Voos do Rio

Foto: Varig

Li por acaso um “tuite” do escritor Aguinaldo Silva, reclamando que a partir de primeiro de abril,os vôos diretos do Rio para Nova York não existirão mais. Pior, a opção com escalas (o famoso e famigerado parador) começa com pulo até Brasília, quase que no caminho para trás! Aliás, uma rápida “googlada” mostrou uma matéria da Latam informando que suas rotas Rio – Miami e Rio – Orlando também serão encerradas a partir da mesma data. Seria uma brincadeira do “Dia da Mentira”?

Infelizmente, não. Segundo a American Airlines, o cancelamento da tradicional rota até Nova York (que teve origem em 1920, com hidroaviões da Pan Am, que pousavam na Baía da Guanabara), foi a queda da demanda, reflexo da crise financeira agravada pelos desmandos e roubalheiras dos dois últimos governadores do nosso combalido Estado do Rio, os notórios Sérgio Cabral e Pezão. Como a recuperação será lenta (os rombos continuam aparecendo), nosso futuro ainda é incerto.

Que pena. Uma cidade que já recebeu voos desde o dirigível alemão Hindenburg até o supersônico Concorde, não merecia mais essa perda. Para mim, fica a saudade dos vôos da Varig, pontuais, seguros e confortáveis, lembrança de uma época que o Rio ainda era a Cidade Maravilhosa.

O Rio parou

 

Tenho amigos taxistas. Brinco que eles são o meu “Uber” amarelinho. Se não fossem eles, meu sogro, que vai fazer 92 anos – não teria como ir e voltar da sessão de fisioterapia de ontem pela manhã, em plena greve dos motoristas que paralisou o Rio. Sem o menor problema e com toda a segurança.

Obrigado, Vítor!

Manifestações, protestos, reivindicações públicas, tudo isso é democrático, direito de todos. Parar uma cidade, prejudicando o trabalho de milhões de pessoas, chega a ser um crime. Assisti pela tv verdadeiras cenas de horror: uma senhora abraçada a um bebê, indo a pé para o Aeroporto do Galeão, pela Avenida Vinte de Janeiro, debaixo do maior sol.

pablojacobogloboUma grávida, dentro de um automóvel particular preso em um engarrafamento, começou os trabalhos de parto. Foi acudida pela PM que abriu a caminho à força mesmo! Um motorista de terno, guiando um carro preto, em Copacabana, foi cercado e ameaçado, só podia ser do Uber. Não era e sim um policial civil que, pedindo socorro para a guarda municipal, conseguiu seguir.

Motoristas de táxi que, como o meu amigo acima, trabalhavam normalmente (direito seu, aliás), foram atacados e alguns passageiros expulsos dos carros; um grupo tentou fechar a Ponte Rio-Niterói, sendo impedidos pela Polícia Rodoviária, mas o estrago estava feito: o congestionamento quase chegava em Manilha.

Aqui na Urca tudo calmo, tão calmo que o primeiro ônibus que chegou foi lá pelas dez da manhã. Ao pessoal que trabalha nas escolas militares da Fortaleza de São João só restava respirar fundo e caminhar desde a estação do metrô de Botafogo.

Enfim, o caos!

O sistema de transportes do Rio de Janeiro é, historicamente, horrível. A maior cidade turística do Brasil não tem um metrô decente, trens e barcas operam confusa e quase sempre de forma precária, o sistema de ônibus é inadequado, muitas vezes ultrapassado, caro e precário. E, para coroar toda essa mixórdia, não existe integração, no sentido exato da palavra.

Os táxis… bom, são 35 mil profissionais autorizados pela Prefeitura, um número até bem razoável, mas, a prestação do serviço é bem deficiente, além de um problema sério de falta de civilidade e educação. Todo mundo já passou alguma vez por uma péssima experiência com os táxis cariocas. Não à toa o Uber cresce exponencialmente, principalmente após manifestações arbitrárias como essa.

Lamentável a lenta e tímida reação do poder público, em particular a Prefeitura do Rio de Janeiro. Dar um prazo (que não foi cumprido) para o término da manifestação é uma demonstração de fraqueza ou coisa pior… A prioridade básica, garantir o direito de ir e vir do cidadão, foi ignorada. Mais uma vez, é claro.

No final das contas, foi uma sexta-feira perdida. Os taxistas não acabaram com o Uber, este, por sua vez, não conseguiu operar e a população, que em sua grande maioria não tem nada a ver com isso (transporte individual é caro), foi a maior prejudicada. Afinal, ficar parado no trânsito, dentro de ônibus, trens e barcas velhas e sem nenhum conforto não é para qualquer um, não senhor.

Ah, Cidade Maravilhosa, o que fizeram com você?

Fotos: Pablo Jacob e Gabriel de Paiva (O Globo)

Domingo na praia

No último domingo, dia 15, saí de manhã para caminhar com minha mulher. Fomos do Posto 4, em Copacabana até o Posto 9, em Ipanema e voltamos, passando obrigatóriamente pelo Arpoador. Não era cedo, pelo contrário e até nos arrependemos do horário, mais de onze horas e o sol queimando sem dó.

Copacabana estava tranquila e até meio vazia. Mas em Ipanema, acelerando a marcha, levamos um susto quando fomos “ultrapassados” por três motos com policiais do batalhão de choque, completamente equipados, fardas camufladas e armados com fuzis de assalto. O que estaria acontecendo?

Logo mais adiante, na altura da Maria Quitéria, duas viaturas do choque, os motociclistas e mais uns quinze soldados prontos para o combate, conversavam com guardas municipais. Passamos ao largo e ainda comentamos que se alguém gritasse ‘pega ladrão’ ou algo do gênero, não seria um bom negócio ficar na linha de tiro dos fuzis da tropa.

Fizemos a volta no Posto 9 e retornamos para casa sem maiores transtornos. Não vimos nenhum arrastão, assalto ou violência. Mas muita, muita gente chegava nos ônibus e se dirigia para o Arpoador. Em nenhum momento achei que o pessoal aproveitaria para fazer baderna, já que o policiamento ostensivo, reforçado pela guarda municipal, parecia suficiente.

No dia seguinte, o jornalão carioca O Globo anunciava que arrastões, assaltos, furtos e atos de vandalismo foram cometidos em massa contra a população que apenas queria tomar um banho de mar. Casos de estupro não foram relatados, mas roubos de carros, bicicletas e celulares abundaram. Centenas de pessoas foram presas e o governo do estado chegou a cogitar decretar estado de sítio no Arpoador e pedir ajuda às Forças Armadas. Dos Estados Unidos, por óbvio.

Meus caros, desde que me entendo por gente (e isso já tem muito tempo), todos os verões acontece a mesma coisa. Já era tempo de alguma medida já ter sido testada e implantada para garantir o sossego dos banhistas. É bom lembrar que durante a Copa nada disso ocorreu. O que foi diferente? As pessoas não vieram para as praias? Baixou o espírito cívico nos vândalos? Ou a polícia se absteve de jogar bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo indiscriminadamente, como agora?

Muito se reclama dos grupos de baderneiros (e ladrões de ocasião) e concordo inteiramente, essa gente tem que estar atrás das grades. No entanto, as praias do Rio de Janeiro sempre foram (e serão, espero) o local de lazer mais democrático da cidade. Impedir, dificultar ou cobrar o seu acesso é, obviamente, um absurdo. Garantir a segurança do cidadão, é sempre bom lembrar, é obrigação do estado.

Há uma outra questão. Estamos em ano eleitoral e no Rio, infelizmente, restou apenas um grande jornal em circulação que, por acaso, apóia o atual governador. Estou apenas especulando, é claro, mas a quem interessa manchetes escandalosas falando de “hordas” de desordeiros vagando por Ipanema? Sei lá, mas eles sabem muito bem…

Além do mais, foi essa mesma força de segurança que acabou com as manifestações populares, identificou e prendeu “terroristas” e garantiu que todos os cariocas voltassem a ser trabalhadores, ordeiros e obedientes. É difícil acreditar que não consigam controlar meia dúzia de manés na praia.

Conta outra, vai!

Foto: Carlos Emerson Jr.

Sábado no Lavradio

Tá bom, parece coisa de gente sem noção, mas eu explico: todo o primeiro sábado de cada mes é dia da Feira Rio Antigo, na histórica e mais que bicentenária rua do Lavradio, no centro da cidade, aberta por ordem e graça de Luis de Almeida Portugal Soares de Alarcão Eça e Melo Silva e Mascarenhas, o Marques do Lavradio, Vice-Rei do Brasil nos anos de 1769 a 1779. Aliás, foi a primeira rua residencial do Rio.

A feira de antiguidades, artesanato, cultura e culinária é um programão, recomendadíssimo para essa época do ano, quando o calor dá lugar a uma agradável e tépida temperatura. Rodamos a feirinha de cima para baixo e vice-versa, ao som de músicos de jazz, capoeira, samba e chorinhos. Rendeu uma mesinha de centro no estilo palito dos anos 60 para a nossa sala, uma placa de bicicleta estilizada e cerca de duzentas fotografias para o blog e futuros artigos, principalmente dos casarões lindamente conservados.

Um passeio imperdível, principalmente para cariocas como eu. Mais informações aqui.

Fotos: Carlos Emerson Junior

Basta de intolerância religiosa

As fotos foram feitas pela manhã, enquanto os participantes da “Sexta caminhada contra a intolerância religiosa” estavam chegando e se preparando para deixar sua mensagem de paz em Copacabana. Estava bonito ver umbandistas, candomblecistas, espíritas, judeus, católicos, muçulmanos, malês, bahá’ís, evangélicos, hare krishnas, budistas, ciganos, wiccanos, seguidores do Santo Daime, ateus e agnósticos juntos, em um ambiente festivo, todos unidos pelo mesmo sentimento.

Afinal, com ou sem religião, todos temos o direito de ter a nossa fé.