Os três tiros

Quase nove horas da noite, lembro que preciso terminar um texto. Levo o notebook para a mesa da sala, ligo a televisão para assistir o final do noticiário, a cachorra deita em cima dos meus pés e começo a escolher o título quando um barulho estranho, como se fosse alguma coisa caindo, vem do lado de fora da janela.

Volto para o escritório e confiro a rua: de um lado dois carros parados juntos a um caminhão de lixo e do outro, uma pequena van tenta manobrar em um espaço mais apropriado para uma moto. Foi pensar nisso e os três tiros ecoaram, pausados, secos e altos.

Os garis correram para dentro de um mercado. Os porteiros se esconderam em suas portarias. No restaurante em frente de casa, dava para ver as pessoas se afastando das janelas que fecham sua varanda. Nas calçadas os pedestres procuravam abrigo atrás dos carros. A cachorra Filó levantou a cabeça, as orelhas e acabou em pé, mas estranhamente não latiu. Só então me toquei que fui o único que permaneceu na janela.

O primeiro carro que estava parado arrancou furiosamente, dobrou à esquerda e sumiu na avenida. O que estava atrás não se mexeu. Não se ouvia um ai…. Lentamente, o motorista do caminhão de lixo saiu da cabine, deu um riso nervoso e perguntou alguma coisa para alguém que se encontrava embaixo de uma marquise. Só então o mundo voltou a girar. O segundo carro foi embora e todo mundo correu para as janelas dos apartamentos.

No final das contas, não foi assalto ou coisa do gênero. O motorista do carro da frente teria atirado, por qualquer motivo, em um morador do prédio da marquise. Não acertou nada. Dois PMs apareceram uns quinze minutos depois e logo depois chegou a Polícia Civil para iniciar suas investigações. Quando fui dormir, por volta de uma da manhã, ainda estavam por lá.

O mais estranho, é que não achei nada estranho, como se estivesse acostumado com tiroteios diários embaixo da janela de casa. Muito pelo contrário, a rua não tem saída e é bem calma. Esporadicamente algum trombadinha entra correndo com um celular ou cordão de um incauto nas mãos e dá de cara com o pessoal da Guarda Municipal ou os seguranças particulares do comércio local, que se encarregam de “neutralizar o elemento” (adoro essa expressão)!

Brigas, rixas, desavenças, vinganças e homicídios são inerentes ao ser humano, ainda mais quando ele está amontoado em cidades com mais de dez milhões de habitantes. Se elas são desorganizadas, aí então o bicho pega, mata e come, que nem o tal do Carcará nordestino. O que leva um cidadão a disparar três tiros numa rua calma, cheia de pessoas andando e em frente a um hortifrúti cheio, para mim é uma incógnita. Por mais ódio na alma, nada justifica tirar ou colocar em risco a vida dos outros. Nada.

Tomara que a Polícia Civil identifique e detenha o atirador. E que fique registrado que sou radicalmente contra a posse e o porte de armas. A verdade é que elas não são armas para defesa, nunca foram e jamais serão. Os três tiros só deram um susto danado nos moradores, mas podiam ter provocado uma enorme tragédia.

E de tragédias, meus caros, o Rio de Janeiro está cheio.

oOo

(PS: foi um “crime” passional.)

6 comentários em “Os três tiros

  1. Pelo Estatuto do Desarmamento, nós, brasileiros, não podemos portar nem usar armas de fogo (Lei Nro. 10.826, de 22 de Dezembro de 2003) e quem as utiliza está andando ‘fora da lei’. Mas é o meio que eu acho que mais intimida as pessoas quando são abordadas para assaltos, roubos ou sequestros. A arma impõe medo. Quem as possui é quem as compra na clandestinidade e já pensando em cometer crimes. Carlos Émerson Jr., o Rio podia ser mais bonito, não é?

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  2. É Carlos, isso infelizmente já virou rotina na vida de muitos moradores. Aqui em minha rua, tem bares, danceteria e toda semana tem arruaça na rua. Tiros na madrugada virou lugar comum. A gente já nem se abala mais. Triste mas a gente se acostuma com tudo. Ou quase tudo. Abraço!

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