Já tem algum tempo que parei de me iludir e deixei de acreditar que o Rio de Janeiro tem alguma saída. Não tem, meus caros, a cidade foi perdida pelo estado. Áreas enormes, geralmente encravadas em favelas, pertencem à bandidagem e ali ninguém entra. A prefeitura finge que governa, o governo do estado finge que dá segurança, o governo federal faz cara de paisagem e a população, acuada, tenta dar um “jeitinho” para conviver diante de descalabro, abandono e violência.

Não vou analisar as causas da violência. A situação chegou a um ponto que, todo santo dia um especialista na mídia explica suas causas. Não vou culpar A, B ou C por esse estado de coisas. Qualquer carioca sabe muito bem quem são os responsáveis, por ação e omissão. Não vou criticar a pobreza, educação, a justiça, a democracia, o capitalismo, o universo ou os deuses. Pura perda de tempo, ninguém liga.

Mas um belo dia, vamos perceber que estamos pagando impostos e pedágios para os bandidos e não mais às autoridades constituídas. Corremos o risco de virar uma cidade sem lei, bairros cercados por muros blindados, controlada por milícias, isolada do resto do Brasil e do Estado do Rio, ocupada por tropas e em permanente estado de guerra.

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Meu muito obrigado a todos que foram solidários com minha filha e seu namorado. Vocês são uma luz nessa escuridão que tomou conta do Rio de Janeiro.

Metralhadora no ônibus

“Ladrão com metralhadora morre em tentativa de assalto a ônibus na Avenida Brasil”.

Parece manchete do extinto jornal Luta Democrática, mas é do O Globo mesmo. E quando li, só não cai no chão porque estava sentado diante do computador. Imagino o pânico de quem foi rendido dentro do busão por um bandido com uma submetralhadora MT12 (segundo a polícia), de fabricação nacional, da Taurus, lançada em 1974 e ainda muito usada pela FAB e de diversas polícias militares do país. Esse tipo de arma você sabe como funciona, basta segurá-la com força, apertar e segurar o gatilho e disparar rajadas de balas na direção do inimigo, perdão, das quase vítimas.

Só para acalmar os leitores (ou terminar de aterroriza-los), é bom esclarecer que o bandido foi morto por um passageiro que reagiu quando ele anunciou o assalto. Além disso, a polícia descobriu que arma não tinha munição. De qualquer maneira, fica a questão, como uma arma de combate, operacional, cai na mão de um manezão? Até onde sei, todo o armamento das forças armadas e policiais é cadastrada. Seria tão difícil rastrear essa submetralhadora e descobrir quem foi o responsável por uma quase tragédia?

Minha solidariedade ao passageiro do ônibus que, resignadamente declarou à imprensa: “– A gente espera pistola, revólver, faca. Mas metralhadora, nunca. É complicado.” Vale lembrar que o cidadão da foto acima é um soldado alemão da 1ª Guerra Mundial. A bandidagem brasileira só usa uniforme quando está na cadeia.

Vazio poder

O Secretário de Segurança pode achar normal, o Governador fazer de conta que não é com ele, a imprensa registrar burocratica e casualmente e a delegacia da área informar que já está atrás de câmeras para investigar a ocorrência. Na verdade, é isso mesmo que sempre acontece depois de um crime bárbaro e sem sentido.

Mas tenho certeza que se fosse em um país educado, evoluido, onde o cidadão tivesse noção que quem tem que servir à população são as chamadas “autoridades constituídas”, o fuzilamento sumário de inocentes, como o que ocorreu no último final de semana em uma favela de Niterói, teria provocado a queda de cabeças coroadas, até mesmo no sentido literal.

É o terceiro caso conhecido na região esse ano (veja aqui, aqui e aqui): a pessoa se perde, entra em uma comunidade qualquer e é atacada com fuzis de assalto, sem a menor chance de defesa. Além das mortes absurdas, fico pasmo assistindo estado falar em pacificação e perder território dia após dia, em franca e vergonhosa retirada.

Para que serve um governo que não tem sequer competência para garantir a segurança de seus cidadãos? Que rouba, mente e se agarra a um poder vazio, por vaidade, arrogância e ganância? Quem manda no Brasil, afinal? Onde foram parar as pessoas que julgavamos de bem, em quem confiamos o nosso futuro? Não sei, mas uma coisa eu tenho certeza, encheu, passou da conta, já está na hora de mudar tudo.

Basta!