Mais um ano chegou

“Minha bermuda de ciclista pode ser feia. Mas sua barriga de motorista é muito mais.”; “Existe um tipo raro de carioca que não gosta de carnaval e eu mesmo sou um bom exemplo.”; “A gente luta, protesta, resiste, esperneia e até mesmo grita mas não tem jeito, por bem ou por mal acaba tendo que fazer as compras de Natal”; “Em pouco tempo ele já havia sido mercenário em Angola, baixista de um grupo de rock, astronauta de uma das missões Gemini, piloto de corridas, inventor da máquina de movimento perpétuo, descobridor da cura do câncer, escritor maldito, ator de Hollywood, compositor da MPB, pianista clássico, motorista de caminhão e, principalmente, amante de todas as mulheres do mundo!” “Mas o que podemos fazer para melhorar as condições de acessibilidade em nossas cidades?”; “O fim do mundo existe? Claro que sim, e alguns maldosos juram que fica em Brasília, naquele prédio com duas bacias no teto, uma para cima e outra para baixo.”; “A humanidade evoluiu, foi ao espaço, aumentou seu conhecimento e o medo continua lá, sempre a nossa espera.”; “Como serão nossas cidades no futuro? Quando vamos perceber que o atual modelo urbanístico, estimulando o transporte individual em veículos movidos com combustível fóssil já era?”;

Pois é, a gente passa o ano inteiro (ou uma vida toda) tirando palavras dos pensamentos para escrever uma crônica, um conto, um artigo, uma asneira qualquer e de repente, diante de uma chacina como a do presídio de Manaus ou a que aconteceu em Campinas, em plena festa da virada do ano, não poupando sequer o filho de dez anos do atirador, percebe que não sabe (ou não tem) nada a dizer sobre 2017.

Concordo com o antropólogo Roberto da Mata quando afirma que “preocupados com o futuro, que encolhe a cada dia, esquecemo-nos do presente. Pensamos em ir para Marte sem termos nos resolvido aqui na Terra”. (A primeira crônica do ano, O Globo). Talvez seja a hora de, literalmente, colocarmos os pés no chão. Os anos sempre (e apenas) refletem a nossa ação. Ou a falta dela.

Fora, fora, fora

Fora, grita o senador.
Fora, apoia o deputado.
Fora, fora, fora,
é o mantra de todas as bancadas.

Governadores se reúnem,
os prefeitos em massa aderem.
Fora, fora, fora,
vereadores em marcha protestam!

A mídia deita e rola,
palpita, debate, participa e informa:
fora, fora, fora
é, sem dúvida, a manchete do século.

Cientistas políticos dão palestras,
Socialites, intelectuais e sábios determinam:
fora, fora, fora,
a hora de mudar é agora!

Bancos, comércios, indústrias,
prestadores de serviços, todos exultantes,
aumentam suas taxas e preços.
Fora, fora, fora
de repente, virou slogan de vendas.

Nas ruas, quem diria,
o povo nem se divide,
Fora, fora, fora,
alegremente, é o tema do dia.

Veio a votação e, que lástima,
congressistas e juizes não se entendem,
um tal quorum não é atingido e
ninguém foi para fora.

No dia seguinte, de ressaca, a volta à normalidade:
discussões, acusações, ameaças, agressões.
Fora, fora, fora,
amanhã vai ser outro dia.