A sala escura

Na fortaleza, plantada em uma rocha que avançava para dentro do mar, havia uma sala peculiar, escavada no subsolo, abaixo do nivel da água. Por esse motivo, quando a maré subia, a sala inundava, algumas vezes, diziam, completamente.

A sala não tinha janelas e qualquer tipo de iluminação. O acesso era feito por um alçapão de madeira no seu teto, que só abria por fora. Existia uma porta de ferro, muito grande e pesada que, garantiam, jamais fora usada, ninguém sabia explicar porquê.

O interior da sala era sufocante, quente, úmido, fedorento e aterrorizante. O tempo todo você ouvia o barulho das ondas quebrando em algum lugar. O piso de pedra estava sempre encharcado e não havia um lugar seco sequer para dormir. Contavam que nas noites de mar alto, os escravos rebeldes, que ali ficavam de castigo, gritavam implorando para sair da sala, enquanto a água subia e ia levando, um por um, para suas profundezas.

E essa era a parte mais assustadora da sala: na manhã seguinte, quando abriam o alçapão, não havia ninguém mais lá dentro. Os corpos sumiam, como se a sala não quisesse devolver seus mortos. Alguma passagem, fenda ou falha, tragava tudo o que estivesse lá dentro. E ficava a espreita, aguardando novos infelizes.

Um dia aboliram a escravidão. A fortaleza ganhou canhões potentes, outros ocupantes, as ideias mudaram, o mundo se modernizou e nunca mais se ouviu falar da sala escura e sem porta até que, muito anos depois, um movimento anormal de gente entrando, circulando e saindo dos corredores da fortaleza chamou a atenção do povo do lugar.

Contavam – e sempre tem quem veja e conte – que alguns jovens, garotos quase, estavam sendo levados e jogados na infame sala escura, todos os dias, todas as noites. E, da mesma forma que antigamente, quando abriam o alçapão, não havia mais ninguém.

Certa vez, um dos guardas da fortaleza tomou coragem e perguntou para um superior se era verdade que a sala estava sendo usada. O homem olhou para os lados e bem sério mandou o guarda esquecer tudo o que ouvia, via e sentia. Para sempre. Explicou que as pessoas que iam para a sala eram os inimigos, não mereciam a menor compaixão.

O guarda ficou calado e obedeceu. A partir daquele dia deixou de ouvir os gritos pedindo socorro, não viu os corpos deformados por surras e torturas, deixou de sentir pena pelos que iam ser arremessados pelo buraco do alçapão. Saia de perto quando as pessoas conversavam sobre a sala.

Hoje, a fortaleza virou um museu. As pessoas vão lá para passear, estudar ou simplesmente tomar um café. A sala foi reformada, suas paredes pintadas e impermeabilizadas, a fenda do mar selada e até mesmo uma iluminação azul, bem fraca, foi instalada. Ao fundo, construiram um pequeno altar e colocaram a imagem de uma santa.

Ficou bonito. Pena que ninguém mais se lembre de todos os que entraram e sumiram naquela sala escura sem porta da fortaleza. Pena mesmo. Hoje,todo mundo acabou ficando como o guarda. Nada ouve, não vê, não sente e, principalmente, não fala.

A sala escura da fortaleza ainda está lá.

Sempre.

2 comentários em “A sala escura

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