Falando (outra vez) de calçadas

Foto: Mobilize

Aconteceu no verão de 2015, lá no Rio de Janeiro. Tomei um baita tombo no calçadão da Avenida Vieira Souto, numa caminhada acelerada com destino ao Leblon. A culpada não fugiu, ficou quietinha aguardando outro incauto no local do acidente: uma pedra portuguesa solta que, ao sair do lugar quando pisei, me jogou de frente na ciclovia. O prejuízo, ainda bem, não foi grande, joelhos, mãos e cotovelos arranhados e a vontade de esganar o responsável pelas calçadas cariocas.

Lembrei desse tombo lendo o interessante artigo do Zuenir Ventura, no jornal O Globo, de hoje, intitulado “A desordem custa caro ao Rio”, de onde pinço uma ótima observação do nosso querido escritor: “basta dizer que deixei de caminhar no calçadão por causa dos buracos e das pedras portuguesas soltas. Já tinha ouvido histórias de acidentes graves (uma senhora fraturou o fêmur), mas insistia, até o dia em que eu mesmo quase caí ao tropeçar em uma dessas pedras. O tombo, como se sabe, é o maior inimigo do idoso.”

Casos como esse estamos cansados de assistir (ou participar), em qualquer cidade do Brasil. As causas são sempre as mesmas, calçadas em péssimo estado de conservação, geralmente por descaso do proprietário do imóvel, obra porca de uma concessionária qualquer, carros indevidamente estacionados em cima delas ou imprudência do próprio pedestre, andando onde não devia (ou sem prestar atenção).

Cair ou não cair, não é nem a questão, diria Shakespeare, se hoje vivesse nas esburacadas cidades brasileiras. Mudar a maneira de ver esses tombos e tipificá-los como acidentes de trânsito, colocando responsabilidades, seria um bom começo. A legislação atual da grande maioria dos municípios brasileiros deixa a cargo do proprietário do imóvel a construção e manutenção das calçadas, mas estamos carecas de saber que isso não é o suficiente.

Falta padronização, acesso para deficientes, sinalizações horizontal e vertical e, principalmente e infelizmente, fiscalização. É inadmissível circular em uma calçada tomada por lixo e entulhos, ocupada por automóveis ou instalações urbanas completamente irregulares, perigosas e na maioria das vezes, inúteis.

É sempre bom ter em mente que somos todos, antes de qualquer coisa, pedestres. Nossas cidades nunca serão amigáveis se suas calçadas forem inseguras. Aliás, já que o poder público se preocupa em manter ruas, avenidas e rodovias em condições perfeitas para o trânsito de veículos automotores, tem a obrigação de cuidar dos caminhos dos cidadãos, as nossas calçadas. Ao contrário do que as “excelências” acreditam, cidades são para pessoas.

Ah, sim, não esqueci as calçadas de Nova Friburgo. Já estou preparando uma grande “homenagem” em um próximo artigo, cheio de fotos, é claro. Afinal, adoro filmes de horror!