Saúde!

Esse ‘causo’ aconteceu no longínquo e perdido ano de 2015, lá na ex-cidade maravilhosa.

Caminhada no final da tarde na praia, na direção do Posto Seis. Domingo, uma multidão saindo da areia na direção das estações do Metrô e pontos de ônibus e uma outra chegando para tomar um vento e ver as modas, como se falava antigamente, cruzavam animadamente o calçadão, mal dando espaço para andar. E não é figura de linguagem não!

Segurei a mão da minha mulher e lá fomos nós seguindo o fluxo que ia para o sul e desviando do contra fluxo rumo norte. Foi quando meu nariz começou a coçar. Aliás, quem tem rinite sabe o que estou falando. Sem dar tempo sequer de fungar, soltei um espirro de alívio, em alto e bom som que, como efeito colateral, assustou quem ia e vinha pela via. Minha mulher me olhou muito séria, com os olhos arregalados:

– Cara, que susto que você me deu! Precisava espirrar tão alto? Você tremeu tanto que pensei que tinha sido atingindo por uma bala perdida! Não faça mais isso, todo mundo se assustou. Só esse ano mais de 36 pessoas já foram atingidas por balas perdidas e dois casos foram aqui em Copa. Toma juízo!

Para meu espanto, uma pequena roda se abrira e as pessoas, me olhando com curiosidade, pareciam concordar com a bronca. Tá bom, espirrei alto, talvez herança dos espirros escandalosos que meu pai dava, sempre no meio da rua, que me levavam às gargalhadas. Só esqueci que isso foi há mais de 50 anos, quando o Rio ainda era uma cidade risonha e franca, sem balas perdidas, por óbvio.

Bons tempos.

Carlos Emerson Junior (2015)

Outra Caminhada

E não é que antigas crônicas às vezes não envelhecem? Essa aí de baixo, publicada no jornal A Voz da Serra, de 25 de novembro de 2011, continua atualíssima e ensina um passeio imperdível para friburguenses e turistas. Olha os 200 anos chegando aí, gente!

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Foto: Carlos Emerson Junior

Vamos falar de caminhadas outra vez? E que tal explorar um trajeto todo urbano e com dois atrativos especiais, a vista estonteante da cidade e belíssimas obras de arte, representando figuras importantes da história de Nova Friburgo? Pois é, estou falando da travessia Braunes – Parque Santa Elisa, pela parte alta dos dois bairros.

O ponto de partida é na Estácio de Sá, no Sans Souci. Dali subimos até a rua Visconde Itaboraí e viramos à direita como quem vai para Vargem Alta, sempre seguindo as placas para a Praça da Criança. Pegamos a rua Monerat e chegamos na Praça Alberto da Veiga Guignard, uma homenagem ao pintor mundialmente famoso, nascido no ano de 1896, em Nova Friburgo.

Estamos a 1.010 metros de altura e depois de toda essa subida vale à pena sentar num dos bancos e apreciar a colorida paleta de tintas, obra do artista plastico Felga de Moraes, do grupo Gama. O local é muito tranquilo, silencioso e lembra uma vila do interior.

Agora vem a parte divertida, para baixo! Prepare os joelhos e siga pela rua Sílvio Carestiato com cuidado, já que a ladeira é muito íngreme. Aproveite para curtir as montanhas de Nova Friburgo ao fundo, de um ângulo diferente e, algumas delas, abaixo da nossa linha de visão. Sensacional.

Foto: Carlos Emerson Junior

No final da rua chegamos na Praça da Criança, onde se destaca mais um monumento do Felga, dessa vez homenageando o médico friburguense Galdino do Valle Filho. Para quem não sabe, trata-se do idealizador do “Dia da Criança”, quando foi deputado federal na década de 20. Um mirante permite a visão de quase 180º e uma placa ensina os nomes de todas as montanhas em volta.

A caminhada segue morro abaixo pela rua Boechat, também bastante íngreme, atravessando a mata que ainda é abundante naquele bairro. As ruas são todas asfaltadas e aqui vai uma dica: na primeira bifurcação, pegue a rua Luterback, à esquerda, para evitar o grande transito de veículos na rua Raul Sertã. Ande até a rua Stutz, à direita e comece uma longa e íngreme descida até a Praça Dom João VI, outra criação do Gama, às margens do antigo lago do Parque Santa Elisa.

Foto: Carlos Emerson Junior

Aqui o monumento do Felga, em forma de uma caravela, é dedicado ao homem que tornou possível a colonização de Nova Friburgo. A ideia era recuperar o lago para passar a impressão de um navio no mar mas, nas atuais circunstâncias, essa obra vai ficar para mais tarde. Um outra pequena estátua ao bem ao lado é um tributo à Marinha do Brasil.

Infelizmente o lago está tomado pela vegetação e sofre com a turma sem noção que adora jogar lixo nas vias públicas. Uma pena mesmo. Mas o nosso trajeto não terminou. Vamos prosseguir até o Serraville, descer mais um pouco para a antiga Fábrica Ypú e daí caminhar em direção ao Centro, onde um suco bem gelado será muito bem vindo para repor as energias.

Medidos no GPS, foram 5,2 quilômetros de extensão até a Praça Marcílio Dias, no Paissandu, come a altitude variando de 919 metros na saída lá da Estácio, 1.028 metros no Alto da Braunes, 1.000 metros da Praça das Crianças, 950 metros na Praça Dom João VI e chega, não é mesmo? O trajeto indicado é razoavelmente sinalizado, todo asfaltado ou com paralelepípedos e pouquíssimo trânsito de veículos, pelo menos até o Santa Elisa. Calçadas praticamente inexistem, só aparecendo na descida do Catarcione para o Centro.

É possível fazer todo esse roteiro de carro, até porque nas três praças existem estacionamentos, mas quer uma sugestão? Vá à pé! Além de ser uma caminhada saudável, você vai conhecer uma parte da cidade onde a natureza ainda é respeitada. Aproveite a oportunidade para descobrir pequenos detalhes das ruas e da vista, aqueles que só quem está andando sem pressa, disposto a respirar um ar muito puro e se deixar ser envolvido pela paisagem poderá perceber.

Garanto que você voltará para casa com a alma bem mais leve.

A torre

Foto: Carlos Emerson Junior

Aquilo não podia ser normal. Desde criança, pequeno mesmo, sempre que passava pela torre onde ficava a caixa d’água, parava bem embaixo e ficava olhando para cima, para o topo, querendo adivinhar se algum dia conseguiria a subir até o alto para ver como era o mundo lá do alto.

A medida que ia crescendo, a curiosidade aumentava. Entrar na torre não era tarefa simples. Seus pais, já sabendo da esquisitice, alertaram os funcionários do condomínio para não ficarem de olho: qualquer bobeada e o menino era bem capaz de se mandar escadaria acima.

Secretamente traçava planos para “tomar de assalto” a torre da caixa d’água. Percebeu que à noite, depois que os empregados iam embora, o único impedimento era a porta de acesso ao alojamento e depósito, que ficava na sua base e dava acesso à escadaria, devidamente trancada.

Uma vez tentou: escalou o muro que cercava o condomínio (aproveitando escada de pedreiro esquecida), passou para o teto do cômodo de baixo, olhou para os lados, lembrou da avó e se benzeu, colocou o pé direito no primeiro degrau, segurou com força a lateral, tomou impulso e começou a subida. Mal chegou no terceiro degrau ouviu o grito agudo e imperial da mãe! Pulou fora, em pânico, e só não levou uns cascudos porque sua bendita avó não permitiu.

O tempo passou, a faculdade o formou, uma moça com ele se casou, para uma outra cidade se mudou, uma filha chegou . No entanto, lá longe, nas imagens esquecidas da infância, a torre continuava lá, enorme, inexpugnável, desafiando as alturas, chegando ao céu, a grande aventura proibida. Quando sua mãe faleceu, após o sepultamento e a reunião com os parentes, caminhando pelo velho condomínio onde brincara tanto, deu de cara com ela, desafiadora.

Nunca se soube o que passou pela sua cabeça. Com um pulo, subiu o muro, saltou para a base da escada e, rápido como um raio, subiu com o olhar fixo nos degraus até chegar ao topo, a parte de cima do reservatório de água. Ficou em pé e olhou em volta. Era alto, mas a paisagem, cheia de ruas e casas, era completamente diferente do que esperava encontrar, a grande mata que existiu em algum momento dos anos 80.

Sentou, acendeu um cigarro e foi tomado por uma sensação de alívio. De alguma maneira, tinha exorcizado um fantasma do passado. Um fantasma bobo, é verdade, mas sempre um fantasma. Alguns minutos depois, lembrou-se que a vida continua e resolveu descer. Uma pena que não era uma criança. Teria sido muito mais divertido.

Fim de Ano

Lembre os mortos assassinados, enfermos, acidentados, deprimidos, mutilados, sem esperança. Lembre os infelizes que moram nas ruas, nos cortiços, favelas, saídas de esgotos, lixões, matas. Lembre as crianças magras, famintas, desnutridas, doentes, abandonadas, prostituídas, escravizadas, sem futuro. Lembre os idosos esquecidos em hospitais, asilos, apartamentos, abandonados sem remédios, sem família, sem ninguém. Lembre os desempregados, desesperados, precisando sustentar e dar um mínimo de dignidade para suas famílias. Lembre os mendigos perambulando invisíveis, alguns loucos, implorando um prato de comida, abrigo, calor, bebendo água da chuva e da sarjeta. Lembre os miseráveis, refugiados, discriminados, injustiçados, perdidos, fracassados, conformados, derrotados. Lembre os que desistem e somem para sempre, às vezes até mesmo desta vida. Pois é, lembre também que nessa época do do ano a gente só deseja boas festas.

Desculpem.

Pintura: La Miséria (1886), Cristóbal Rojas

A ponta da baioneta

Sentiu alguma coisa espetando suas costas com força. Tentou se afastar mas o incômodo persistiu, empurrando-o para a frente. Deu um impulso, girou o corpo para trás e, com horror e espanto, viu a baioneta, brilhante e mortal, cortando o ar em sua direção. O movimento seguinte foi rápido e nebuloso. Com o abdômen aberto, de uma ponta a outra, ajoelhou no chão. Curiosamente, não sentia dor. A visão turvou, uma fraqueza enorme fez seu corpo desabar de vez. Só conseguiu balbuciar a clássica expressão:

– O que foi que eu fiz?

Pois é… O assunto é sério e nosso personagem poderia muito bem ter sido vítima de uma baioneta perdida, principalmente se ele estivesse em um campo de batalha da Primeira Guerra Mundial, nas Guerras Napoleônicas ou até mesmo na Guerra do Paraguai. No calor da luta, no meio da soldadesca, ninguém tem sangue frio suficiente para procurar o inimigo. Ou racionalidade.

Até onde sei, hoje em dia nenhum exército faz a famosa “carga de baionetas”, aquele ataque – geralmente desesperado – onde a tropa avança destemidamente em direção ao inimigo, com as baionetas em riste na ponta dos fuzis, prontas para cortar o pescoço de quem aparecer pela frente. Uma carnificina que só os filmes de guerra antigos adoravam!

Mas os tempos mudaram, não é mesmo? As guerras modernas estão cada vez mais tecnológicas, dependendo de drones, mísseis inteligentes, satélites, blindados robôs, miras laser e mais uma infinidade de aparatos que, com certeza, ainda nem ouvimos falar. É claro que estou pensando nos países do primeiro mundo, donos de arsenais poderosos o suficiente para destruir a vida no planeta em questão de horas. Ou menos!

Bom, toda essa introdução (o quê, ainda vem texto por aí?) serve para mostrar a que ponto chegamos na mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Não estamos mais em guerra com o Paraguai, o Uruguai conseguiu sua independência e a Argentina perdeu o interesse nas provocações. Aliás, chegamos a um ponto tal que ninguém sequer pensa em perder tempo, dinheiro e vidas declarando guerra ao Brasil.

Não, nossa guerra é mais cruel, é interna. E nem é uma guerra civil, como a espanhola na década de 30 ou angolana, que durou de 1975 até 2002. No Rio, onde a situação está completamente fora de controle, sequer as forças armadas são respeitadas. A bandidagem, muito bem armada e orientada, parece ter um serviço de inteligência melhor do que o da polícia. Aliás, a fuga da favela da Rocinha do inimigo público número 1 da vez, furando um cerco feito pelas forças armadas e PM foi simplesmente uma vergonha. Será que já estão apurando quem “ajudou”?

Duvido.

Quem sofre com essa “guerra” é, sem dúvida, a população. Toda ela. A morte da turista espanhola chocou o mundo e, não duvidem, manchou indelevelmente a imagem já muito manchada da cidade. O assassinato do coronel comandante do 3º batalhão da polícia militar, em plena rua Hermengarda, no Méier, com 17 tiros, em plena manhã de uma quinta-feira, foi de um absurdo tão grande que me deu a sensação de estar em Aleppo, no meio de um daqueles combates ferozes. Ah, tá, lá a guerra é civil, aqui não.

A lista de mortes revoltantes, que era mensal, agora é diária. A população se retrai e se defende como pode, mudando horários, hábitos ou indo embora da cidade. O que vejo, sinto e acredito é que a guerra contra o tráfico foi perdida e nem foi hoje. Foi perdida quando favelas se expandiram e simplesmente fizemos cara de paisagem. Foi perdida quando trocamos saneamento básico por teleféricos. Quando glamorizamos a miséria como parte da “cultura carioca”. Quando colocamos serviços de gás, luz, telefone, internet e transporte público nas mãos de milicianos e traficantes. Quando esquecemos da educação e da saúde. E por aí vai.

Há quantos anos se combate o tráfico? Segundo a própria Polícia Militar, desde o final dos anos 70. Quarenta e muitos anos depois, milhares de vidas perdidas, milhões (ou bilhões) de reais torrados e nosso futuro jogado no lixo. Caramba, quem está lucrando com essa batalha interminável, cruel, sem sentido, sem bandeiras? Ainda não sabemos sequer quem compra e fornece drogas e o armamento pesado para a bandidagem. Ou será que, simplesmente, não ousamos (ou podemos) falar?

Enfim, chegamos a um ponto que a luta é por território, dinheiro. Gente muito poderosa está por trás dessa “indústria”, gente do topo da pirâmide. Ganha muito, com certeza. Li em algum lugar que com a derrocada das Farcs colombianas, a exportação da droga para os Estados Unidos e Europa está se fazendo pelo Brasil. Com um substancial aumento dos lucros, é óbvio. Gente, fico imaginando os valores que uma “Lava-Jato” do tráfico não revelaria. Os nomes. As empresas. As ONGs. Os militares. A justiça. A mídia. O executivo, o legislativo, a puta que pariu!

A ponta da baioneta está espetada nas costas da população, seja de que classe social for (balas perdidas não escolhem rostos). Temos plena noção de que tudo está errado mas ficamos em silêncio, inertes, paralisados pelo medo. Durante uma carga de baioneta, podemos correr, lutar, talvez até nos render. O problema é que a guerra do Rio não tem regras e todos somos alemães, inimigos de qualquer um. Que pena. Qualquer dia desses o Rio acaba. Ou se transforma em uma Faixa de Gaza tropical…

Falando de incêndios

Bombeiros, voluntários e a chuva impediram uma tragédia em Nova Friburgo. O incêndio do Morro da Cruz chegou perto do Colégio Anchieta e da Fundação Getúlio Vargas, além de ameaçar residências. Os danos foram enormes, inclusive a triste e lamentável destruição da flora e da fauna. Sua recuperação levará anos e vamos torcer para que as chuvas de verão não levem abaixo o que restou dos morros.

A questão agora é pensar na prevenção e na punição dos responsáveis, seja por ação ou omissão. A Lei 9.605, promulgada em 12 de fevereiro de 1998, em seu Capítulo V, seção II, artigo 41, afirma que provocar incêndio em mata ou floresta tem como pena a reclusão de dois a quatros anos e multa, ou se o crime for considerado culposo, pena de seis meses a um ano, mais a multa.

Tenho visto esses incêndios nas matas friburguenses desde que vim para cá, no final dos anos 90. Todo mundo concorda que eles assustam, poluem, destroem e colocam vidas em risco. O problema é que, passada a temporada do fogo, o assunto morre e fica tudo por isso mesmo, isto é, nenhuma investigação e muito menos qualquer punição, nem um multinha sequer. Por que? Onde estão as campanhas de conscientização, de educação? Cadê a fiscalização?

Não, meus caros, se não unirmos nossa indignação, vamos simplesmente esperar a possível tragédia de 2018, 2019, 2220 e por aí vai. Diversas prefeituras pelo Brasil afora tem seu plano de combate ao incêndio florestal. Não seria interessante saber como eles fazem? Nossa cidade e sua natureza é muito valiosa para desistirmos sem luta. O Corpo de Bombeiros está de parabéns pela presteza, coragem e determinação mas, sem apoio, terá cada vez mais dificuldades para impedir uma tragédia. E tragédia, meus caros amigos, já tivemos bastante.

Fotos: Antonio Varella, Osmar Castro, Adriana Oliveira, 6º GBM e A Voz da Serra

Cartas

Você ainda recebe alguma carta? Não, não estou falando das inevitáveis contas das concessionárias de serviços como luz, gás ou telefone. Ou as propagandas e convites para assinar a revista A, o jornal B e o canal de tevê C. Muito menos intimações judiciais, advertências do condomínio ou boletos de todos os valores. Refiro-me àquelas escritas à mão livre, pessoais, intransferíveis e, se possível, perfumadas.

Cartas eram a maneira mais fácil e talvez segura das pessoas se comunicarem, antes do advento do telegrama (lembram?), email e whatsapp, exatamente nessa ordem. Historiadores datam sua origem em 3.200 A.C., na Mesopotâmia. Sua importância era tal que, por exemplo, o mundo só tomou ciência da descoberta do Brasil quando o escrivão Pero Vaz de Caminha mandou sua famosa carta a El-Rei Dom Manuel, de Portugal, em 1º de maio de 1500.

Cartas podem ser expressas, diplomáticas, comerciais, sociais, testamento, convites, despedidas, oficiais, judiciais, ódio, anônimas ou até mesmo, sei lá porque, um mero envelope vazio. Quem nunca precisou de uma carta de apresentação? Escreveu uma carta de perddão? Chorou lendo uma carta de amor? Infelizmente cartas já foram usadas até como bombas.

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Aqui na Urca é que notei: quem mora em uma casa ou edifício que ainda tenha uma caixa de correio individual, é um felizardo. Sua correspondência, seus jornais e revistas estarão protegidas do tempo e dos curiosos. Possivelmente você fará amizade com o carteiro e ainda terá, se for cuidadoso, um belo enfeite no seu muro.

Aliás e a propósito, é sempre bom lembrar que uma caixa de correspondência é a única maneira de atravessar um muro, sem precisar abrir sua porta. Simbolicamente, é aquela passagem que nos deixa em contato com a realidade e que, desde 3.200 A.C., apenas as cartas tem autorização para entrar.

Manias

Uma das primeiras crônicas publicadas no jornal friburguense A Voz da Serra, em maio de 2011, “Minhas manias preferidas” é uma bem-humorada visão das nossas esquisitices diárias e que, em sua maior parte, nem notamos. Como muito tempo já se passou, a crônica foi devidamente remixada mas, para desespero da garotada, ainda continua um textão. Divirtam-se!

Manias… Quem não as tem? Até onde um mero hábito mecânico pode virar um perigoso TOC? E por falar nisso, o que é mesmo um TOC? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Será que perguntar também é uma mania? Sem brincadeira, acho que uma das coisas que nos diferenciam dos demais habitantes vivos deste planetinha são as nossas manias, saudáveis ou não. Alguém já viu um cachorro angustiado quando saiu para passear, tentando se lembrar se deixou o gás ligado? É um exagero, claro, mas do jeito que estamos tratando os nossos pets, qualquer dia eles vão acabar maníacos compulsivos por osmose!

Segundo o Wikipédia, a palavra vem do grego mania (loucura), distúrbio mental caracterizado pela mudança exacerbada de humor, com alteração comportamental dirigido, em geral, para uma determinada ideia fixa e com síndrome de quadro psicótico grave e agudo característico, embora não exclusivo (mania secundária), do Transtorno ou Distúrbio Bipolar e se caracteriza por grande agitação, loquacidade, euforia, insônia, perda do senso crítico, grandiosidade, prodigalidade, exaltação da sexualidade e heteroagressividade.

Entendeu alguma coisa? Nem eu!

Vamos de novo: o Dicionário Houaiss define mania como “hábito extra, prática repetitiva, costume esquisito, peculiar, excentricidade como por exemplo deitar-se sempre do lado direito ou gosto ou preocupação excessiva por ou com algo”.

Melhorou, não é mesmo?

A questão da mania é tão fascinante que alguém, na internet, é claro, se deu ao trabalho de elaborar uma lista com todas as manias conhecidas, de A até Z. Ali encontramos coisas interessantes e inesperadas como a “dacnomania – mania de morder alguém ou a si mesmo”, “erotografomania – desejo de escrever cartas de amor”, “nudomania – mania de ficar nu”, “sofomania – mania de saber muito”, “odaxelagnia – desejo de mordiscar carinhosamente os outros”, “rinotilexomania – mania de colocar o dedo no nariz” e a mais conhecida e que acomete a classe política em geral, a “cleptomania – mania de roubar sem necessidade”.

Mas o que importa mesmo são as nossas próprias manias, aqueles toques que não causam danos a ninguém e, por que não, facilitam nossas rotinas. E sem mais delongas, aí vão algumas das minhas manias preferidas:

  • Ler jornais de trás para diante. Eu acho que isso vem de criança mesmo. Lembro que gostava dos quadrinhos do segundo caderno do jornal carioca O Globo, que ficavam na penúltima página. Depois passei a ler a seção de esportes, sempre na última página. Hoje, bode velho e leitor compulsivo (opa!), só sei ler da última para a primeira página (mas, atenção, é só com jornais, não faço isso com livros e revistas porque ainda não estou louco);
  • Nunca piso no chão sem estar calçado. Isso não sei explicar, já que nasci e cresci em Copacabana, indo sempre à praia de pé no chão. De repente, não consegui mais andar sem um chinelo, sandália, tênis, qualquer coisa, menos pé no chão. Acho que Freud explica. Ou então Jung… Será que pisei em cocô de cachorro e fiquei traumatizado? Vai saber!
  • Minhas roupas são todas arrumadas no armário por tipo e cor. É sério! Separo as camisas em mangas compridas, curtas e sem mangas e agrupo pelas cores. Calças e bermudas também. Mas isso deve ser porque sem óculos não enxergo nada e dessa maneira consigo visualizar facilmente a peça que vou usar. Ainda bem que não sou daltônico.
  • Detesto filas. Fila de banco, restaurante, cinema, teatro, INSS, vale transporte, vale idoso, vale gáz, correios, bolsa família, eleição, o que for. Se for preciso mudo de programa, chego mais cedo ou mais tarde, enfim, faço qualquer negócio para não ser obrigado a encarar uma fila.
  • Roer as unhas. Para falar a verdade, tecnicamente eu corto as infelizes com qualquer objeto cortante que caia nas minhas mãos, ou seja, não sou um “roedor”. Ansiedade, insegurança, falta de louça para lavar? O mais curioso é que agora, já na terceira idade, não tenho mais esse hábito. O que mudou? Não tenho a mínima ideia, deve ser esquecimento mesmo!
  • Pois é. Não, não é o fim da crônica não, é mania mesmo. Podem reparar que uso e abuso do “pois é”, escrevendo e falando, principalmente quando o raciocínio, já meio baleado, custa a fechar a ideia. Tá bom, isso não é mania, é pobreza de vocabulário mesmo…

Mais algum? Sem dúvida, mas acho bom parar por aqui. Algumas manias são tão nossas que fica até difícil explicar. Aliás, não conto nem por decreto! E você, querida leitora e caríssimo leitor, qual a sua mania preferida?

Quase uma rima

Por que a gente não se fala mais? Tem tanto tempo que não ouço sua voz que quase não lembro se era fina, rouca ou alta. Seus olhos, ainda são azuis? Não, eram castanhos, não é mesmo? Ou seriam pretos? Seus cabelos já estão brancos? Soltos, compridos, bonitos? Ou curtos, sóbrios e delicados, como eu gostava? Caramba, o tempo passa e sua imagem nas minhas lembranças ainda são aquelas, de tantos anos já passados. Sabe, morro de medo de perde-las também. Puxa vida, por que você foi embora? Será que você já me esqueceu? Eu ainda te amo. Muito.

Editorial

Já havia prometido a mim mesmo que não ia mais tocar, escrever, falar ou insinuar qualquer coisa – inclusive gracinhas – sobre lava-jato, corrupção, política, lula, dilma, aécio, temer, pt, pmdb, psdb, pp (e todos os 30 e não sei quantos partidos), justiça (lenta, partidária, obsoleta, corrupta também), rio de janeiro (pezão, cabral, paes, crivella, garotinho, rosinha e por aí vai), futebol, olimpíadas, sei lá, tudo isso que envergonha o Brasil.

Resumindo, o que eu queria (e deveria) fazer era dar um pulo no futuro (se é que ele existe), pegar uma nave interestelar até uma galáxia qualquer, hibernar uns 150 anos, dar um rolê por lá e voltar para nosso planetinha, dormindo de novo por mais 150 anos. Aí sim, se o Brasil ainda existisse, talvez (eu disse talvez), valesse a pena continuar morando nesta terra de clima quente, rica em recursos naturais, com uma flora e fauna únicas e um povinho que vem estragando tudo desde que cabral (o português) baixou por essas bandas.

Infelizmente as viagens tripuladas ao espaço não vão mais sequer à Lua, mas o que eu quero deixar claro é que tempos piores ainda podem vir se todo mundo resolver deixar prá lá e apenas sobreviver (o que, aliás, já é uma coisa muito complicada aqui no Rio). Não entendo como a população gasta tanta energia com somenos e é incapaz de demonstrar (pelo menos) alguma indignação pública com tudo e todos que aí estão enrolados até a alma, alguns presos, é verdade, mas contando com a eleição do ano que vem para retornarem triunfais com seus esquemas, roubos, canalhices e a pouca (ou nenhuma) vergonha de sempre.

Sei lá. Na França, em 1789, por causa de um brioche, cortaram (literalmente) um monte de cabeças coroadas. Na Rússia, em 1917, mais outro tanto. Por aqui, nem um pio. Pois é, daí lembro que alguém falou que o brasileiro é um povo pacífico. Que nada, somos apenas um povo passivo.

Pintura: Tomada da Bastilha, de Jean-Pierre Louis Houël