As veias abertas do Brasil

“Foi necessário um sistema político local construído para manter o poder nas mãos de uma minoria branca. Foi necessário que a polícia adotasse práticas para degradar, desumanizar e intimidar as pessoas. Foi necessário um sistema de Justiça criminal que fizesse ser quase impossível responsabilizar policiais quando eles matam, como eles fazem às centenas todos os anos em comunidades por todo o país. E foi necessário um conjunto de autoridades com uma competência espetacular: o chefe de polícia que desde o início tratou os que jurou proteger como um inimigo armado, o prefeito que simplesmente desapareceu, o promotor que tomou a incompreensível decisão de esperar a noite chegar para divulgar o resultado da decisão do grande júri, quando ele sabia exatamente como as pessoas iriam reagir.”

“A cicatrização não virá das palavras, e não será entregue de cima pelo presidente. Virá da criação de um sistema que produza justiça, um sistema em que a polícia trate seus cidadãos com respeito, onde o poder é distribuído de forma equitativa, onde as pessoas tenham um mínimo de fé de que as vidas delas e de suas crianças são consideradas de alto valor.”

Os dois parágrafos, pinçados do artigo “As veias abertas dos Estados Unidos“, escrito pelo jornalista Paul Waldman, do Washington Post, com pouquíssimas adaptações serviriam para ilustrar o status quo aqui no Brasil. Segundo dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia brasileira matou uma média de seis pessoas por dia, nos últimos cinco anos. Foram 11.197 mortos, entre 2009 e 2013.

Para se ter uma ideia do que significa esse número absurdo, a polícia americana, que motivou o artigo acima, matou 11.090 pessoas em 30 anos. TRINTA ANOS! Os campeões dessa lista vergonhosa são os estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.

Pior, tal qual os americanos, também seguimos o critério da cor. Com efeito, dados da Anistia Internacional e do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros da UFSCar mostram que a proporção de jovens negros mortos pela polícia é três ou quatro vezes maior que a de brancos. No Rio, a cada 100 mil habitantes, 3,6 negros são mortos pela polícia, contra 0,9 brancos. Já em São Paulo essa relação é de 1,4 negros para 0,5 brancos. Em 2012, 77% dos jovens entre 15 e 29 assassinados eram negros.

Vimos nas manifestações de 2013 que a polícia descobriu que pode bater em quem quiser, independente de cor, sexo ou posição social. O Brasil não tem nenhuma política de segurança e nisso, para mim, reside a maior falha de todos os governos que vem se alternando desde o fim da ditadura. Chegamos, talvez, ao fundo do poço, quando toleramos (nós e o governo) a formação de milícias e o controle de áreas do estado por quadrilhas de traficantes muito bem armados.

O pior de tudo é ser obrigado a ouvir as besteiras e mentiras das elites incompetentes e corruptas que estão no poder, desde sempre. O Brasil sangra e ninguém se preocupa em curar suas feridas.

Foto: Leonardo Soares/UOL

2 comentários em “As veias abertas do Brasil

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