Cadê o trocador?

Uma questão crucial, quase filosófica, cadê o trocador? Afinal, quem rabiscou essa pergunta em um ônibus ainda com cheiro de novo estava questionando ou vandalizando? E o objeto da dúvida, o trocador, onde essa figura mítica foi parar? Perdeu-se em alguma esquina? Foi esquecido na garagem por um motorista distraído? Ou simplesmente foi extinto por empresários avarentos ou prefeitos de má fé?

A verdade é simples e detestável, como quase tudo o que envolve o transporte público carioca (e fluminense): ganância.

Embarquei em um dos remendados coletivos que a Fetranspor mantém nas ruas do Rio. Ao contrário das cidades mais evoluídas, ao invés de um veículo com o piso baixo, motor traseiro, câmbio automático, suspensão pneumática, ar condicionado e, é claro, o trocador, tive que me contentar com um caminhão com uma carroceria de ônibus, barulhento, velho e sujo, mas com uma novidade, duas roletas logo após a porta de entrada, uma ao lado da outra. Isso mesmo, duas roletas e um curralzinho.

O motorista me ensinou: quem tem cartão usa a da esquerda, idosos e pagantes a da direita. E a passagem, tolamente perguntei? “Ah, agora quem recebe a passagem sou eu e, por favor, vamos facilitar o troco”. Mas, enquanto eu ouvia essa aula, a fila atrás de mim crescia, algumas pessoas tentavam passar por uma das roletas, sem sucesso, provocando mais confusão e atrasando a viagem.

Essa discussão é antiga e nada transparente. As empresas alegam que o custo da tarifa não cobre mais do que um profissional nos ônibus. As prefeituras, principalmente aqui no esculhambado e falido Estado do Rio de Janeiro, atendem os pleitos da Fetranspor sem o menor pudor. De vez em quando exigem ar condicionado, veículos modernos e quetais, mas é só para inglês ver, principalmente perto das eleições municipais.

É claro que é possível mudar a forma de cobrança nos coletivos e aqui dá para ler um artigo interessante sobre a experiência alemã. Nossa desgraça é que está tudo errado com os serviços prestados pelos ônibus, absurdamente tratados pelas “autoridades competentes” como “transporte de massa”. Sem capacidade, conforto, segurança e, é claro, o trocador.

Acessibilidade de verdade

Tutorial fotográfico para usar correta e eficientemente o sistema de acesso para deficientes físicos nos ônibus da cidade de Vancouver, no Canadá:

  • o ônibus encosta no ponto e o motorista abaixa a suspensão, para o veículo ficar da altura da calçada. Em seguida, ativa a rampa de acesso

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  • o ônibus encosta corretamente na calçada. O motorista abaixa a suspensão, para o veículo ficar na altura apropriada e ativa a rampa de acesso.

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  • enquanto o cadeirante embarca (vale reparar no carrinho elétrico com proteção para chuva),o motorista verifica se o local previsto para o ancoramento está em ordem.

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  • o cadeirante já está no seu lugar, com a devida segurança.

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  • e a viagem já pode prosseguir. Aliás, perca um pouquinho mais do seu tempo e confira a qualidade da calçada. É para acabar de matar de inveja!

Aqui no Rio de Janeiro algumas raríssimas linhas operam esse tipo de ônibus. Em Nova Friburgo, nenhuma. Nas duas cidades os coletivos ainda usam o “elevador”, uma geringonça barulhenta, lenta e desajeitada, que vive quebrada ou os motoristas não sabem usar. Uma lástima!

Fotos: Denise Emerson