Ódio

Foto: Carlos Emerson Junior

No poste tinha uma palavra, “hate”, ódio em inglês. Como sei que postes não odeiam ninguém, claro fica que alguém foi lá e escreveu. Não sei se o ódio desse alguém é com a nossa língua, com o próprio poste ou a humanidade em geral. Posso estar enganado, de repente “hate” é apenas uma sigla ou sei lá, a assinatura de um artista ainda desconhecido.

Confesso, fiquei cismado. Para que serve o ódio? Seria realmente a antítese do amor? O escritor gaúcho Érico Veríssimo garantia que “o oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.” É… Pode ser. Mas indiferença não faz ninguém escrever “hate” em um poste ou rechear as redes sociais com demonstração de ódio explícito, sem o menor pudor!

Pessoalmente e com toda a sinceridade, acho o ódio um sentimento muito ruim, negativo, desgastante, inútil mesmo. Quando você declara seu ódio, está fechando qualquer tipo de diálogo, conhecimento. Aliás, o francês Sthendal uma vez declarou que “já havia vivido o suficiente para ver que a diferença provoca o ódio.

Pois é, talvez seja por aí. O medo também é associado ao ódio e tudo isso vem do desconhecimento e, porque não, da falta de empatia e respeito entre seres ditos humanos. Perseguições de raças, religiões, culturas, comportamentos, caramba, acho que isso existe desde que o homem saiu das cavernas.

Lamentavelmente, em pleno século 21, com toda a tecnologia disponível para nos unir em todos os cantos do planeta, cada vez mais nos refugiamos em nossos cantinhos, amargurados até o pescoço, odiando tudo e todos que nós não entendemos, desconhecemos ou tememos.

Como disse acima, as redes sociais, através das figuras dos políticos, “formadores de opinião”, pastores e que tais, se presta muito bem para disseminar mensagens de ódio como um efeito manada, onde ninguém questiona o que ouve/lê/vê, exatamente porque não sabe ou quer ouvir/ler/ver. Onde foi parar nosso senso crítico, se é que já tivemos algum?

Não, meus caros, não vou me alongar mais por causa de uma palavra em inglês pintada em um poste numa rua deserta das Braunes, aqui em Nova Friburgo. Prefiro encerrar com uma frase do Jorge Luiz Borges, falando de amor, que é tudo o que nos resta, no fim das contas:

“Parece-me fácil viver sem ódio, coisa que nunca senti, mas viver sem amor acho impossível.”

Carlos Emerson Junior

Inspiração, cadê você?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Da janela do meu escritório eu vejo o Caledônia. Por cima dos telhados das casas, muito além da antena da Rádio Friburgo e, nesses dias de março, sempre enevoado e chuvoso. No outono o sol bate forte pela manhã e a rocha fica que nem ferrugem, contrastando com o céu bem azul e limpo.

Essa é a minha janela. Coloquei a escrivaninha bem ao lado dela. Meu desktop, as anotações, rascunhos, fotos, telefones, o pendrive… Enfim, é aqui que eu trabalho. Inspiração? Com essa vista? Sei não, às vezes atrapalha. Distrai sabe, a gente fica olhando, divagando, agora, por exemplo: a montanha está dentro das nuvens e só vejo a chuva caindo lá pelos lados do Cônego.

Tudo muito cinza, muito escuro. Aliás, com licença que vou baixar o vidro, está batendo um vento gelado! Mas onde eu estava? Ah sim, inspiração! Curiosamente, não conheço a montanha. Dizem que em dias claros, lá do alto podemos ver o Rio e a Baia da Guanabara. Também falam que a subida é fácil, apesar de longa. Talvez um dia…

E lá estou eu fantasiando novamente. As nuvens que rodeiam a montanha agora vem rápido em minha direção. O vento forte faz as janelas baterem e trovões já se fazem ouvir. Vai chover outra vez e eu aqui no escritório, ao lado da janela, precisando escrever um texto, qualquer um!

Inspiração? Onde foi parar você, minha cara? Olhando para a janela, só consigo mesmo é sonhar.

(2008/2018)

Guerras justas?

Foto: Carlos Emerson Jr.

O que seria uma guerra justa? Uma guerra religiosa? Racial? De defesa? Ou de expansão? Civil? Revolucionária? De libertação? Vingança? Retaliação? Segurança? A única saída? A guerra que vai acabar com todas as guerras? Não, decididamente não sei o que é uma guerra justa.

Guerras são imorais, aéticas, selvagens, a barbárie levada ao seu paroxismo. Guerras servem para dominar, exterminar, subjugar e escravizar. Só nos séculos 20 e 21, quase 90 milhões de pessoas morreram em conflitos que vão desde as duas guerras mundiais, até os brutais massacres em nome de sei lá o quê.

A guerra é a falência do ser humano. Se nos consideramos “animais racionais”, matamo-nos com uma fúria não encontrada sequer nos grandes predadores “irracionais”. Chegamos a tal ponto de “sofisticação”, que temos um arsenal nuclear capaz de destruir toda a vida no planeta, pelo menos umas quatro vezes.

O escritor português José Saramago afirmou que “é mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz”. De fato, basta ver que a História mostra que os breves intervalos de paz serviram para a preparação das guerras futuras. Aliás, todas as guerras foram declaradas em nome da paz, uma blasfêmia inominável.

Não, a verdade é que não existe guerra justa ou santa. É tudo guerra, trazendo morte, sofrimento e miséria para ambos os lados. Sem vitoriosos, sem honra, sem glória, sem heróis. A guerra é a morte do diálogo, do amor, da empatia, da humanidade. Guerra é nossa maldição, para todo o sempre.

Um amigo

Foto: Carlos Emerson Junior

A caminhada na manhã de hoje, uma segunda feira, mostrou Friburgo ensolarada mas ainda com o resto do frio da madrugada e completamente vazia. Do Sans Souci até o Bairro Ypú, passando pelo Alto das Braunes, Santa Elisa e Catarcione, ônibus, carros e pessoas transitando eram raridades. Parecia um domingo mal colocado, como se o calendário tivesse enlouquecido.

Andei trechos enormes sem cruzar com ninguém. Quase não vi bicicletas, o que é uma pena, a cidade está ótima para elas. Na Praça Marcílio Dias, no Paissandú, reapareceu a civilização, mas muito distante do habitual. Algumas lojas se preparando para abrir, rodinhas em algumas bancas de jornais e um ou outro gato pingado naqueles botequins que nunca fecham.

Na Avenida, aí sim, muita gente aproveitando o sol para se exercitar. Um casal de namorados em um banco à margem do Bengalas, idosos para lá e pra cá, além da turma que sempre traz o cachorro para andar. Voltando para casa, subindo as Braunes, a mesma solidão do início da jornada diária: ninguém nas ladeiras ou na Estácio (não teve aula).

Para não dizer que não conheci ninguém, aí em cima está o amiguinho que não quis conversa comigo na petshop, mas posou como um modelo aqui para o Blog. Gente boa, até a gatinha da loja gosta dele. Em tempos estranhos, difíceis mesmo, uma imagem simpática não tem contraindicação. E se você sorrir, melhor ainda.

Boa semana.

Cedro do Líbano

Foto: Carlos Emerson Jr.
A caminhada-treino de hoje teve um propósito, um destino. Fui até os jardins do Country Clube para ver o Cedro do Líbano, recém-plantado no último dia 5 de maio pelo pessoal da colônia libanesa de Nova Friburgo. Gostei. Uma placa de metal identifica a muda, que está devidamente protegida de seres irracionais e racionais por uma gaiola de ferro. Uma cartaz maior, com os versos do Salmo 92.13 e 15, chama a atenção para o pequeno broto.

Fico aqui, pensando, quanto tempo leva para um Cedro do Líbano crescer. O Google, consultado, não se faz de rogado e informa que é uma árvore grandiosa, de crescimento bem lento, podendo atingir 40 metros de altura e 14 metros de diâmetro no tronco. É o símbolo do Líbano e é citado mais de 70 vezes na Bíblia. Também é chamado de o Cedro de Deus.

Será que algum dia o verei lindo, bonito, imponente, único em nossa cidade? Possivelmente não, mas não importa. Saber que estamos criando um ser vivo que vai durar séculos é, definitivamente, um legado da festa dos nossos 200 anos. Cabe a nós, friburguenses da gema, adoção e coração cuidar, proteger e amar o nosso Cedro do Líbano.

Como o nosso futuro, não é mesmo?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Saúde!

Esse ‘causo’ aconteceu no longínquo e perdido ano de 2015, lá na ex-cidade maravilhosa.

Caminhada no final da tarde na praia, na direção do Posto Seis. Domingo, uma multidão saindo da areia na direção das estações do Metrô e pontos de ônibus e uma outra chegando para tomar um vento e ver as modas, como se falava antigamente, cruzavam animadamente o calçadão, mal dando espaço para andar. E não é figura de linguagem não!

Segurei a mão da minha mulher e lá fomos nós seguindo o fluxo que ia para o sul e desviando do contra fluxo rumo norte. Foi quando meu nariz começou a coçar. Aliás, quem tem rinite sabe o que estou falando. Sem dar tempo sequer de fungar, soltei um espirro de alívio, em alto e bom som que, como efeito colateral, assustou quem ia e vinha pela via. Minha mulher me olhou muito séria, com os olhos arregalados:

– Cara, que susto que você me deu! Precisava espirrar tão alto? Você tremeu tanto que pensei que tinha sido atingindo por uma bala perdida! Não faça mais isso, todo mundo se assustou. Só esse ano mais de 36 pessoas já foram atingidas por balas perdidas e dois casos foram aqui em Copa. Toma juízo!

Para meu espanto, uma pequena roda se abrira e as pessoas, me olhando com curiosidade, pareciam concordar com a bronca. Tá bom, espirrei alto, talvez herança dos espirros escandalosos que meu pai dava, sempre no meio da rua, que me levavam às gargalhadas. Só esqueci que isso foi há mais de 50 anos, quando o Rio ainda era uma cidade risonha e franca, sem balas perdidas, por óbvio.

Bons tempos.

Carlos Emerson Junior (2015)

Outra Caminhada

E não é que antigas crônicas às vezes não envelhecem? Essa aí de baixo, publicada no jornal A Voz da Serra, de 25 de novembro de 2011, continua atualíssima e ensina um passeio imperdível para friburguenses e turistas. Olha os 200 anos chegando aí, gente!

oOo

Foto: Carlos Emerson Junior

Vamos falar de caminhadas outra vez? E que tal explorar um trajeto todo urbano e com dois atrativos especiais, a vista estonteante da cidade e belíssimas obras de arte, representando figuras importantes da história de Nova Friburgo? Pois é, estou falando da travessia Braunes – Parque Santa Elisa, pela parte alta dos dois bairros.

O ponto de partida é na Estácio de Sá, no Sans Souci. Dali subimos até a rua Visconde Itaboraí e viramos à direita como quem vai para Vargem Alta, sempre seguindo as placas para a Praça da Criança. Pegamos a rua Monerat e chegamos na Praça Alberto da Veiga Guignard, uma homenagem ao pintor mundialmente famoso, nascido no ano de 1896, em Nova Friburgo.

Estamos a 1.010 metros de altura e depois de toda essa subida vale à pena sentar num dos bancos e apreciar a colorida paleta de tintas, obra do artista plastico Felga de Moraes, do grupo Gama. O local é muito tranquilo, silencioso e lembra uma vila do interior.

Agora vem a parte divertida, para baixo! Prepare os joelhos e siga pela rua Sílvio Carestiato com cuidado, já que a ladeira é muito íngreme. Aproveite para curtir as montanhas de Nova Friburgo ao fundo, de um ângulo diferente e, algumas delas, abaixo da nossa linha de visão. Sensacional.

Foto: Carlos Emerson Junior

No final da rua chegamos na Praça da Criança, onde se destaca mais um monumento do Felga, dessa vez homenageando o médico friburguense Galdino do Valle Filho. Para quem não sabe, trata-se do idealizador do “Dia da Criança”, quando foi deputado federal na década de 20. Um mirante permite a visão de quase 180º e uma placa ensina os nomes de todas as montanhas em volta.

A caminhada segue morro abaixo pela rua Boechat, também bastante íngreme, atravessando a mata que ainda é abundante naquele bairro. As ruas são todas asfaltadas e aqui vai uma dica: na primeira bifurcação, pegue a rua Luterback, à esquerda, para evitar o grande transito de veículos na rua Raul Sertã. Ande até a rua Stutz, à direita e comece uma longa e íngreme descida até a Praça Dom João VI, outra criação do Gama, às margens do antigo lago do Parque Santa Elisa.

Foto: Carlos Emerson Junior

Aqui o monumento do Felga, em forma de uma caravela, é dedicado ao homem que tornou possível a colonização de Nova Friburgo. A ideia era recuperar o lago para passar a impressão de um navio no mar mas, nas atuais circunstâncias, essa obra vai ficar para mais tarde. Um outra pequena estátua ao bem ao lado é um tributo à Marinha do Brasil.

Infelizmente o lago está tomado pela vegetação e sofre com a turma sem noção que adora jogar lixo nas vias públicas. Uma pena mesmo. Mas o nosso trajeto não terminou. Vamos prosseguir até o Serraville, descer mais um pouco para a antiga Fábrica Ypú e daí caminhar em direção ao Centro, onde um suco bem gelado será muito bem vindo para repor as energias.

Medidos no GPS, foram 5,2 quilômetros de extensão até a Praça Marcílio Dias, no Paissandu, come a altitude variando de 919 metros na saída lá da Estácio, 1.028 metros no Alto da Braunes, 1.000 metros da Praça das Crianças, 950 metros na Praça Dom João VI e chega, não é mesmo? O trajeto indicado é razoavelmente sinalizado, todo asfaltado ou com paralelepípedos e pouquíssimo trânsito de veículos, pelo menos até o Santa Elisa. Calçadas praticamente inexistem, só aparecendo na descida do Catarcione para o Centro.

É possível fazer todo esse roteiro de carro, até porque nas três praças existem estacionamentos, mas quer uma sugestão? Vá à pé! Além de ser uma caminhada saudável, você vai conhecer uma parte da cidade onde a natureza ainda é respeitada. Aproveite a oportunidade para descobrir pequenos detalhes das ruas e da vista, aqueles que só quem está andando sem pressa, disposto a respirar um ar muito puro e se deixar ser envolvido pela paisagem poderá perceber.

Garanto que você voltará para casa com a alma bem mais leve.

A torre

Foto: Carlos Emerson Junior

Aquilo não podia ser normal. Desde criança, pequeno mesmo, sempre que passava pela torre onde ficava a caixa d’água, parava bem embaixo e ficava olhando para cima, para o topo, querendo adivinhar se algum dia conseguiria a subir até o alto para ver como era o mundo lá do alto.

A medida que ia crescendo, a curiosidade aumentava. Entrar na torre não era tarefa simples. Seus pais, já sabendo da esquisitice, alertaram os funcionários do condomínio para não ficarem de olho: qualquer bobeada e o menino era bem capaz de se mandar escadaria acima.

Secretamente traçava planos para “tomar de assalto” a torre da caixa d’água. Percebeu que à noite, depois que os empregados iam embora, o único impedimento era a porta de acesso ao alojamento e depósito, que ficava na sua base e dava acesso à escadaria, devidamente trancada.

Uma vez tentou: escalou o muro que cercava o condomínio (aproveitando escada de pedreiro esquecida), passou para o teto do cômodo de baixo, olhou para os lados, lembrou da avó e se benzeu, colocou o pé direito no primeiro degrau, segurou com força a lateral, tomou impulso e começou a subida. Mal chegou no terceiro degrau ouviu o grito agudo e imperial da mãe! Pulou fora, em pânico, e só não levou uns cascudos porque sua bendita avó não permitiu.

O tempo passou, a faculdade o formou, uma moça com ele se casou, para uma outra cidade se mudou, uma filha chegou . No entanto, lá longe, nas imagens esquecidas da infância, a torre continuava lá, enorme, inexpugnável, desafiando as alturas, chegando ao céu, a grande aventura proibida. Quando sua mãe faleceu, após o sepultamento e a reunião com os parentes, caminhando pelo velho condomínio onde brincara tanto, deu de cara com ela, desafiadora.

Nunca se soube o que passou pela sua cabeça. Com um pulo, subiu o muro, saltou para a base da escada e, rápido como um raio, subiu com o olhar fixo nos degraus até chegar ao topo, a parte de cima do reservatório de água. Ficou em pé e olhou em volta. Era alto, mas a paisagem, cheia de ruas e casas, era completamente diferente do que esperava encontrar, a grande mata que existiu em algum momento dos anos 80.

Sentou, acendeu um cigarro e foi tomado por uma sensação de alívio. De alguma maneira, tinha exorcizado um fantasma do passado. Um fantasma bobo, é verdade, mas sempre um fantasma. Alguns minutos depois, lembrou-se que a vida continua e resolveu descer. Uma pena que não era uma criança. Teria sido muito mais divertido.

Fim de Ano

Lembre os mortos assassinados, enfermos, acidentados, deprimidos, mutilados, sem esperança. Lembre os infelizes que moram nas ruas, nos cortiços, favelas, saídas de esgotos, lixões, matas. Lembre as crianças magras, famintas, desnutridas, doentes, abandonadas, prostituídas, escravizadas, sem futuro. Lembre os idosos esquecidos em hospitais, asilos, apartamentos, abandonados sem remédios, sem família, sem ninguém. Lembre os desempregados, desesperados, precisando sustentar e dar um mínimo de dignidade para suas famílias. Lembre os mendigos perambulando invisíveis, alguns loucos, implorando um prato de comida, abrigo, calor, bebendo água da chuva e da sarjeta. Lembre os miseráveis, refugiados, discriminados, injustiçados, perdidos, fracassados, conformados, derrotados. Lembre os que desistem e somem para sempre, às vezes até mesmo desta vida. Pois é, lembre também que nessa época do do ano a gente só deseja boas festas.

Desculpem.

Pintura: La Miséria (1886), Cristóbal Rojas

A ponta da baioneta

Sentiu alguma coisa espetando suas costas com força. Tentou se afastar mas o incômodo persistiu, empurrando-o para a frente. Deu um impulso, girou o corpo para trás e, com horror e espanto, viu a baioneta, brilhante e mortal, cortando o ar em sua direção. O movimento seguinte foi rápido e nebuloso. Com o abdômen aberto, de uma ponta a outra, ajoelhou no chão. Curiosamente, não sentia dor. A visão turvou, uma fraqueza enorme fez seu corpo desabar de vez. Só conseguiu balbuciar a clássica expressão:

– O que foi que eu fiz?

Pois é… O assunto é sério e nosso personagem poderia muito bem ter sido vítima de uma baioneta perdida, principalmente se ele estivesse em um campo de batalha da Primeira Guerra Mundial, nas Guerras Napoleônicas ou até mesmo na Guerra do Paraguai. No calor da luta, no meio da soldadesca, ninguém tem sangue frio suficiente para procurar o inimigo. Ou racionalidade.

Até onde sei, hoje em dia nenhum exército faz a famosa “carga de baionetas”, aquele ataque – geralmente desesperado – onde a tropa avança destemidamente em direção ao inimigo, com as baionetas em riste na ponta dos fuzis, prontas para cortar o pescoço de quem aparecer pela frente. Uma carnificina que só os filmes de guerra antigos adoravam!

Mas os tempos mudaram, não é mesmo? As guerras modernas estão cada vez mais tecnológicas, dependendo de drones, mísseis inteligentes, satélites, blindados robôs, miras laser e mais uma infinidade de aparatos que, com certeza, ainda nem ouvimos falar. É claro que estou pensando nos países do primeiro mundo, donos de arsenais poderosos o suficiente para destruir a vida no planeta em questão de horas. Ou menos!

Bom, toda essa introdução (o quê, ainda vem texto por aí?) serve para mostrar a que ponto chegamos na mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Não estamos mais em guerra com o Paraguai, o Uruguai conseguiu sua independência e a Argentina perdeu o interesse nas provocações. Aliás, chegamos a um ponto tal que ninguém sequer pensa em perder tempo, dinheiro e vidas declarando guerra ao Brasil.

Não, nossa guerra é mais cruel, é interna. E nem é uma guerra civil, como a espanhola na década de 30 ou angolana, que durou de 1975 até 2002. No Rio, onde a situação está completamente fora de controle, sequer as forças armadas são respeitadas. A bandidagem, muito bem armada e orientada, parece ter um serviço de inteligência melhor do que o da polícia. Aliás, a fuga da favela da Rocinha do inimigo público número 1 da vez, furando um cerco feito pelas forças armadas e PM foi simplesmente uma vergonha. Será que já estão apurando quem “ajudou”?

Duvido.

Quem sofre com essa “guerra” é, sem dúvida, a população. Toda ela. A morte da turista espanhola chocou o mundo e, não duvidem, manchou indelevelmente a imagem já muito manchada da cidade. O assassinato do coronel comandante do 3º batalhão da polícia militar, em plena rua Hermengarda, no Méier, com 17 tiros, em plena manhã de uma quinta-feira, foi de um absurdo tão grande que me deu a sensação de estar em Aleppo, no meio de um daqueles combates ferozes. Ah, tá, lá a guerra é civil, aqui não.

A lista de mortes revoltantes, que era mensal, agora é diária. A população se retrai e se defende como pode, mudando horários, hábitos ou indo embora da cidade. O que vejo, sinto e acredito é que a guerra contra o tráfico foi perdida e nem foi hoje. Foi perdida quando favelas se expandiram e simplesmente fizemos cara de paisagem. Foi perdida quando trocamos saneamento básico por teleféricos. Quando glamorizamos a miséria como parte da “cultura carioca”. Quando colocamos serviços de gás, luz, telefone, internet e transporte público nas mãos de milicianos e traficantes. Quando esquecemos da educação e da saúde. E por aí vai.

Há quantos anos se combate o tráfico? Segundo a própria Polícia Militar, desde o final dos anos 70. Quarenta e muitos anos depois, milhares de vidas perdidas, milhões (ou bilhões) de reais torrados e nosso futuro jogado no lixo. Caramba, quem está lucrando com essa batalha interminável, cruel, sem sentido, sem bandeiras? Ainda não sabemos sequer quem compra e fornece drogas e o armamento pesado para a bandidagem. Ou será que, simplesmente, não ousamos (ou podemos) falar?

Enfim, chegamos a um ponto que a luta é por território, dinheiro. Gente muito poderosa está por trás dessa “indústria”, gente do topo da pirâmide. Ganha muito, com certeza. Li em algum lugar que com a derrocada das Farcs colombianas, a exportação da droga para os Estados Unidos e Europa está se fazendo pelo Brasil. Com um substancial aumento dos lucros, é óbvio. Gente, fico imaginando os valores que uma “Lava-Jato” do tráfico não revelaria. Os nomes. As empresas. As ONGs. Os militares. A justiça. A mídia. O executivo, o legislativo, a puta que pariu!

A ponta da baioneta está espetada nas costas da população, seja de que classe social for (balas perdidas não escolhem rostos). Temos plena noção de que tudo está errado mas ficamos em silêncio, inertes, paralisados pelo medo. Durante uma carga de baioneta, podemos correr, lutar, talvez até nos render. O problema é que a guerra do Rio não tem regras e todos somos alemães, inimigos de qualquer um. Que pena. Qualquer dia desses o Rio acaba. Ou se transforma em uma Faixa de Gaza tropical…