Onze de Janeiro

Foto: Carlos Emerson Jr.

No dia onze de janeiro de 2011, a bela e acolhedora Capela de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, amanheceu assim, bem como grande parte da cidade de Nova Friburgo. A tragédia que, oficialmente levou 918 pessoas, deixou mais de 30 mil desabrigados e uma centena de desaparecidos nas cidades da nossa Região Serrana, precisa ser recordada. O que aconteceu naquele dia, um desastre ambiental de proporções épicas, mudou Nova Friburgo para sempre. Acredito que estamos mais preparados, atentos, cuidadosos, mas o caminho ainda é longo e viver nas montanhas tem um preço óbvio, tempestades, cheias e desabamentos. Não faz mal, moramos aqui e aqui continuaremos. É a nosso lar.

Carlos Emerson Jr. (2019)

Pequenas distrações

Gil Elvgren (Belle Ringer 1941)

Atire a primeira pedra: quem nunca foi para o trabalho com o controle remoto da TV ou o telefone sem fio na bolsa? Ou colocou o leite no copo e jogou a caixa de leite, cheiinha, na lata de lixo? Se arrumou toda para um evento social e se mandou com as sandálias havaianas?

Pôs a água para ferver, esqueceu da vida e a água evaporou. Repetiu a operação e esqueceu novamente! Saiu de casa correndo, debaixo da maior chuva e não conseguiu abrir a porta do carro. Viu que pegou a chave do marido, voltou para casa e retornou com a chave do carro do filho. E tome chuva!

Foi fazer o exercício diário na praia com a camiseta do lado do avesso. Preparou um café na Bialetti sem água no recipiente próprio. E pior, no supermercado, ao invés do açúcar, comprou sabão em pó. Saiu de carro e voltou de ônibus. Duas vezes. Revirou a casa inteira atrás do celular, que só foi localizado na manhã seguinte, dentro da geladeira.

Entrou na fila do banco: quando chegou no caixa descobriu que não tinha levado o dinheiro que ia depositar. Resolveu tomar uma chuveirada e esqueceu de tirar os óculos. Trinta anos de casados depois, pergunta para o marido qual o dia do seu aniversário. Deixa a carteira com dinheiro e documentos no médico. No dentista. No oculista. No restaurante. No açougue. Na padaria.

Salta do ônibus no ponto errado. E piora, porque aí descobre que embarcou no ônibus errado. Reclama do troco quando pagou com o cartão de débito. Ou o de crédito. Deixa o filho esperando no colégio. Deixa a filha esperando na academia. Deixa o marido de castigo na porta do shopping. Sai de casa com a câmera fotográfica compacta ao invés do celular.

Bateu a porta de casa, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do carro, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do trabalho, deixando as chaves do lado de dentro. Tocou a campainha de casa, com as chaves nas mãos. Tentou abrir a porta da casa do vizinho com suas chaves. Duas ou três vezes.

Coloca uma meia de cada cor, atravessa a rua sem olhar o semáforo, para na banca de jornal para folhear uma revista, gosta de um artigo e leva sem pagar. Usa os óculos do marido e entra em pânico porque não está enxergando nada. Está sempre em dúvida se já tomou a medicação diária para a memória.

É como diz uma amiga, não está fácil para ninguém.

Carlos Emerson Jr. (Junho/2015)

Atiradores

Foto: Carlos Emerson Jr.

De longe, muito longe mesmo, com toda a maldita neve na encosta, conseguiu enxergar: tinha um tedesco escondido no meio de uma moita, com um fuzil de mira telescópica. Não havia como errar, a farda verde e o capacete esquisito eram inconfundíveis. O problema agora era outro, qualquer movimento brusco que fizesse, ia levar um tiro no meio dos olhos, no mínimo. Esses atiradores alemães não perdoavam. Só tinha uma chance, meio louca, com tudo para não funcionar, mas não ia entregar sua alma nessa moleza não. Respirou fundo e, tentando se mexer o mínimo possível, puxou a bazuca das mãos do Adriano, coitado, que já havia levado uma bala do filho da puta lá da moita. Como pensava, a arma estava pronta para atirar, não fosse o Adriano seu operador. Com muito cuidado apoiou a arma na beira do fox hole, apontou para a maldita moita, apoiou bem firme o corpo no chão e apertou o gatilho. O disparo empurrou seu corpo para trás, o alemão percebeu, mirou com seu fuzil e nem deu tempo para pensar, a carga explodiu em cheio na moita, reduzindo tudo a pó, carne queimada e ossos quebrados. Respirou profundamente, sentindo-se vivo.

Acordou suando em bicas, apavorado! Caramba, tinha dormido no abrigo! Ainda bem que o sargento não viu, não tinha ninguém perto. Ninguém não, no buraco logo à frente, no meio da neve, dois brasileiros entocados espreitavam. Um já tinha ido, ganhou um balaço bem no meio dos olhos. Mas o outro estava quieto, imóvel, como se estivesse morto. Ou congelado. Que frio, caramba. Essa guerra nunca vai terminar e vamos acabar todos enterrados nesses buracos na neve. Alemães, italianos, americanos, brasileiros, ingleses, o diabo. É, até ele vai congelar no fox hole. Com o canto do olho percebeu quando um tubo verde-escuro surgiu no chão, à sua frente: caramba, é uma bazuca, o filho da puta tem uma bazuca! Automaticamente encostou o rosto na mira telescópica do fuzil, pressionou o gatilho mas só viu, por um décimo de segundo, o projétil ser expelido em sua direção. Não deu tempo sequer de falar “fudeu, morri”.

Acordou suando em bicas, tremendo apavorado. Por alguns segundos, desorientado, não sabia se estava em um fox hole na Itália ou em sua própria cama, no Rio. Foi um pesadelo, claro, mas de onde viera essa história? Olhou para sua mulher, dormindo pesadamente ao seu lado. Ela tinha razão, precisava relaxar, ter uma vida mais saudável, ganhar na loteria, não sabia. O problema é que não havia conexão alguma entre o sonho e seus problemas. Não, não sabia mesmo o que fazer. Aliás, não tinha a menor ideia do que estava fazendo na Itália. De qualquer modo, tinha um tedesco na moita logo à frente. Isso era fácil, bastava um tiro da bazuca para liberar o caminho. Silenciosamente, carregou a arma e esticou o pescoço para situar melhor o alvo. Só ouviu o companheiro gritar: Adriano, se abaixa! Sentiu uma martelada na cabeça e imediatamente, o mundo se apagou.

Acordou suando em bicas, trêmulo, apavorado, taquicárdico. Desta vez chamou a mulher, quase chorando, pedindo ajuda. Não ia dormir de novo. Aliás, se pudesse, não dormia nunca mais. Tinha medo. Olhou para o escuro do quarto e teve certeza que na próxima, era ele quem ia embora.

Carlos Emerson Jr.
Dezembro de 2018

O voo do socó

Foto: Carlos Emerson Junior

Geralmente eles não ligam para humanos mas esse aí, abusou da vontade de “aparecer”: fez pose de lado, de frente e, quando percebeu que eu ia embora, deu esse belo voo, pousando alguns metros adiante para, na cabeça dele (ou na minha, “especialista” em socós) mais fotos. Caminhada da manhã, jardins do Country, Nova Friburgo.

Fuzil

Foto: Robert Capa

Aí você prepara a pipoca no micro-ondas, liga a TV, senta na velha e aconchegante poltrona, aproveita que a patroa não está em casa e coloca os pés na mesinha de centro de estimação e quase tem um “treco” quando a apresentadora do programa de entrevistas afirma para o governador recém-eleito que um homem com um fuzil nas mãos, em plena via pública, não pode ser considerado uma ameaça, um risco à segurança de terceiros.

Mas piora. Para tentar justificar a sandice, a emissora chama uma “cientista política” que candidamente explica que “as políticas de seguranças estimulam a compra de mais fuzis pela bandidagem, para combater os fuzis das forças de segurança.” (Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=1ZK58NlOPXM). Decididamente essa gente não tem a menor noção do que é um fuzil, além de “desconhecer” a Lei 13.497/2017, que qualifica a posse desse tipo de armamento como crime hediondo.

Quando estava no Exército o uso de um fuzil era cercado de muito treinamento, conhecimento profundo de toda a sua estrutura (desmontar, limpar e remontar) e responsabilidade pela arma e cada cartucho de munição usado. Após seu uso eram todos recolhidos a um paiol, devidamente trancado e guardado. Fuzis são armas de guerra, feitos para matar o inimigo. Seu emprego é controlado, sua operação restrita e, principalmente, seu porte jamais deve ser visto como atividade “sem riscos”, até mesmo (e principalmente) por militares. Por favor, não repitam qualquer bobagem que ouvirem por aí, principalmente se vocês forem da grande mídia.

Pega muito mal.

oOo

A foto que ilustra o post é de autoria do renomado fotógrafo húngaro Robert Capa (Endre Ernő Friedmann). Foi tirada em Córdoba, em setembro de 1936, em plena Guerra Civil Espanhola.

Os homens ocos

 

T.S.Eliot (1925)

 

I

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam a pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos esquivos à fala
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um gemido.

(Tradução: Ivan Junqueira
Arte: Owen Freeman)

O som do sino

Foto: Carlos Emerson Junior

Todos dos dias passava diante daquela casa com o sino na porta. Estava encantado. Ficava imaginado como seria o seu som, quem atenderia, o que diria. E seguia seu caminho. Um tarde nublada, voltando do trabalho, não resistiu: foi até o sino, puxou a corrente e… Ficou surpreso quando, ao invés da tradicional badalada, ouviu um toque eletrônico dentro da casa. Caramba, o sino então era só um enfeite? Decepcionado, saiu correndo pela rua vazia antes que alguém viesse atendê-lo. Ia falar o quê? Já fora de vista, ofegante, pensou que até mesmo os sinos agora eram feitos na China. Que coisa!

Curiosidade

Foto: Nasa

Enquanto o robô Curiosity trabalha intensamente a mais de seis anos na superfície marciana, coletando dados sobre o planeta, fazendo descobertas sensacionais, como as moléculas orgânicas em rochas com três bilhões de anos, analisando o clima, fotografando e até mesmo fazendo selfies, aqui no Brasil, bem, aqui no Brasil… Ah, deixa prá lá. Afinal, o grande Millor Fernandes já dizia que “com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” Como eu já estou indo para os setenta…

A propósito, a curiosa selfie do Curiosity é uma colagem de várias fotos tiradas pelo robozinho (uma gentileza, afinal ele tem o tamanho de um automóvel) para esconder seu braço mecânico-eletrônico-cibernético-nuclear (não é mentira, o bicho é movido por um reator atômico!) da foto. Trabalho da NASA.

Falando de flores

Foto: Carlos Emerson Junior

Sou um completo analfabeto quando o assunto são flores mas sei muito bem que, como “modelos” para fotos, são imbatíveis! Flores são tão bonitas que nem precisam fazer pose. Nunca reclamam da nossa demora para “acertar” a câmera, não se mexem e algumas até nos presenteiam com um perfume gostoso e elegante. Decididamente, fotografar flores é Zen e se for em Nova Friburgo é o próprio Nirvana!

Foto: Carlos Emerson Junior