Suspeita clínica não é uma clínica suspeita

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Ou o suspeito é sempre o culpado. A palavra, não o cidadão, que tem à sua disposição o direito de defesa em primeira, segunda, terceira, quarta e sei lá quantas instâncias, ainda mais se for amigo de um magistrado ou puder pagar um advogado de primeira linha. 

Mas vamos ao caso: a suspeita caminhava de maneira suspeita por uma suspeitíssima viela numa comunidade carioca prá lá de suspeita. Por sua vez, em uma viatura da policia, suspeita, é claro, policiais observaram a atitude suspeita da suspeita e, de uma forma muito suspeita, a abordaram. Um “di menor” que passava por ali, viu a cena e, suspeitosamente saiu correndo morro acima.

Pois é, hoje a imprensa usa e abusa do suspeito, mesmo quando o elemento é pego com a mão na botija ou melhor, com uma arma na mão atirando em uma infeliz vítima. Querem um exemplo? Aquele monstro que trancou duas mulheres no banheiro da casa , incendiou o imóvel e fugiu, matando as duas queimadas. Alguns jornais do Rio chegaram a noticiar que o suspeito estava exaltado, o suspeito foi preso, o suspeito é isso, o suspeito é aquilo e por aí vai.

Um cidadão acima de qualquer suspeita. Já ouviram muito essa expressão, não é mesmo? Ela é clara, objetiva, curta e grossa; trata-se de uma pessoa com a reputação ilibada, que não pode ser acusada de nenhuma falta, um cidadão honesto e confiável. Quanto governadores do Estado do Rio, legitimamente eleitos, estão presos por, digamos, mal feitos?

No Direito “suspeito é uma pessoa relativamente à qual existam indícios não muito fortes que revelem sua proximidade com um crime que cometeu, participou, ou prepara-se para participar”. Ou em português claro, o cidadão pode ser um safadão, mas não temos como afirmar isso sem provas, correndo o risco de  incorrer em uma injustiça.

Se pararmos para pensar, somos todos suspeitos de alguma coisa e isso traz consequências desastrosas, como o da Escola de Base em São Paulo, caso típico de linchamento moral totalmente equivocado ou de má-fé, precursor dos famigerados cancelamentos que tomaram conta das redes sociais e tentam colocar sob suspeita qualquer um que escreva, fale ou filme algo que não agrade o sem noção da vez.

E piora: maridos suspeitando (e matando) suas companheiras. Policiais e similares prendendo, batendo e até mesmo eliminando negros com a infame desculpa que o “indivíduo estava em atitude suspeita”! E o que seria, para essa gente, uma atitude suspeita? Tratar mal uma pessoa humilde porque ela é isso, simplesmente humilde, automaticamente uma suspeita em potencial? Quem somos nós para julgar alguém?

É óbvio que a maioria dos suspeitos de hoje são bandidos mesmo, dos brabos, sem a menor suspeita, mas cabe somente à Justiça e a Deus decidir o seu destino. Nossa indignação é justa e necessária, até mesmo para cobrar seriedade, celeridade e correção nas investigações, mas daí a querer fazer justiça com as próprias mãos é incorrer em um crime maior ainda.

Enfim, não sou (até onde sei) suspeito de nada, a não ser, talvez, não saber quando terminar uma crônica. Ah sim, suspeita clínica é uma expressão médica designado a hipótese do diagnóstico de um paciente. Já uma clínica suspeita… Bom, quando eu era criança (e coloca décadas nisso) era aquele lugar também conhecido como fábrica de anjinhos, sem suspeita mesmo! Hoje em dia nem imagino o que fazem.

Uma boa semana para todos e vamos suspeitar menos e amar mais. Faz bem para a saúde e para a alma.

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