Bobagens

O casal do apartamento de baixo começou uma briga feia. Acusações de todos os tipos, palavrões, choros e gritos. O vizinho de cima, a princípio incomodado com a barulheira, acabou se interessando pela lavagem de roupa suja, não resistiu e se debruçou em sua varanda para ouvir com mais detalhes. Foi se empolgando, se inclinando e não deu outra, despencou do quinto andar, se esborrachando na calçada de uma rua em São Paulo.

Esse caso, contado em cores e com detalhes pelos meus pais, efetivamente aconteceu no prédio de uma de minhas tias e, para mim, ficava mais assustador quando a causa do acidente era atribuída ao peso da cabeça do curioso. A intenção era ensinar para uma criança que janela não é lugar de brincadeiras. O problema é que até hoje imagino o coitado com um cabeção enorme, pesando pelo menos uma tonelada. Deve ser trauma.

Em uma outra ocasião, lá estava eu passeando de ônibus, sentado na janela do coletivo, feliz da vida com o vento batendo no meu rosto e fazendo todos os tipos de caretas que conhecia. Não deu outra, alguém, nem me lembro quem, imediatamente pediu que eu parasse porque o vento podia “pegar de jeito” e gravar a careta na minha cara para o resto da vida! Está bom, as palavras não foram bem essas mas o efeito foi o mesmo. Gelei, fiquei impressionadíssimo e nunca mais consegui curtir o vento. Mas só de vingança, o que eu faço de caretas até hoje não está no mapa.

Tem mais? Com certeza e eu mesmo, paizão veterano, já aprontei com as minhas filhas. Quando passou “The Wall”, aquele filmaço cabeça do grupo inglês Pink Floyd, fiquei tão empolgado que tive a brilhante ideia de mostrar para elas o clipe de uma música sobre educação, onde crianças de uma escola eram colocadas, em fila, dentro de um moedor de carne. As duas ficaram horrorizadas e até hoje me cobram pela idiotice mas, para meu alívio, amam o filme.

Dos tempos da minha infância, quando criança não podia dar um pio em conversa de adultos, até os dias facebuquianos de hoje, assistimos uma mudança gigantesca na maneira de educar e orientar nossos filhos. Os saudosistas acreditam que antigamente havia mais respeito mas, sinceramente, acho fantástico conversar com a meninada sobre informática, por exemplo. Não dá para comparar a era do rádio de válvulas com os dias internéticos e interconectados de hoje. O que temos que ter sempre em mente é que criança leva tudo à sério e algumas bobagens podem ter consequências imprevisíveis.

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O mundo mudou, viramos adultos mas nossa capacidade de acreditar em qualquer coisa ou fazer bobagens é sempre a mesma da infância. Fico pensando se pagar um mico não é uma característica da raça humana. Lá estava eu, pronto para embarcar no avião, bagagem despachada, passagem na mão, valise no ombro e o indispensável romance para ler no longo voo embaixo do braço. De repente minha mulher me olha de maneira estranha, com os olhos arregalados:

– Eu não acredito que você trouxe esse livro!

Levei um susto e aí me toquei que não só ela mas quase todo mundo na fila do embarque me olhava com a cara fechada. Sem falar um ai, abri a mala e guardei o exemplar do excelente livro “Caixa Preta”, do escritor Ivan Sant’Ana, dissecando três grandes acidentes aéreos com aviões brasileiros. A capa, com a foto do que restou de um Boeing 707 incendiado perto de aeroporto de Orly, na França, é de uma crueza completamente incompatível com uma cabine de avião.

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Pois é, eu não aprendo e como sempre, acabo piorando as coisas. Uma sobrinha que estava de visita, típica criança de apartamento de cidade grande, logo estranhou o barulho dos vizinhos, que parecia vir do andar de cima do nosso duplex. Sem pensar, expliquei que época da construção do prédio, um operário morreu na construção do nosso bloco e, por algum motivo, nas noites mais frias procurava abrigo dentro dos apartamentos. A reação da menina foi imediata:

– Tiaaaaa, eu quero voltar pro Rio!!!!

Vocês não tem ideia da bronca que eu levei…

A Voz da Serra, 20/10/2012

7 comentários em “Bobagens

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