O som do sino

Foto: Carlos Emerson Junior

Todos dos dias passava diante daquela casa com o sino na porta. Estava encantado. Ficava imaginado como seria o seu som, quem atenderia, o que diria. E seguia seu caminho. Um tarde nublada, voltando do trabalho, não resistiu: foi até o sino, puxou a corrente e… Ficou surpreso quando, ao invés da tradicional badalada, ouviu um toque eletrônico dentro da casa. Caramba, o sino então era só um enfeite? Decepcionado, saiu correndo pela rua vazia antes que alguém viesse atendê-lo. Ia falar o quê? Já fora de vista, ofegante, pensou que até mesmo os sinos agora eram feitos na China. Que coisa!

Curiosidade

Foto: Nasa

Enquanto o robô Curiosity trabalha intensamente a mais de seis anos na superfície marciana, coletando dados sobre o planeta, fazendo descobertas sensacionais, como as moléculas orgânicas em rochas com três bilhões de anos, analisando o clima, fotografando e até mesmo fazendo selfies, aqui no Brasil, bem, aqui no Brasil… Ah, deixa prá lá. Afinal, o grande Millor Fernandes já dizia que “com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” Como eu já estou indo para os setenta…

A propósito, a curiosa selfie do Curiosity é uma colagem de várias fotos tiradas pelo robozinho (uma gentileza, afinal ele tem o tamanho de um automóvel) para esconder seu braço mecânico-eletrônico-cibernético-nuclear (não é mentira, o bicho é movido por um reator atômico!) da foto. Trabalho da NASA.

Falando de flores

Foto: Carlos Emerson Junior

Sou um completo analfabeto quando o assunto são flores mas sei muito bem que, como “modelos” para fotos, são imbatíveis! Flores são tão bonitas que nem precisam fazer pose. Nunca reclamam da nossa demora para “acertar” a câmera, não se mexem e algumas até nos presenteiam com um perfume gostoso e elegante. Decididamente, fotografar flores é Zen e se for em Nova Friburgo é o próprio Nirvana!

Foto: Carlos Emerson Junior

Prelúdio de Chopin

Um dos maiores arrependimentos que até hoje carrego no coração foi não ter estudado piano, como minha irmã muito acertadamente fez. E nem tenho como justificar que não fui estimulado, já que ela mesma muitas vezes me ensinava alguns acordes e até mesmo a entender algumas partituras.

Lembro que às vezes ficava quieto, acompanhando seus estudos no teclado. Logo depois, assumia o piano e tentava, de maneira tosca, é claro, repetir o que ouvia. O pior é que de vez em quando acertava e, feliz da vida, me via literalmente “assassinando” uma obra de arte de Beethoven ou Rachmaninoff. Isso sim, era um baita desrespeito.

Felizmente para a música, desisti de ser um pianista autodidata (eufemismo para “tocar de ouvido”) mas aprendi que Música Clássica era um assunto muito sério, além de profundamente belo. Ouvir Tchaikovsky, Bach, Brahms, Schubert, Wagner, Liszt, Debussy, Mahler e Mozart era como descobrir um mundo inteiramente novo.

Meu compositor preferido, no entanto, sempre foi o polonês Fryderyk Franciszek Chopin, um gênio que morreu com apenas 39 anos de idade mas deixou uma obra grandiosa, 264 trabalhos entre prelúdios, noturnos, valsas, mazurcas, sonatas, estudos, concertos e ainda 20 músicas para voz e piano, em sua língua natal.

Arthur Rubinstein, um dos maiores intérpretes de Chopin, escreveu o seguinte depoimento:

“Chopin fez uma revolução na música tradicional para piano e criou uma nova arte do teclado. Era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma “música romântica”, no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!”

E é com o próprio Rubinstein ao piano que fica o vídeo com o Prelúdio Opus 28, número 20, uma pequena obra-prima:

Momento de reflexão

Uma data importante para o nosso futuro: o próximo dia primeiro de agosto será conhecido como o “Dia de Sobrecarga da Terra”, marcando o triste e patético momento que o consumo de nossos recursos naturais (alimentos, água, fibras, madeira, terra e emissões de carbono) supera o volume que o planeta é capaz de renovar. Para piorar, faltam cinco meses para 2018 terminar. Desde 1970, quando a data começou a ser “comemorada”, foi a primeira vez que chegamos ao ápice da irresponsabilidade tão cedo!

Pois é… Enquanto isso não enxergamos o problema, brigamos uns com os outros, consumimos sem limites, sujamos nossos rios e mares, devastamos a terra e acreditamos piamente que nossas vidinhas são eternas. Meus pêsames, terráqueos.

O petróleo é nosso. E daí?

De toda essa confusão que a greve dos caminhoneiros está provocando – incluindo aí a merecida desmoralização do governo federal – dois pontos me deixam profundamente triste e, se é que isso é possível, cada vez mais desanimado com o futuro do Brasil. Estou falando da nossa completa dependência do petróleo e do transporte rodoviário, como se ainda vivêssemos em pleno século passado.

Amigos, não vivi 50 anos no século XX para ser testemunha da nossa incapacidade de sair dos anos 60, 80, sei lá! Enquanto aí fora se produz realidade virtual, fontes alternativas de energia, as cidades são devolvidas às pessoas, a ciência avança em todas as frentes e a saúde é realmente para todos, continuamos na mesma vidinha de todo o sempre, vivendo de lembranças e glórias que nunca chegaram à população.

Desculpem o mau humor, mas o Brasil está um saco!

Sem saída

O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade” (Elizabeth Bishop)

Até quando vamos nos iludir? Quantas vidas mais a cidade levará para alimentar suas mazelas, sua malandragem, sua incivilidade? Que me perdoem os cariocas – meus conterrâneos – mas grupo de extermínio agindo em pleno centro,nas barbas das tropas do Exército, é o fim do mundo. Aliás, o fim de uma cidade que um dia foi cantada como a maravilhosa. Perdeu a graça, o viço, o senso e o amor de seus filhos. Sinceramente? Não acredito mais em alguma saída.

Que pelo menos identifiquem, prendam e punam os responsáveis pelo bárbaro assassinato no Estácio, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem, tenham o nome que for. Já toleramos facções do tráfico, milícias, corruptos, assaltantes, pivetes e canalhas de todos os estirpes, engravatados ou não. Permitir a ação impune de grupos de extermínios é acabar com o pouco de ar que ainda se respira no Rio, concordar com o assassinato de qualquer um que incomode os donos do poder. É deletar a democracia. É voltar para o tempo dos coronéis.

Meus pêsames e desculpas aos amigos e familiares de Marielle Franco. Meus pêsames à população carioca.

A matança dos macacos

Deu no O Globo: “chega a 131 o número de primatas mortos desde o início do ano – média de 5,24 animais por dia. Desses, 32 apenas na cidade do Rio”. O que assusta é que 69% (90 macacos) morreram espancados ou envenenados, uma matança absurda, provocada por uma população ignorante que acredita que os macacos são os responsáveis pela proliferação da febre amarela.

Segundo os veterinários do Instituto Jorge Vaistman, “há casos de espancamento com múltiplas fraturas, de animais com vísceras estouradas por conta de chutes, casos de envenenamento causados pela ingestão de chumbinho disfarçado em bananas… Entre as vítimas há três exemplares de mico-leão-dourado, espécie que corre risco de extinção” (El País).

Caramba, o transmissor da febre amarela é o mosquito! Os macacos são vítimas que nem nós e ainda tem mais, servem como um alerta da doença. Matar, trucidar, exterminar esses animais só vai nos prejudicar. Cadê a fiscalização? Cadê a consciência cívica? Matar um macaco pode dar um ano de cadeia, seus infelizes! Ibama nessa gente.

Agora, se vocês fazem mesmo questão de punir alguém, porque não vão atrás dos canalhas que, por omissão, má-fé, desonestidade e corrupção permitiram o ressurgimento de uma doença erradicada há mais de cem anos? Ah, mas é claro, ninguém se preocupa com saneamento básico, saúde para todos, higiene, educação, qualidade de vida. Viajar de avião, ter televisão, automóvel, isso pode, não é mesmo? Agora, água e esgoto tratado, morar decentemente, deixa prá lá…

Uma vergonha!

Carta aberta à Faol

Um dos muitos motivos da compra do meu apartamento no Sans Souci, no final da década de 90, era a linha que a Faol operava, ligando as Braunes à antiga Rodoviária de Integração, a cada 40 minutos. Os ônibus meio antigos, geralmente mal conservados, cumpriam o horário britanicamente, sem o menor atraso.

E não ficava só nisso: uma vez pela manhã e outra no final do dia, o ônibus subia o Alto do Sans Souci. Além disso, quando a Estácio de Sá trouxe sua Universidade para cá, criaram uma linha direta com uma ou duas viagens à noitinha, para atender alunos, funcionários e professores. Resumindo, você não precisava usar o carro para ir ao centro, evitando estacionamentos, engarrafamentos e, é claro, diminuindo a poluição atmosférica. A linha 101 estava ali para isso mesmo e funcionava bem.

O tempo passou, a Faol, uma empresa friburguense foi vendida para uma famosa empresa carioca, parece que não deu certo e passou para as mãos de um consórcio de empresas da Baixada Fluminense e do Rio. Chegou cheia de moral, colocou nas ruas 30 ônibus novos, todos climatizados mas, infelizmente, acabou com a linha das Braunes. Aliás, vamos ser justos, de uma só tacada prejudicaram também os moradores do Tingly.

Voltei a morar em Friburgo no dia 16 de novembro do ano passado. Quando fui descer para o centro, levei um susto! O pessoal do condomínio me avisou que o horário dos ônibus havia mudado e o intervalo agora era de inacreditáveis 70 minutos, uma hora e dez minutos, um verdadeiro absurdo, com danosas consequências para a população residente e trabalhadora!

Como se programar diante de uma espera de uma hora e dez minutos? Como ficam os passageiros que vem de outros bairros e precisam trocar de linha, fazer baldeação? Com certeza vão pagar duas passagens. Muita gente tem descido e subido a pé, uma maldade já que as ruas das Braunes são, basicamente, ladeiras íngremes. E nos dias de chuva, como fica? Chama um táxi? Tira o carro da garagem? Então para que servem os ônibus?

Senhores responsáveis pela Faol, fica o apelo para o modelo atual seja revisto e alterado. Agradeço antecipadamente a atenção.

Foto: Thiago Silva

Feliz 2018

Foto: Carlos Emerson Junior

O ano que termina logo mais, definitivamente foi um desastre, principalmente para quem mora no Rio. De uma forma ou outra, o bando de corruptos, incompetentes e canalhas que tomou conta do Estado nos últimos, sei lá, vinte, trinta anos, conseguiu o que parecia impossível, acabar com todos os recursos e reduzir a dignidade dos cidadãos cariocas e fluminenses a um mero nada.

No entanto, não posso reclamar. Afinal, no meio dessa crise de caráter, falta de segurança generalizada e vergonha na cara, ter conseguido me mudar definitivamente para Nova Friburgo foi um alento, um recomeço, um sonho antigo finalmente realizado. Virar o ano aqui na Serra junto com quem mais amo, não tem preço! Dois mil e dezessete, pelo menos para mim, para mim, termina muito bem.

Fica a esperança que 2018 traga novos ventos de esperança, alento, paz e serenidade a todos os brasileiros, cidadãos cansados de tantas emoções e sentimentos negativos em suas vidas. Obrigado pela companhia e vamos em frente em busca de nosso destino.

Feliz 2018!