Prelúdio de Chopin

Um dos maiores arrependimentos que até hoje carrego no coração foi não ter estudado piano, como minha irmã muito acertadamente fez. E nem tenho como justificar que não fui estimulado, já que ela mesma muitas vezes me ensinava alguns acordes e até mesmo a entender algumas partituras.

Lembro que às vezes ficava quieto, acompanhando seus estudos no teclado. Logo depois, assumia o piano e tentava, de maneira tosca, é claro, repetir o que ouvia. O pior é que de vez em quando acertava e, feliz da vida, me via literalmente “assassinando” uma obra de arte de Beethoven ou Rachmaninoff. Isso sim, era um baita desrespeito.

Felizmente para a música, desisti de ser um pianista autodidata (eufemismo para “tocar de ouvido”) mas aprendi que Música Clássica era um assunto muito sério, além de profundamente belo. Ouvir Tchaikovsky, Bach, Brahms, Schubert, Wagner, Liszt, Debussy, Mahler e Mozart era como descobrir um mundo inteiramente novo.

Meu compositor preferido, no entanto, sempre foi o polonês Fryderyk Franciszek Chopin, um gênio que morreu com apenas 39 anos de idade mas deixou uma obra grandiosa, 264 trabalhos entre prelúdios, noturnos, valsas, mazurcas, sonatas, estudos, concertos e ainda 20 músicas para voz e piano, em sua língua natal.

Arthur Rubinstein, um dos maiores intérpretes de Chopin, escreveu o seguinte depoimento:

“Chopin fez uma revolução na música tradicional para piano e criou uma nova arte do teclado. Era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma “música romântica”, no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!”

E é com o próprio Rubinstein ao piano que fica o vídeo com o Prelúdio Opus 28, número 20, uma pequena obra-prima:

A saga de Chopin

 

Outro dia desses publiquei essa foto da estátua de Chopin em uma rede social e descobri que muita gente boa sequer tinha noção da sua existência. Assim, depois uma boa pesquisa no onipresente Google, encontrei um bom resumo no site Urca.net que, inclusive, conta a história dos principais prédios e demais monumentos do bairro. Vale a visita. (Carlos Emerson Jr.)

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“No dia 1°. De setembro de 1939 as tropas nazistas atacavam a pacífica Polônia. O ataque foi tão devastador que três semanas depois os soldados alemães colocavam seu tacão em Varsóvia. Dentre as muitas barbaridades praticadas pelos invasores, uma das primeiras foi a de destruir o monumento ao compositor romântico polonês Frédéric Chopin existente naquela cidade.

Quando a notícia chegou ao Brasil, a comunidade polonesa aqui residente resolveu reagir, organizando uma subscrição para angariar fundos com o objetivo de erguer um monumento a Chopin no Rio de Janeiro. Obtida a verba necessária, encomendaram a estatua ao escultor Augusto Zamoyski. Com 2,5 metros de altura e todo em bronze, o monumento ficou pronto ainda em 1939. Entretanto, a politica dúbia do governo brasileiro, oficialmente neutro, mas relativamente simpático aos alemães, adiou sua instalação por alguns anos.

Com o torpedeamento de navios brasileiros e a posterior declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo, desengavetou-se a ideia da estátua. Em 1°. de setembro de 1944, no quinto ano da invasão da Polônia, foi inaugurado o monumento a Chopin na Praça Floriano, defronte ao Teatro Municipal. Lá ficou em paz por exatos quinze anos.

Em fins de 1959, o barítono Paulo Fortes iniciou uma campanha para erguer na Praça Floriano um monumento ao maestro e compositor Carlos Gomes. Conseguida rapidamente a estatua em bronze do maestro brasileiro, começou então uma campanha para dali remover a homenagem a Chopin, por considerarem incompatíveis os dois monumentos. Um outro grupo de intelectuais não via problemas na homenagem aos dois compositores na mesma praça, mas Paulo Fortes não pensava assim e, usando de sua influencia, conseguiu a remoção. Em 15 de Janeiro de 1960, o monumento a Chopin foi retirado à noite por funcionários da Prefeitura, sendo levado para um depósito. No dia 16, pela manhã, estava em seu lugar o maestro brasileiro.

Depois de algum tempo esquecido num depósito, o monumento foi colocado na Praia Vermelha em 1964. Chopin foi retratado em posição de quem medita e escuta. No final das contas, a romântica Praia Vermelha acabou se tornando a moldura perfeita para o mestre do romantismo. A estátua tem 2,5m e está sobre um pedestal de granito com um metro de altura.”