Um amigo

Foto: Carlos Emerson Junior

A caminhada na manhã de hoje, uma segunda feira, mostrou Friburgo ensolarada mas ainda com o resto do frio da madrugada e completamente vazia. Do Sans Souci até o Bairro Ypú, passando pelo Alto das Braunes, Santa Elisa e Catarcione, ônibus, carros e pessoas transitando eram raridades. Parecia um domingo mal colocado, como se o calendário tivesse enlouquecido.

Andei trechos enormes sem cruzar com ninguém. Quase não vi bicicletas, o que é uma pena, a cidade está ótima para elas. Na Praça Marcílio Dias, no Paissandú, reapareceu a civilização, mas muito distante do habitual. Algumas lojas se preparando para abrir, rodinhas em algumas bancas de jornais e um ou outro gato pingado naqueles botequins que nunca fecham.

Na Avenida, aí sim, muita gente aproveitando o sol para se exercitar. Um casal de namorados em um banco à margem do Bengalas, idosos para lá e pra cá, além da turma que sempre traz o cachorro para andar. Voltando para casa, subindo as Braunes, a mesma solidão do início da jornada diária: ninguém nas ladeiras ou na Estácio (não teve aula).

Para não dizer que não conheci ninguém, aí em cima está o amiguinho que não quis conversa comigo na petshop, mas posou como um modelo aqui para o Blog. Gente boa, até a gatinha da loja gosta dele. Em tempos estranhos, difíceis mesmo, uma imagem simpática não tem contraindicação. E se você sorrir, melhor ainda.

Boa semana.

Cedro do Líbano

Foto: Carlos Emerson Jr.
A caminhada-treino de hoje teve um propósito, um destino. Fui até os jardins do Country Clube para ver o Cedro do Líbano, recém-plantado no último dia 5 de maio pelo pessoal da colônia libanesa de Nova Friburgo. Gostei. Uma placa de metal identifica a muda, que está devidamente protegida de seres irracionais e racionais por uma gaiola de ferro. Uma cartaz maior, com os versos do Salmo 92.13 e 15, chama a atenção para o pequeno broto.

Fico aqui, pensando, quanto tempo leva para um Cedro do Líbano crescer. O Google, consultado, não se faz de rogado e informa que é uma árvore grandiosa, de crescimento bem lento, podendo atingir 40 metros de altura e 14 metros de diâmetro no tronco. É o símbolo do Líbano e é citado mais de 70 vezes na Bíblia. Também é chamado de o Cedro de Deus.

Será que algum dia o verei lindo, bonito, imponente, único em nossa cidade? Possivelmente não, mas não importa. Saber que estamos criando um ser vivo que vai durar séculos é, definitivamente, um legado da festa dos nossos 200 anos. Cabe a nós, friburguenses da gema, adoção e coração cuidar, proteger e amar o nosso Cedro do Líbano.

Como o nosso futuro, não é mesmo?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Feliz aniversário, Nova Friburgo

Fotos: Carlos Emerson Jr.

Parabéns, Nova Friburgo, você merece. Não é todo o dia que uma cidade faz duzentos anos, recebendo de braços abertos, como um porto seguro, forasteiros em busca de qualidade de vida, clima generoso, ar puro e, principalmente, andar em suas ruas sem medo. Já nos conhecemos há mais de vinte anos, não é mesmo? Ah, naqueles dias você flertava com os turistas, seduzindo-os com seus encantos, suas matas, seu povo generoso e simpático. Pois é, fui uma de suas vítimas, Nova Friburgo e aqui estou, pronto para aplaudir, comemorar, cobrar, consertar, ajudar você se levantar novamente, graciosa e encantada.

Feliz 200 anos!

Publicado no site Transparência Nova Friburgo.

Floresta alpina

Foto: Carlos Emerson Junior

Caramba, será uma floresta alpina? Austria? Suiça? Bavária (o estado alemão e não a cerveja)? Liechtenstein? Uma estradinha nas montanhas, em pleno verão? Que nada, é apenas um cantinho do Cônego, bem no final da Via Expressa. Tanto tempo depois, Nova Friburgo continua me surpreendendo em cada caminhada.

Vila Operária

Foto: Carlos Emerson Junior

Trecho parcial de casas da Vila Operária da Fábrica Filó, em Nova Friburgo. O site Educação Pública, do Governo do Estado do RJ, conta que “em janeiro de 1925, numa região pantanosa chamada Vila Amélia, inicia-se a construção dos primeiros edifícios da fábrica, além das casas para seus operários, parque recreativo, junto a uma floresta de eucaliptos, pinheiros, madeira de lei, transformando o que foi um brejo numa área habitável, industrial, recreativa, geradora de empregos diretos e indiretos. Em 17 de setembro de 1925, as primeiras máquinas de filó começaram a operar na cidade e no Brasil, contando com 120 operários, tendo como sócios-fundadores os Srs. Carls Siems, Julius Arp e Otto Siems.”

Grande parte das instalações da fábrica hoje abrigam a Faculdade de Engenharia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Algumas casas que restaram da vila ainda estão ocupadas.

Andando por aí

Foto: Carlos Emerson Junior

“Caminhar pela cidade é uma forma de mobilidade urbana. Caminhar pelas calçadas e ruas da cidade deixando o olhar se perder entre as frestas de céu que edifícios, casas e árvores deixam entrever. Tomar cuidado com o buraco da calçada e não perder de vista o fluxo incessante de pessoas e as milhões de oportunidades de observação do inusitado, do espontâneo e do não-programado. Chegar onde se deseja, sem deixar escapar da vista o caminho.”

Pois é, o Mobilize e O Aprendiz estão aí para nos lembrar que andar a pé é a maneira mais simples e barata de ir do ponto A até o B ou, simplesmente, passear sem rumo. Concordo e confesso, é a minha maneira favorita de me deslocar, principalmente numa cidade fotogênica, calma e com clima amigo como Nova Friburgo. Pena que as calçadas ainda não são bem cuidadas, mas a gente chega lá.

Encontrei e fotografei essa caixa de correio andando ao acaso em uma rua do Vale dos Pinheiros, um bairro residencial muito bonito, que só pode ser apreciado a pé. Aproveite os dias ensolarados na serra, coloque um tênis e caminhe. A cidade pede para ser descoberta.

Carta aberta à Faol

Um dos muitos motivos da compra do meu apartamento no Sans Souci, no final da década de 90, era a linha que a Faol operava, ligando as Braunes à antiga Rodoviária de Integração, a cada 40 minutos. Os ônibus meio antigos, geralmente mal conservados, cumpriam o horário britanicamente, sem o menor atraso.

E não ficava só nisso: uma vez pela manhã e outra no final do dia, o ônibus subia o Alto do Sans Souci. Além disso, quando a Estácio de Sá trouxe sua Universidade para cá, criaram uma linha direta com uma ou duas viagens à noitinha, para atender alunos, funcionários e professores. Resumindo, você não precisava usar o carro para ir ao centro, evitando estacionamentos, engarrafamentos e, é claro, diminuindo a poluição atmosférica. A linha 101 estava ali para isso mesmo e funcionava bem.

O tempo passou, a Faol, uma empresa friburguense foi vendida para uma famosa empresa carioca, parece que não deu certo e passou para as mãos de um consórcio de empresas da Baixada Fluminense e do Rio. Chegou cheia de moral, colocou nas ruas 30 ônibus novos, todos climatizados mas, infelizmente, acabou com a linha das Braunes. Aliás, vamos ser justos, de uma só tacada prejudicaram também os moradores do Tingly.

Voltei a morar em Friburgo no dia 16 de novembro do ano passado. Quando fui descer para o centro, levei um susto! O pessoal do condomínio me avisou que o horário dos ônibus havia mudado e o intervalo agora era de inacreditáveis 70 minutos, uma hora e dez minutos, um verdadeiro absurdo, com danosas consequências para a população residente e trabalhadora!

Como se programar diante de uma espera de uma hora e dez minutos? Como ficam os passageiros que vem de outros bairros e precisam trocar de linha, fazer baldeação? Com certeza vão pagar duas passagens. Muita gente tem descido e subido a pé, uma maldade já que as ruas das Braunes são, basicamente, ladeiras íngremes. E nos dias de chuva, como fica? Chama um táxi? Tira o carro da garagem? Então para que servem os ônibus?

Senhores responsáveis pela Faol, fica o apelo para o modelo atual seja revisto e alterado. Agradeço antecipadamente a atenção.

Foto: Thiago Silva

A torre

Foto: Carlos Emerson Junior

Aquilo não podia ser normal. Desde criança, pequeno mesmo, sempre que passava pela torre onde ficava a caixa d’água, parava bem embaixo e ficava olhando para cima, para o topo, querendo adivinhar se algum dia conseguiria a subir até o alto para ver como era o mundo lá do alto.

A medida que ia crescendo, a curiosidade aumentava. Entrar na torre não era tarefa simples. Seus pais, já sabendo da esquisitice, alertaram os funcionários do condomínio para não ficarem de olho: qualquer bobeada e o menino era bem capaz de se mandar escadaria acima.

Secretamente traçava planos para “tomar de assalto” a torre da caixa d’água. Percebeu que à noite, depois que os empregados iam embora, o único impedimento era a porta de acesso ao alojamento e depósito, que ficava na sua base e dava acesso à escadaria, devidamente trancada.

Uma vez tentou: escalou o muro que cercava o condomínio (aproveitando escada de pedreiro esquecida), passou para o teto do cômodo de baixo, olhou para os lados, lembrou da avó e se benzeu, colocou o pé direito no primeiro degrau, segurou com força a lateral, tomou impulso e começou a subida. Mal chegou no terceiro degrau ouviu o grito agudo e imperial da mãe! Pulou fora, em pânico, e só não levou uns cascudos porque sua bendita avó não permitiu.

O tempo passou, a faculdade o formou, uma moça com ele se casou, para uma outra cidade se mudou, uma filha chegou . No entanto, lá longe, nas imagens esquecidas da infância, a torre continuava lá, enorme, inexpugnável, desafiando as alturas, chegando ao céu, a grande aventura proibida. Quando sua mãe faleceu, após o sepultamento e a reunião com os parentes, caminhando pelo velho condomínio onde brincara tanto, deu de cara com ela, desafiadora.

Nunca se soube o que passou pela sua cabeça. Com um pulo, subiu o muro, saltou para a base da escada e, rápido como um raio, subiu com o olhar fixo nos degraus até chegar ao topo, a parte de cima do reservatório de água. Ficou em pé e olhou em volta. Era alto, mas a paisagem, cheia de ruas e casas, era completamente diferente do que esperava encontrar, a grande mata que existiu em algum momento dos anos 80.

Sentou, acendeu um cigarro e foi tomado por uma sensação de alívio. De alguma maneira, tinha exorcizado um fantasma do passado. Um fantasma bobo, é verdade, mas sempre um fantasma. Alguns minutos depois, lembrou-se que a vida continua e resolveu descer. Uma pena que não era uma criança. Teria sido muito mais divertido.