Bondes

“No depósito da CTC, em Triagem, o funcionário vem com um galão de gasolina, espalha o combustível sobre os bancos de madeira do bonde e risca um fósforo. Em minutos, um inferno de labaredas devora toda a peroba do campo que formava a estrutura do veículo, deixando no chão apenas cinzas e partes metálicas enegrecidas.

A cena brutal, de desperdício ímpar, aconteceu ao longo de 1964 e 1965, os últimos dois anos de Carlos Lacerda como governador da Guanabara. O sistema de bondes do Rio, que já fora considerado pioneiro e um dos maiores do mundo, vinha sendo desativado desde o início daquela década. Antes operada por empresas privadas como a Light, a Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico e a Ferro-Carril Carioca, a rede passara ao controle do estado. Vistos como um entrave para o trânsito e o progresso, os velhos veículos foram aposentados na marra após seis décadas de serviços prestados. A ordem era substituí-los por uma frota de trolley-bus — ônibus elétricos importados da Itália — e, paulatinamente, sepultar seus trilhos sob mantas de asfalto. (O Globo, 8/6/2016)

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O que veio depois é história. O ônibus elétrico foi um fiasco e, para não jogar mais dinheiro no lixo, acabaram adaptados para rodar com motores diesel convencionais, outra burrada. Depois dessa mixórdia os antigos lotações viraram empresas de ônibus, dividiram a cidade entre si, as prefeituras se omitiram ou coisa pior e, voilá, o Rio de Janeiro hoje tem um dos piores serviços de transporte público do mundo. E não é exagero, não, qualquer carioca aplaudiria minhas palavras de pé!

A nostálgica matéria do jornalista Jason Vogel, “Antigos bondes do Rio de Janeiro rodam nos Estados Unidos”, publicado no O Globo de hoje, conta a odisséia de alguns dos 12 sobreviventes do incêndio patrocinado pela diretoria da extinta empresa estatal CTC-GB que, de uma vez só, consumiu toda a frota. Enquanto lá fora esses bondes, em excelente estado de conservação e alguns com mais de 100 anos, ainda circulam em cidades, parques e museus ferroviários, aqui no Rio não restou um único exemplar para mostrarmos aos nossos netos.

Como sempre, por estupidez, arrogância, pouco caso ou má fé, colocamos fogo em nossa própria História…

Foto: Connecticut Trolley Museum

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