Falando de incêndios

Bombeiros, voluntários e a chuva impediram uma tragédia em Nova Friburgo. O incêndio do Morro da Cruz chegou perto do Colégio Anchieta e da Fundação Getúlio Vargas, além de ameaçar residências. Os danos foram enormes, inclusive a triste e lamentável destruição da flora e da fauna. Sua recuperação levará anos e vamos torcer para que as chuvas de verão não levem abaixo o que restou dos morros.

A questão agora é pensar na prevenção e na punição dos responsáveis, seja por ação ou omissão. A Lei 9.605, promulgada em 12 de fevereiro de 1998, em seu Capítulo V, seção II, artigo 41, afirma que provocar incêndio em mata ou floresta tem como pena a reclusão de dois a quatros anos e multa, ou se o crime for considerado culposo, pena de seis meses a um ano, mais a multa.

Tenho visto esses incêndios nas matas friburguenses desde que vim para cá, no final dos anos 90. Todo mundo concorda que eles assustam, poluem, destroem e colocam vidas em risco. O problema é que, passada a temporada do fogo, o assunto morre e fica tudo por isso mesmo, isto é, nenhuma investigação e muito menos qualquer punição, nem um multinha sequer. Por que? Onde estão as campanhas de conscientização, de educação? Cadê a fiscalização?

Não, meus caros, se não unirmos nossa indignação, vamos simplesmente esperar a possível tragédia de 2018, 2019, 2220 e por aí vai. Diversas prefeituras pelo Brasil afora tem seu plano de combate ao incêndio florestal. Não seria interessante saber como eles fazem? Nossa cidade e sua natureza é muito valiosa para desistirmos sem luta. O Corpo de Bombeiros está de parabéns pela presteza, coragem e determinação mas, sem apoio, terá cada vez mais dificuldades para impedir uma tragédia. E tragédia, meus caros amigos, já tivemos bastante.

Fotos: Antonio Varella, Osmar Castro, Adriana Oliveira, 6º GBM e A Voz da Serra

Onça-parda

“Acordou inquieto,
no meio da noite.
Seria sede
ou um maldito inseto?”

Por algum motivo não conseguia dormir direito. Inquieto, virava de um lado para o outro da cama e o sono ia e vinha intermitente, como se alguma coisa angustiante estivesse acontecendo. Sentou-se, olhou com inveja a mulher roncando suavemente e resolveu ir ao quintal beber um pouco de água. Abriu a porta de casa e foi até a torneira da fonte. Estava escuro mas o brilho das estrelas indicava o caminho. Privilégio de quem mora na roça, pensou. O ar gelado, típico da serra, incomodamente o abraçou.

Encheu a caneca e, quando ia beber, notou o vulto escuro sentado junto à cerca. Primeiro pensou que fosse o maldito sono voltando mas, o tal vulto virou a cabeça e o olhou com dois olhos brilhantes, hipnóticos. Jesus Cristo, aquilo era uma… uma onça-parda! E das grandes! E estava vindo! Tentou gritar, mas a voz não saiu. O felino já estava tão perto que podia sentir o bafo da respiração. Em pé estava, em pé continuou. Parado. Estático, aterrorizado e segurando uma caneca com a água da fonte.

O animal se aproximou, rodeou seu corpo, cheirou suas pernas, deitou-se bem na sua frente, abaixou a cabeça e cerrou os olhos. Sem pensar, abaixou-se devagar e pousou a caneca no chão. A onça levantou a cabeça e, para sua surpresa, bebeu toda a água. Caramba! Lentamente esticou o braço e abriu a torneira da fonte. A água pura e gelada jorrou no chão. A onça foi até a bica e bebeu como se não tivesse amanhã. Satisfeita, deu a volta e foi andando na direção da cerca. Lá, pulou com agilidade e desapareceu no meio da noite.

Incrédulo, voltou atarantado para dentro da casa e foi para o quarto. Ia acordar a mulher mas estava com tanto sono que só teve tempo de pensar que talvez fosse melhor deixar essa história para o dia seguinte. Encostou a cabeça no travesseiro e dormiu. Se sonhou com onças ou com as estrelas, nunca saberemos, mas seu rosto era pura felicidade. Coisa de sonhadores, sabe?

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Foto automática de trilha feita em Cordeiro, RJ, na Mata da Pena, por uma câmera da UPAm (Unidade de Policiamento Ambiental) do Parque Estadual do Desengano, na madrugada do dia 12 de agosto de 2017. (Juliana Scarini, G1)

Um lugar

Quando você andar por uma rua qualquer das Braunes (ou outro bairro qualquer), em Nova Friburgo, não se esqueça de olhar para o céu e as montanhas. Ouça o silêncio, respire o ar puro, valorize a tranquilidade. Pois é, meu caro amigo, eu sei que nem tudo o que reluz é ouro e perfeição é, quase sempre, um conceito inatingível, mas se não lutarmos pelos nossos sonhos, o que nos restará? Olhem o Rio…

Um ótimo fim de semana!

Parabéns prá você, Friburgo

O que escrever no aniversário de uma cidade que a gente gosta muito? Pois é, meu povo, Nova Friburgo está fazendo 199 anos, com algumas rugas, é verdade, mas um corpinho de 100. Anos, é claro! Lá ainda podemos sair com tranquilidade, curtir o frio seco das montanhas no inverno, morar cercado da Mata Atlântica, beber água da nascente, tomar banho de rio gelado e, principalmente, ser acolhido calorosamente pelos felizardos que moram o ano inteiro lá em cima.

Parabéns, Nova Friburgo. Parabéns, Friburguenses!

Fotos: Carlos Emerson Junior

Chuva!

Foto: Carlos Emerson Junior

Bastou subir para Nova Friburgo, para reencontrar amigos, natureza, paz e chuva. É, a chuva de verão que desapareceu do Rio já tem mais de doze dias, está por inteira aqui na Serra Fluminense, sempre à tardinha e baixando a temperatura para incríveis (para um carioca) 18º, um friozinho gostoso, bom para dormir ou até mesmo ir ao centro curtir o Carnaval (animadíssimo este ano). Pois é, o feriadão começou muito bem e a foto, feita da janela aqui de casa, mostra (ou melhor, não mostra, né?) o Pico do Caledônia encoberto pela chuva.

As cerejeiras

“À sombra das cerejeiras em flor,
pessoas de todo estranhas
não há.”
(Kobayashi Issa, 1763-1827)

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Estive em Nova Friburgo no sábado, dia 16. A cidade continua e linda e melhor, suas cerejeiras, trazidas pelos imigrantes da colônia japonesa e beneficiadas pelo clima da serra, estão todas floridas. Uma florada efêmera, curta e intensa. Símbolo do Japão, as cerejeiras era muito apreciadas pelos antigos samurais e passou a representar a efemeridade da existência humana e ao lema dos samurais: viver o presente sem medo. Assim, a flor de cerejeira está também associada ao código do samurai, o Bushido. Como não levei uma câmera decente (celular não vale) e só permaneci um dia, fiz a colagem acima com antigas fotos, da época que estava todos os dias por lá. Aliás, bem em frente de minha casa tem uma dessas belas árvores. A cidade fica mais alegre, luminosa e, por que não, perfumada.

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Fotos: Carlos Emerson Junior

Cachorros

Foto: Carlos Emerson Junior

Braunes, Nova Friburgo, inverno de 2010. Lá ia eu na minha corrida matinal quando dei de cara com um salsichinha preto, amistoso e festeiro, pulando na minha perna. Fiz uma afago em sua cabeça e bati palmas na casa mais à frente. Não deu outra: era o Toquinho que, levado como todo o daschund que se preza, aproveitou a porta aberta e saiu para explorar o mundo.

Retomei o ritmo e continuei o exercício ladeira acima. De repente ouço o grito: – Tio, pega o Thor, pega a Lisa! Voltei e lá vinham três boxers brancos, lindíssimos, a toda velocidade bem na minha direção. Acelerei a corrida e consegui segurar o Thor, uma simpatia só. Enquanto rebocava o bicho para casa, sua dona, de carro, conseguiu recapturar os outros dois, lá em cima, na Curva da Macumba.

Pois é, e eu ainda nem tinha conhecido a “minha” cachorra Filó…

Foto: Carlos Emerson Junior

 

 

A hora das chuvas

 

A crônica abaixo foi publicada no jornal friburguense A Voz da Serra, na edição de 31 de março de 2011. A foto, feita por mim mesmo alguns dias depois da tragédia, mostra uma parede da Capela de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, duramente atingida pelos desabamentos. Nova Friburgo voltou ao normal, embora algumas cicatrizes ainda estejam expostas. Mas, cinco anos depois, fico com a incômoda sensação de que não aproveitamos a oportunidade para reconstruir uma cidade completamente nova. Pois é, 12 de janeiro é uma data para nunca se esquecer. (Carlos Emerson Junior)

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Vamos definir chuva ? Bom, segundo o Wikipédia, chuva não passa “de um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de gotas de água no estado líquido sobre a superfície da Terra”.

A chuva está aí desde que o planeta começou a esfriar. Alimenta os rios, irriga as plantações, suporta a vida. Quanto mais chuva, mais exuberante a natureza. Basta dar uma olhada lá pelos lados da Amazônia, que só tem duas estações no ano: chuva e muita chuva!

O homem convive com a chuva a mais ou menos uns 300 mil anos, tempo mais do que suficiente para conhecê-la muito bem. Aliás, essa convivência já deve ter sido gravada em nossos DNAs.

No entanto….

No dia 22 de janeiro de 1967 tive minha primeira experiência com a chuva em seu estado bruto. Estava indo para São Paulo de ônibus quando, por volta das 23:30 horas, uma tromba d’água destruiu tudo que estava em sua frente na subida da Serra das Araras. Uma árvore enorme despencou da encosta ao lado e funcionou como uma barreira, desviando do nosso veículo toda a lama que descia pelo que restou da estrada.

Ao amanhecer, fomos resgatados por militares do exército e até hoje guardo a terrível visão de gente morta para todos os lados, ônibus semienterrados, uma devastação completa.

Quarenta anos se passaram e no dia 5 de janeiro de 2007, subindo a serra para Nova Friburgo, a chuva resolveu me mostrar novamente seu poder, desabando impiedosamente. Na altura de Mury, também por volta das 23 horas, fomos obrigados a parar devido a quedas de várias barreiras, tendo uma delas (em frente a entrada da AABB) atingido um ônibus da 1001 que ia para São Paulo.

Desta vez não esperamos ajuda. Com uma lanterna de mão, formamos um um grupo e, com a ajuda de funcionários da rodovia e da empresa de luz, conseguimos chegar encharcados mas inteiros na Rodoviária Sul, onde um taxista nos deixou em casa.

As onzes mortes, o grande número de desabrigados e a destruição da cidade me deixou com a plena convicção de que, pelo menos em Friburgo, isso não se repetiria nunca mais. Afinal, as chuvas não vão parar, mas os rios seriam dragados, bueiros limpos, pessoas em áreas de risco removidas, um sistema de alarme instalado.

No dia 12 de janeiro de 2011 dormia tranquilamente, no Rio de Janeiro. Tinha uma passagem comprada para Friburgo na hora do almoço e absolutamente nada para fazer pela manhã . Fui despertado por uma ligação de minha mulher, assustada, pedindo para ligar a TV. Mal acordado, custei para entender o que estava acontecendo. As notícias, vagas e genéricas, falavam em 9 mortes e citavam os bombeiros da Cristina Ziede. Fui ao telefone e tentei falar com o condomínio da minha casa. Inútil. Procurei amigos, conhecidos e até lojas, sem sucesso. Todos os telefones estavam mudos.

Aos poucos, pelas redes sociais, foram chegando relatos esparsos e um quadro de horror foi se delineando. As poucas vítimas das primeiras horas chegaram a quase 500 mortos, só em Nova Friburgo.
Uma tragédia nunca antes vista.

Não fizemos o dever de casa, apesar do aviso deixado apenas três anos antes. Continuamos morando irregularmente, sujando e assoreando os rios, tratando a natureza como se fossemos superiores às intempéries.

O clima mudou, isso é fato. Um pequeno aumento da temperatura já é suficiente para alterar regimes de chuvas, formando grandes e contínuas tempestades e também, ao contrário, provocando longos períodos de estiagem, esvaziando os mananciais e destruindo as lavouras, além dos incêndios florestais, um perigo sempre presente.

Nas primeiras horas o friburguense, ainda atordoado, mostrou união, solidariedade, seriedade, disposição e desapego. Graças a isso e, claro, a enorme generosidade de todos os brasileiros, salvamos vidas, bens, animais e evitamos uma destruição ainda maior.

Daqui para a frente será apenas por nossa conta. As chuvas continuarão seu ciclo e, de vez em quando, trovejarão mais forte. Temos a obrigação de nos preparar para sobreviver, respeitando a natureza.

Simples assim.

Uma ponte estreita

 

– Olha que confusão!
– Mas tem uma placa avisando, “Atenção Ponte Estreita”.
– E cavalo lá sabe ler placa?
– Pô, claro que não sabe. Cavalo é um animal irracional, esqueceu?
– Ah! Mas o condutor do veículo com mais de 30 cavalos com certeza sabe ler!
– Será?
– Claro, pra guiar carro tem que saber ler. É a lei, meu.
– Então vai lá e fala isso pros cavalos.
– Mas que cavalos? Os irracionais ou os trinta cavalos de força?
– Tá me gozando, né?
– Nem um pouco. Cavalo irracional não anda pra trás. E os trinta cavalos de força dependem do condutor.
– E porque o condutor não levaria seus cavalos de força para trás?
– Orgulho. Ele tem trinta cavalos e os outros são apenas dois. Ele tem o poder.
– Não senhor. Ele tem a força, mas não o poder. E ademais, quando chove por essas bandas, só de cavalo mesmo. Os irracionais.
– Pois eu bem que gostaria de uns cavalinhos de força.
– Você sabe quanto custa manter esses trinta cavalos? Os irracionais é só soltar no pasto.
– Esquece isso, vamos sentar no quintal lá de casa para esperar a janta?
– Tem cerveja?
– Ô!
– Então vamos. Mas agora quem volta galopando o cavalo branco sou eu!

Ensaio sobre uma foto tirada em São Pedro da Serra, Nova Friburgo, em algum dia de fevereiro de 2009.

Era uma vez um eucalipto

Nova Friburgo tinha uma praça com eucaliptos. Além de muito bonita, era nobre. Afinal, foi projetada e construida pelo botânico francês Auguste Glaziou, a pedido do Barão de Nova Friburgo, nos tempos do Segundo Império. A praça foi tombada em 1972, como “Patrimônio Nacional”. Seus eucaliptos tinham dupla função: sanear o pântano sobre o qual a praça foi construida e criar uma feição paisagística única.

O tempo passou, os eucaliptos fizeram cem anos de idade e, como tudo no Brasil, ninguém ligou. Até que um dia, seus galhos começaram a cair. As autoridades, esquecendo que isso é normal em todas as árvores, conseguiu um laudo de uma faculdade local recomendado a retirada das árvores. Para piorar, um órgão federal veio com um outro parecer pedindo o corte de quase todos os eucaliptos que restaram. Esse, pelo menos mostrou as caras e trouxe a reboque um projeto de reforma custando muitos milhões de reais.

As autoridades nem pestanejaram e enviaram seus batalhões de motosserras. A poda foi rasa, indiscriminada, criminosa e covarde. A população se dividiu, a maioria não ligou ou aplaudiu, afinal, Nova Friburgo já tem tantas matas… No entanto, uma minoria foi para a praça, abraçou as árvores, fez barulho e acabou atraindo a atenção da mídia, do MP e de pessoas que amam a cidade e, principalmente, a vida.

Na sua edição de hoje, o jornal A Voz da Serra traz uma declaração contundente do biólogo Cláudio Valente, da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana, após analisar, in loco, os troncos dos eucaliptos cortados: “para mim, há falta completa de critérios para cortar essas árvores. Ainda não me apareceu nada que tivesse sustância para me dizer que precisam cortar essas árvores, nem o que me mandaram por e-mail, nem o que tem aqui e nem isso aqui”.

Como estou longe, deixo esse texto como meu abraço nos eucaliptos. A Praça perdeu, talvez irremediavelmente, sua beleza. E Nova Friburgo, a cada dia que passa, se transforma numa cidade sem alma, como tantas outras deste país afora.

Que pena.

Fotos: Alessandro Rifan, Osmar Castro, Montagna Filmes e Multimídia, Girlan Girland, Scheila Santiago e grupos “Nova Friburgo, Cidade das Árvores Assassinadas” e “Abraço às Áárvores – SOS Praça Getúlio Vargas