Voto de cabresto

O que tem em comum o Brasil, Argentina, Bolívia, Congo, Equador, Egito, Fiji, Líbano, Líbia, Nauru, Paraguai, Singapura, Tailândia, Turquia e mais outros seis países? O voto obrigatório, uma excrescência adotada por aqui em 1932, durante a ditadura Vargas. Em contrapartida, em 236 repúblicas democráticas, o voto é facultativo. Isso quer dizer que nossa “elite” política acredita que ainda não sabemos votar. Pode até ser, mas eles também não sabem governar…

Na última eleição, mais de 1.800.000 cariocas não apareceram nas zonas eleitorais para cumprir sua “obrigação”. Junto com a turma que deixou em branco ou anulou seu voto, quase 40% dos eleitores do município deixaram um duro recado aos partidos e suas indicações desastrosas para disputar um cargo tão importante como a prefeitura carioca.

No fim o pior quadro prevaleceu e como a disputa ficou entre um bispo evangélico e um messias do PSOL, tenho quase certeza que os números da final do dia 30 serão bem maiores e mais contundentes. Tomara (que ingenuidade) que desta vez os “caciques” aprendam alguma coisa.

A propósito do título desta crônica, voto de cabresto é uma antiga expressão surgida no interior do Brasil, ainda na República Velha, onde o controle do poder político é feito através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública. Ou seja, o fazendeiro, coronel, prefeito ou raio que o parta colocava uma turma de peões num caminhão até a urna eleitoral e todo mundo tinha que votar no candidato que ele determinasse.

Ah, mas o voto eletrônico acabou com isso! Acabou? Aqui mesmo, no Estado do Rio, milicianos e traficantes desafiam o Tribunal Superior Eleitoral e chegam ao ponto de proibir a entrada e campanha eleitoral de candidatos “inimigos”, digamos assim, nas comunidades sob sua “influência”. Aliás, segundo o ex-ministro e ex-presidente do TSE Carlos Ayres, a milícia sempre afirmou que “a urna eletrônica não ofereceria essa transparência que se faz necessária e que seria possível saber quem votou em quem, como modo de inibir o voto livre e consciente”.

Pois é, voto livre e consciente. Como falar nisso se grandes regiões da cidade não são permitidas a qualquer um? Não adianta tapar o sol com a peneira, já diziam os antigos, a cidade foi partida, dividida e todo mundo faz de conta que não viu, que não tem nada a ver com isso. Os moradores (e quanto mais pobres pior), são os que mais sofrem. E ainda querem falar em voto útil, voto no menos pior, voto consciente, voto cidadão e outras babaquices?

Tenham dó!

Voto obrigatório é voto de cabresto. É a oficialização do coronelismo, é uma invenção de regimes ditatoriais, ultrapassados. O dia que o candidato tiver que seduzir o cidadão para sair de casa e ir até a urna eletrônica digitar seu voto, aí sim, teremos dado um enorme um passo na direção da verdadeira democracia. Porque o que existe hoje não passa de uma oligarquia. Da época de Vargas.

Em tempo, não sou candidato a nada.

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