No topo do mundo

Mal acreditava, mas chegou. Suado, exausto, com dores nas pernas e nos pés, os joelhos pedindo socorro e o ar rarefeito fugindo dos pulmões. Sentia-se quebrado, cansado mas inteiro e vitorioso, afinal, pela primeira vez na sua vida, conseguira chegar no alto de uma das maiores montanhas do Brasil! Não pensou duas vezes, virou a cabeça para cima e berrou todos os palavrões que conhecia.

A adrenalina começou a diminuir e só nessa hora percebeu que as nuvens, muito baixas e espessas, começavam a cobrir a cidade abaixo sob um manto branco, deixando aparecer apenas os picos das montanhas bem à frente. Uma visão mágica, sem dúvida. Olhou para o outro lado e a paisagem era quase a mesma, mas bem longe conseguiu divisar o oceano, de onde sopravam os ventos gelados que o acolhiam lá em cima.

Enquanto tirava algumas fotos, a cabeça funcionava. O que estava assistindo ali era melhor do que a vista de uma janela de avião, uma escotilha de uma estação orbital ou até mesmo de um vale lunar, caso o nosso satélite fosse habitado. Sentiu-se no topo do mundo. Agora entendia porque os deuses gregos moravam no Monte Olimpo, inacessível a nós, reles humanos.

Pois é, os deuses. Se fosse um, ou se recebesse agora o poder de um deles, o que faria? Acabaria com o câncer, com certeza. Melhor ainda, erradicaria todas as doenças. Não existiria mais morte. Não, isso não daria certo. Então, decretaria a paz mundial. Ou o fim da pobreza e da fome. Eliminaria todos os corruptos? Ou voltaria no tempo e desta vez ficaria para sempre com a Maria do Carmo? Ah, Carminha, como doem as burradas que a gente faz na vida…

Caiu em si quando reparou que o Sol, bem à frente, começava a baixar no horizonte. Que pena, era hora de voltar e encarar o longo caminho ao lar, a cidade e a realidade. Para baixo, todo o santo ajuda, não é mesmo? Sabia que o corpo ia cobrar um preço enorme pela aventura e ainda por cima, não teve nenhuma epifania, nenhuminha sequer. Que se dane! Afinal, durante algumas horas, foi apenas feliz.

Foto: Google Imagem

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