A tragédia do Brasil

Foto: Andre Penner/AP Photos

Os números falam por si: 121 mortos, 205 desaparecidos, um rio morto, plantações, casas, vidas destruídas, centenas ou talvez milhares de animais de todos os tipos perdidos para sempre e um enorme desalento e desesperança com mais uma tragédia anunciada que sacudiu o nosso país em Brumadinho, Minas Gerais.

É inconcebível que o mesmo tipo de desastre tenha se repetido com a mesma empresa, no mesmo estado, quatro anos depois. O que nos leva a outra reflexão, a impunidade, a morosidade da justiça, o desinteresse das autoridades responsáveis, a certeza de que o assunto será esquecido dentro de mais uns dez dias, como bem disse o colunista Ricardo Boechat em seu editorial de hoje, na Band News.

Pois é… Torço para que desta vez estejamos todos errados e a justiça será feita, doa a quem doer, sem ver cara, cor, títulos e poder. Em algum momento, o Brasil vai ter qie dar um basta nessa postura imperial, onde uns são melhores e mais imprescindíveis do que os outros. Que esse basta seja agora!

Onze de Janeiro

Foto: Carlos Emerson Jr.

No dia onze de janeiro de 2011, a bela e acolhedora Capela de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, amanheceu assim, bem como grande parte da cidade de Nova Friburgo. A tragédia que, oficialmente levou 918 pessoas, deixou mais de 30 mil desabrigados e uma centena de desaparecidos nas cidades da nossa Região Serrana, precisa ser recordada. O que aconteceu naquele dia, um desastre ambiental de proporções épicas, mudou Nova Friburgo para sempre. Acredito que estamos mais preparados, atentos, cuidadosos, mas o caminho ainda é longo e viver nas montanhas tem um preço óbvio, tempestades, cheias e desabamentos. Não faz mal, moramos aqui e aqui continuaremos. É a nosso lar.

Carlos Emerson Jr. (2019)

A tragédia do Brasil

Um bar carioca, algum dia em março de 2117:

“Já se passaram tantos anos que nem sei se consigo me lembrar direito dessa história. O transatlântico Brasil, um navio bonito, moderno, zarpou para mais um cruzeiro, completamente lotado. Tudo ia bem até que a noite que os organizadores da viagem ofereceram um festão, com políticos, artistas, intelectuais, cantores, celebridades e buffet liberado. A alegria era tanta que ninguém notou que, por volta da meia noite, os motores pararam.

O comandante, furioso, mandou os mecânicos resolverem o problema com urgência. No horizonte, uma tempestade se aproximava. O tempo passava e, completamente à deriva, o Brasil seguia indefeso ao sabor da maré. A borrasca, de proporções descomunais, atingiu os infelizes em cheio. A tripulação, temendo um naufrágio, baixou os botes salva-vidas para, digamos assim, salvar a própria pele.

Os passageiros, tardiamente perceberam que estavam sendo abandonados, mas, sem iniciativa e liderança, entraram em pânico e alguns até mesmo se atiraram ao mar para a morte certa. Inacreditavelmente o Brasil suportava a terrível tempestade, jogado para cima e para baixo pelas ondas como uma simples folha de papel. Um operador de rádio, um dos poucos remanescentes da tripulação ainda a bordo, tentava desesperadamente enviar pedidos de socorro. Alguns foram captados, embora quase ininteligíveis. Um deles dizia mais ou menos assim: “… Brasil à deriva, fazendo água, sem comandante e oficiais, passageiros em pânico, caos total. Socorro. Latitude…”

Para encurtar o caso, o Brasil nunca mais foi visto, outro sinal jamais foi enviado, nenhum destroço sequer foi encontrado. Todos a sua população, perdão, passageiros e tripulantes desapareceram. Mais de cem anos depois, até seu sumiço foi esquecido e nem ao menos um navio fantasma ele virou. Uma tragédia, o Brasil ainda tinha um futuro pela frente.”

PS: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança como nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

A hora das chuvas

 

A crônica abaixo foi publicada no jornal friburguense A Voz da Serra, na edição de 31 de março de 2011. A foto, feita por mim mesmo alguns dias depois da tragédia, mostra uma parede da Capela de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, duramente atingida pelos desabamentos. Nova Friburgo voltou ao normal, embora algumas cicatrizes ainda estejam expostas. Mas, cinco anos depois, fico com a incômoda sensação de que não aproveitamos a oportunidade para reconstruir uma cidade completamente nova. Pois é, 12 de janeiro é uma data para nunca se esquecer. (Carlos Emerson Junior)

oOo

Vamos definir chuva ? Bom, segundo o Wikipédia, chuva não passa “de um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de gotas de água no estado líquido sobre a superfície da Terra”.

A chuva está aí desde que o planeta começou a esfriar. Alimenta os rios, irriga as plantações, suporta a vida. Quanto mais chuva, mais exuberante a natureza. Basta dar uma olhada lá pelos lados da Amazônia, que só tem duas estações no ano: chuva e muita chuva!

O homem convive com a chuva a mais ou menos uns 300 mil anos, tempo mais do que suficiente para conhecê-la muito bem. Aliás, essa convivência já deve ter sido gravada em nossos DNAs.

No entanto….

No dia 22 de janeiro de 1967 tive minha primeira experiência com a chuva em seu estado bruto. Estava indo para São Paulo de ônibus quando, por volta das 23:30 horas, uma tromba d’água destruiu tudo que estava em sua frente na subida da Serra das Araras. Uma árvore enorme despencou da encosta ao lado e funcionou como uma barreira, desviando do nosso veículo toda a lama que descia pelo que restou da estrada.

Ao amanhecer, fomos resgatados por militares do exército e até hoje guardo a terrível visão de gente morta para todos os lados, ônibus semienterrados, uma devastação completa.

Quarenta anos se passaram e no dia 5 de janeiro de 2007, subindo a serra para Nova Friburgo, a chuva resolveu me mostrar novamente seu poder, desabando impiedosamente. Na altura de Mury, também por volta das 23 horas, fomos obrigados a parar devido a quedas de várias barreiras, tendo uma delas (em frente a entrada da AABB) atingido um ônibus da 1001 que ia para São Paulo.

Desta vez não esperamos ajuda. Com uma lanterna de mão, formamos um um grupo e, com a ajuda de funcionários da rodovia e da empresa de luz, conseguimos chegar encharcados mas inteiros na Rodoviária Sul, onde um taxista nos deixou em casa.

As onzes mortes, o grande número de desabrigados e a destruição da cidade me deixou com a plena convicção de que, pelo menos em Friburgo, isso não se repetiria nunca mais. Afinal, as chuvas não vão parar, mas os rios seriam dragados, bueiros limpos, pessoas em áreas de risco removidas, um sistema de alarme instalado.

No dia 12 de janeiro de 2011 dormia tranquilamente, no Rio de Janeiro. Tinha uma passagem comprada para Friburgo na hora do almoço e absolutamente nada para fazer pela manhã . Fui despertado por uma ligação de minha mulher, assustada, pedindo para ligar a TV. Mal acordado, custei para entender o que estava acontecendo. As notícias, vagas e genéricas, falavam em 9 mortes e citavam os bombeiros da Cristina Ziede. Fui ao telefone e tentei falar com o condomínio da minha casa. Inútil. Procurei amigos, conhecidos e até lojas, sem sucesso. Todos os telefones estavam mudos.

Aos poucos, pelas redes sociais, foram chegando relatos esparsos e um quadro de horror foi se delineando. As poucas vítimas das primeiras horas chegaram a quase 500 mortos, só em Nova Friburgo.
Uma tragédia nunca antes vista.

Não fizemos o dever de casa, apesar do aviso deixado apenas três anos antes. Continuamos morando irregularmente, sujando e assoreando os rios, tratando a natureza como se fossemos superiores às intempéries.

O clima mudou, isso é fato. Um pequeno aumento da temperatura já é suficiente para alterar regimes de chuvas, formando grandes e contínuas tempestades e também, ao contrário, provocando longos períodos de estiagem, esvaziando os mananciais e destruindo as lavouras, além dos incêndios florestais, um perigo sempre presente.

Nas primeiras horas o friburguense, ainda atordoado, mostrou união, solidariedade, seriedade, disposição e desapego. Graças a isso e, claro, a enorme generosidade de todos os brasileiros, salvamos vidas, bens, animais e evitamos uma destruição ainda maior.

Daqui para a frente será apenas por nossa conta. As chuvas continuarão seu ciclo e, de vez em quando, trovejarão mais forte. Temos a obrigação de nos preparar para sobreviver, respeitando a natureza.

Simples assim.