O peregrino

Foto: Edgar Mello

O calor sufocava. A estrada de terra se estendia à frente, sinuosa, cortando um enorme campo de girassóis, a perder de vista. No entanto, o mais importante e doloroso é que não conseguia encontrar nenhuma árvore, uma sombra para se proteger do sol. Estava exausto, sedento, faminto, quase sem rumo, mas persistia no caminho, mochila nas costas, cajado na mão, chapéu de palha na cabeça, um lenço protegendo o pescoço.

Parou por um momento, logo após uma curva, desalentado. A estrada seguia até umas montanhas a fundo, um cenário belíssimo se você não estivesse andando. As botas apertavam e os pés doíam, doíam muito. Sentiu vontade de deitar no chão e dormir. Ficou de cócoras e sentiu o piso de terra quente como o sol lá em cima. Não adiantava parar ali, tinha que continuar.

Apoiou-se no cajado, ergueu o corpo, bebeu um gole da água que ainda restava e continuou. Perguntou a si mesmo, o que estava fazendo ali, tão longe de casa, distante de tudo e todos. Perguntou a si mesmo se um dia seria mesmo um peregrino, se ia realmente conseguir chegar ao seu final. Perguntou a si mesmo, pela milésima vez, o que realmente pretendia fazendo essa jornada de quase mil quilômetros.

Quando o sol começou a baixar, teve sua atenção desviada para um tronco de árvore à beira da estrada, completamente seco, desfolhado. Mas, pela sua posição, fazia uma pequena sombra, o suficiente, talvez, para se encostar e dormir um pouco. Era tudo o que procurava. Claudicante, se arrastou até até lá, tirou a mochila das costas, descalçou as botas e as meias e se encostou na velha árvore, ao lado de seu cajado. Imediatamente dormiu. Um sono sem sonhos, sem dores, sem histórias passadas ou amores perdidos.

De repente, sentiu que alguém se aproximou, carinhosamente enxugou o suor do seu rosto, deu um sorriso, se levantou e foi embora. Acordou, sobressaltado! Já escurecia e não viu nada ao seu redor. Olhou para os lados e conferiu, sua tralha ainda estava lá. Mas ao lado da mochila, colocaram uma garrafa cheia de água. Quando se virou para pegá-la, alguma coisa caiu no chão: era um terço de contas, simples, com uma medalhinha.

Levantou-se, preparado para continuar. Teria sido um outro peregrino que lhe trouxera conforto e ajuda? E o terço, será que ainda sabia rezar um terço? Não importa, era um sinal ou algo assim, e ia puxar da memória todas as orações que ouvira ao longo da vida e recitá-las, como um mantra, conta após conta, até o fim da jornada. Ao longe brilhavam as luzes de uma aldeia, onde encontraria alimento e abrigo para passar a noite. Aquele momento mágico, ao pé do tronco seco, mostrou que uma peregrinação é sempre um ato de fé, de entrega e compaixão. Agradeceu a ajuda e seguiu reanimado com seu terço para a vila.

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