Um lugar

Quando você andar por uma rua qualquer das Braunes (ou outro bairro qualquer), em Nova Friburgo, não se esqueça de olhar para o céu e as montanhas. Ouça o silêncio, respire o ar puro, valorize a tranquilidade. Pois é, meu caro amigo, eu sei que nem tudo o que reluz é ouro e perfeição é, quase sempre, um conceito inatingível, mas se não lutarmos pelos nossos sonhos, o que nos restará? Olhem o Rio…

Um ótimo fim de semana!

Não desvie o olhar

Foto: Carlos Emerson Junior

Está lá, escrito no poste em letras enormes: não desvie o olhar. Correto. Preste atenção, fique desperto, mantenha o foco. A dispersão leva ao caos e é isso o que essa gente quer. Você se distrai um pouquinho e zap! – te arrancam o celular das mãos. É ruim, mas os outros são piores. Superfaturam obras. Fraudam eleições. Roubam dinheiro público. Formam quadrilhas. Compram juízes. Ameaçam. Matam. Não, meu amigo, não desvie o olhar. Não sejamos cúmplices de toda essa bandalheira.

Portas abertas, portas fechadas

Foto: Carlos Emerson Junior

Um dia o cientista Alexander Graham Bell, um dos pais do telefone, disse que “quando uma porta se fecha, outra se abre. Mas muitas vezes ficamos olhando tanto tempo, tristes, para a porta fechada que nem notamos aquela que se abriu.” Pois é, estava certíssimo.

Não sei e nem consegui descobrir a origem das portas. Sabe-se que é muito antiga e foi inventada, digamos assim, para nos proteger dos nossos inimigos, animais predadores e o frio. Engraçado que, até onde me lembro, as ocas dos índios são abertas, sem portas, o que me leva a crer que só gente civilizada as utiliza…

De qualquer maneira, portas fecham, protegem e aquecem mas também nos isolam. Saber abrir portas requer sensibilidade, esperança e confiança. Uma porta aberta pode ser simplesmente a saída de casa. Mas também, se você ousar sonhar, levar a mundos distantes, caminhos desconhecidos, sonhos esquecidos.

Abrir ou fechar portas, de repente, é uma arte.

Realidade virtual

Você resolve assistir “As pontes de Toko-Ri”, um clássico de guerra de 1954. A ação se passa em um porta-aviões e seus caças a jato F9F2 Phanter, com a luxuosa participação de Willian Holden e Grace Kelly que, no ano seguinte viraria Grace de Mônaco.

Em determinado momento do filme, os jatos são liberados e, em formação, vão atacar a Coreia do Norte. Nesse momento, o aeroporto Santos Dumont, na verdade praticamente um porta aviões em terra firme, libera seus aviões pela Rota 2, aquela mesma que passa em cima dos bairros do Cosme Velho, Botafogo, Urca, Santa Tereza, Laranjeiras, Flamengo, Catete e Glória, para desespero dos moradores que não conseguem sequer ouvir seus pensamentos.

Mas ontem não, a sensação foi quase mágica. Para cada caça que decolava, tinha um Boeing ou Airbus passando em cima do telhado aqui de casa, com direito até a janelas vibrando. Um barato! Parecia que a guerra era aqui. Realidade virtual é isso e pela primeira vez não reclamei do barulho insuportável que aliás, coincidência ou não, voltou com toda a força enquanto escrevo essas linhas. Pois, é, a rota 2 ataca outra vez.

Ah sim, o filme é muito bom, ganhou um Oscar e vale conferir no site do Telecine Play.

Eclipse

Foto: Carlos Emerson Junior

Pois é, chuva é muito bom, alivia o calor, lava as plantas, tira toda a vontade de sair da cama mas, em compensação, escondeu de Nova Friburgo o eclipse parcial do sol que aconteceu hoje, por volta das dez horas. Tudo bem, a temperatura de 20º em pleno verão não tem preço. Nem mesmo um eclipse.

Um bom domingo para todos.

A barbárie

Que a sociedade brasileira perdeu o rumo, não é novidade para ninguém. Mas que precisamos de polícia para mantermos um mínimo de decência e respeito ao próximo, para mim foi uma completa surpresa. Quando uma população como a do Espírito Santo perde toda a noção de civilidade e solidariedade durante uma greve policial, quando 71 pessoas são mortas em apenas dois dias, quando mais de 200 carros (inclusive um ônibus) são roubados a troco de nada, quando lojas e supermercados são saqueados por pessoas de posses, usando carros do ano para levar o botim, quando colocam o exército nas ruas para controlar a violência generalizada, a gente perde completamente qualquer esperança de que o Brasil, possa, algum dia, virar o país do futuro.

Uma lástima.

O foro da monarquia

Resquício da monarquia, o foro especial foi irresponsavelmente ampliado pela Constituição de 1988 – aquela que se intitula “cidadã” – passando a abranger cerca de 22 mil “autoridades”, entre elas o presidente e vice-presidente da República, ministros, deputados, senadores, comandantes das Forças Armadas, governadores, prefeitos, magistrados dos tribunais superiores, desembargadores e juízes estaduais e federais, membros do Ministério Público e membros dos Tribunais de Contas.

Uma festa imperial, sem dúvida alguma! Esse é o tamanho atual da “Corte” do Brasil.

Felizmente existem brasileiros que defendem o fim dessa imoralidade. O ministro Luiz Barroso, do STF, afirmou que “o foro por prerrogativa de função frequentemente leva à impunidade, porque ele é demorado e permite a manipulação da jurisdição”. Segundo o juiz Sérgio Moro, “o foro privilegiado fere a ideia básica da democracia de que todos devem ser tratados como iguais”. Para a atual presidente do STF, ministra Carmem Lúcia, “privilégios existem na monarquia e não na República”.

A nomeação do cidadão Wellington Moreira Franco, citado 34 vezes na Operação Lava Jato na delação de Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente Relações Institucionais da Odebrecht empreiteira, o “Angorá”, como seria conhecido, aparece em “negócios” na área dos aeroportos. O delator também citou esquema envolvendo o aeroporto de Goiânia, bem como indícios de que houve corrupção no processo de concessão de aeroportos realizadas em 2011, 2012 e 2013, no governo Dilma.

bons-companheiros-governador-abraca-carlinhos-maracana-sob-vigilancia-dePois é, e para os esquecidos, vale lembrar o final melancólico do seu governo no Estado do Rio (1987/91), recebendo figuras do crime organizado no Palácio Guanabara. Sob qualquer ponto de vista, um nome que já deveria ter sido esquecido mas, como estamos no Brasil e a República ainda é uma ficção, somos obrigados a assistir as cenas indecentes do atual imperador nomeando seu leal, obediente e agradecido vassalo, livrando-o das garras da justiça.

Que vergonha!

Fontes:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/politica/noticia/2017/02/o-que-ha-contra-moreira-franco-novo-ministro-de-temer-na-lava-jato-9712505.html
http://www.conjur.com.br/2014-ago-28/privilegios-existem-monarquia-nao-republica-carmen-lucia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Foro_especial_por_prerrogativa_de_fun%C3%A7%C3%A3o
https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/07/19/Quem-tem-foro-privilegiado-no-Brasil.-E-quais-as-propostas-para-mudar-essa-regra
http://www.ebc.com.br/noticias/2016/03/entenda-o-que-e-foro-privilegiado

Mais um ano chegou

“Minha bermuda de ciclista pode ser feia. Mas sua barriga de motorista é muito mais.”; “Existe um tipo raro de carioca que não gosta de carnaval e eu mesmo sou um bom exemplo.”; “A gente luta, protesta, resiste, esperneia e até mesmo grita mas não tem jeito, por bem ou por mal acaba tendo que fazer as compras de Natal”; “Em pouco tempo ele já havia sido mercenário em Angola, baixista de um grupo de rock, astronauta de uma das missões Gemini, piloto de corridas, inventor da máquina de movimento perpétuo, descobridor da cura do câncer, escritor maldito, ator de Hollywood, compositor da MPB, pianista clássico, motorista de caminhão e, principalmente, amante de todas as mulheres do mundo!” “Mas o que podemos fazer para melhorar as condições de acessibilidade em nossas cidades?”; “O fim do mundo existe? Claro que sim, e alguns maldosos juram que fica em Brasília, naquele prédio com duas bacias no teto, uma para cima e outra para baixo.”; “A humanidade evoluiu, foi ao espaço, aumentou seu conhecimento e o medo continua lá, sempre a nossa espera.”; “Como serão nossas cidades no futuro? Quando vamos perceber que o atual modelo urbanístico, estimulando o transporte individual em veículos movidos com combustível fóssil já era?”;

Pois é, a gente passa o ano inteiro (ou uma vida toda) tirando palavras dos pensamentos para escrever uma crônica, um conto, um artigo, uma asneira qualquer e de repente, diante de uma chacina como a do presídio de Manaus ou a que aconteceu em Campinas, em plena festa da virada do ano, não poupando sequer o filho de dez anos do atirador, percebe que não sabe (ou não tem) nada a dizer sobre 2017.

Concordo com o antropólogo Roberto da Mata quando afirma que “preocupados com o futuro, que encolhe a cada dia, esquecemo-nos do presente. Pensamos em ir para Marte sem termos nos resolvido aqui na Terra”. (A primeira crônica do ano, O Globo). Talvez seja a hora de, literalmente, colocarmos os pés no chão. Os anos sempre (e apenas) refletem a nossa ação. Ou a falta dela.

O caminho das montanhas

Foto: Carlos Emerson Junior

No perfume das flores de ameixa,
o sol de súbito surge.
Ah, o caminho da montanha!

(Matsuo Basho, 1644/1694)

oOo

Vendo tantas reclamações sobre o ano que se vai e as nuvens da incerteza que acompanham o ano que chega, lembro que tenho um refúgio nas montanhas que protegem Nova Friburgo, nas ruas de paralelepípedos do Sans Souci, nos jardins do Parque São Clemente, nos riachos e cachoeiras de São Pedro da Serra, nas cerejeiras que florescem gloriosas em julho. Basta pegar o caminho da montanha. É, eu sei, é um pensamento mágico, mas cheio de esperanças.

Feliz 2017, queridos amigos. Que as montanhas, onde quer que estejam, de que tamanho forem, nos acolham e consolem, nos deem forças para seguir em frente e nos tragam um mundo de felicidades. Obrigado pela amizade de todos vocês.

Caminho do peregrino

“O caminho do peregrino é uma coisa muito boa, mas é estreito. Porque a estrada que nos leva à vida é estreita; por outro lado, a estrada que leva à morte é larga e espaçosa. O caminho do peregrino é para aqueles que são bons. (…) Leva à contemplação, torna modesto o arrogante, eleva os humildes, ama a pobreza. Odeia a repreensão dos que se movem por ganância. Recompensa aqueles que vivem na simplicidade e fazem boas ações.”

Texto extraido do Codex Calixtinus, manuscrito iluminado, datado de 1150, relíquia da Catedral de Compostela, Espanha.