Carioquices

 

Parece mentira, mas o ônibus que encostou no ponto era um daqueles novos, raríssimos, com piso baixo, motor traseiro, rampa para deficientes, suspensão pneumática, ar condicionado e, pasmem, motorista e cobrador educadíssimos. Não, não é pegadinha de primeiro de abril coisa nenhuma, acabou de acontecer.

No primeiro ponto de Ipanema uma senhora muito elegante faz sinal. O coletivo para, encosta, abre as portas, ela entra e com um enorme sorriso agradece:

– Ainda bem que o senhor veio com esse ônibus sem degraus. Meu vestido é muito justo para subir as escadas de um carro comum. Valeu!

Aí olhei, claro. Aliás, não só eu mas também os passageiros, o motorista e até a cobradora. Muito distinta, realmente usava uma roupa justa (com bom gosto e na medida certa) que realçava seu perfil esguio, completamente incompatível com os busões montados em chassis de caminhões, padrão aqui no Rio.

O motorista sorriu e só arrancou quando a passageira sentou. Pois é, como dizia o profeta, “gentileza gera gentileza”.

oOo

Tinha que ir do local A para o local B. Pensou em pegar uma condução mas a manhã estava tão agradável, um ventinho de sudoeste dando um refresco no mormaço que resolveu ir a pé mesmo, pela praia. Dito e feito, dobrou a primeira rua à direita e se mandou para o calçadão.

– Good morning, sir. There would be interested in doing a stand up paddle? The day may be gray but the sea is great. Uau, rimei em english!

Olhou desconfiado para os lados e percebeu que era com ele mesmo. Como assim?

– Oi, cara. Obrigado mas no mar eu prefiro é nadar mesmo. Ah, e não precisa gastar o inglês, somos conterrâneos.

– Caramba, é mesmo, desculpe, pensei mesmo que fosse turista. Deve ser sua roupa, parece coisa de gringo.

– Roupa de gringo? Só porque estou de bermudão florido, havaianas e camiseta de marca? Ô meu, estou trabalhando, acabei de sair de uma reunião e estou indo para outra. Isso aqui é roupa social, cara!

– Pensando bem, faz sentido. Pior sou eu que estou aqui, na areia, trabalhando só de de calção… Bom, tudo bem, quando quiser dar umas remadas, estamos às ordens. Boa reunião.

– Tá anotado. Bom trabalho prá você também!

oOo

Todo o dia é a mesma coisa. Basta parar no sinal fechado ali da Duvivier que o cidadão desprovido de bens não perde tempo e chega choramingando:

– Ô dotô, tô com fome, me arranja um dinheirinho prá comer.

– Eu não sou “dotô” e só tenho 4 reais no bolso prá pegar o ônibus. Não dá prá ajudar.

– Puxa vida dotô, o senhor só anda duro, qualquer hora dessas vou perder o ponto pro senhor.

– Mas você é abusado, heim? E o que posso fazer por você? Dinheiro eu não tenho e nem adianta pedir cigarro, não fumo.

– Celular velho! Será que o senhor não teria um prá me arrumar? Aí eu vendo e de repente consigo até uma comida decente.

– Celular, né? Bom, tem um encostado em casa. Tiro o chip e amanhã trago prá você.

– Vai tirar o chip? Faz isso não, dotô, deixa o chip e coloca um cinquentinha de crédito. Assim eu aproveito para fazer umas ligações pros parentes e resolver umas paradas aí.

– Celular, chip e recarga. Não está precisando de uma secretária para fazer as ligações?

– Bom, se o dotô quiser ir pro céu direto, pode mandar a moça. Mas tem que ser novinha e bonita, combinado?

Foto: Carlos Emerson Jr.

5 comentários em “Carioquices

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