Onça-parda

“Acordou inquieto,
no meio da noite.
Seria sede
ou um maldito inseto?”

Por algum motivo não conseguia dormir direito. Inquieto, virava de um lado para o outro da cama e o sono ia e vinha intermitente, como se alguma coisa angustiante estivesse acontecendo. Sentou-se, olhou com inveja a mulher roncando suavemente e resolveu ir ao quintal beber um pouco de água. Abriu a porta de casa e foi até a torneira da fonte. Estava escuro mas o brilho das estrelas indicava o caminho. Privilégio de quem mora na roça, pensou. O ar gelado, típico da serra, incomodamente o abraçou.

Encheu a caneca e, quando ia beber, notou o vulto escuro sentado junto à cerca. Primeiro pensou que fosse o maldito sono voltando mas, o tal vulto virou a cabeça e o olhou com dois olhos brilhantes, hipnóticos. Jesus Cristo, aquilo era uma… uma onça-parda! E das grandes! E estava vindo! Tentou gritar, mas a voz não saiu. O felino já estava tão perto que podia sentir o bafo da respiração. Em pé estava, em pé continuou. Parado. Estático, aterrorizado e segurando uma caneca com a água da fonte.

O animal se aproximou, rodeou seu corpo, cheirou suas pernas, deitou-se bem na sua frente, abaixou a cabeça e cerrou os olhos. Sem pensar, abaixou-se devagar e pousou a caneca no chão. A onça levantou a cabeça e, para sua surpresa, bebeu toda a água. Caramba, seria sede? Lentamente esticou o braço e abriu a torneira da fonte. A água pura e gelada jorrou no chão. A onça foi até a bica e bebeu como se não tivesse amanhã. Satisfeita, deu a volta e foi andando na direção da cerca. Lá, pulou com agilidade e desapareceu no meio da noite.

Incrédulo, voltou atarantado para dentro da casa e foi para o quarto. Ia acordar a mulher mas estava com tanto sono que só teve tempo de pensar que talvez fosse melhor deixar essa história para o dia seguinte. Encostou a cabeça no travesseiro e dormiu. Se sonhou com onças ou com as estrelas, nunca saberemos, mas seu rosto era pura felicidade. Coisa de sonhadores, sabe?

oOo

Foto automática de trilha feita em Cordeiro, RJ, na Mata da Pena, por uma câmera da UPAm (Unidade de Policiamento Ambiental) do Parque Estadual do Desengano, na madrugada do dia 12 de agosto de 2017. (Juliana Scarini, G1)

2 comentários em “Onça-parda

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