A morte da diferença

por Carlos Emerson
(Revista Palmeiras, dezembro de 1953)

O título não é muito sugestivo. Poderá haver o que contar no terreno contábil ? Temos de concordar que não há muita literatura nesse setor. Caso houvesse margem para tipos interessantes dentro da contabilidade teríamos então os romancistas – criadores de personagens – metendo nos seus livros heróis contadores.

Raros – raríssimos – são os romances on de aparece um contador centralizando as cenas idealizadas pelo escritor. No cinema, quando aparece um guarda-livros é sempre uma figura grotesca, capaz de arrancar gargalhadas da platéia. Lá está o homem atraz de enormes livros ou confuso com máquinas de calcular.

Pois bem. Está correndo o 20º ano que eu ando às voltas com a contabilidade. Tendo deixado o jornalismo em Campinas, nos dias tulmutuosos de outubro de 1930, vim para o Rio de Janeiro, e aqui enfiando-me no primeiro emprêgo que que apareceu, acharam-me com “bossa” contábil e fizeram para mim o cartaz de contador.

Nunca mais consegui de desligar dêsse cartaz. Durante mais de 10 anos andei viajando dum lado para outro envolvido em perícias, auditorias e enfim um trabalhão enorme de algarismos, todos ajustadinhos e alinhadinhos, bem somadinhos, entremeados de explicações, explanações ou sugestões.

Depois de toda essa trabalheira, tudo datilografado, sem rasuras, com quadros demonstrativos bem feitinhos, imaginem ! – o trabalho todo uma vez lido pelos interessados era jogado no arquivo…

Mas, si há trabalho atirado nos arquivos e esquecido por todos, fica entretando o lado da observação. Talvez ainda exista em mim o espírito de repórter, e assim, neste tempo todo, foi-me dado conhecer inúmeros contadores, e, observando -os, notar suas manias, reflexos e causas interessantes, que quem sabe os poderia transformar em heróis de novelas.

Eu trabalhei com um inglês durante muito tempo. Usava cachimbo. Bebia cachaça como um perfeito cachaceiro. Trabalhava como um mouro, suando em bicas nos dias quentes do verão carioca. Quando deixava o trabalho, metia-se num bar, pedia uma garrafa de cachaça e bebia em taças como se fosse champagne. Dizia ele que isso tornava a cachaça civilizada e em vez de aviltar (como muito gente diz…) a bebida adquiria o “sense of humour”…

Uma vez estava eu em Belo Horizonte. Tomei uma das fôlhas belorizontinas para ler as notícias da terra. Lá estava uma notícia muito significativa: – num estabelecimento bancário o contador que chefiava o setor de contas correntes andava doido a procura de uma diferença que não encontrava de jeito nenhum. Passou noites em claro e dias e noites sem comer à procura de meia dúzia de algarismos que se divertiam em se esconder do probre homem. Em dado momento êle não resistiu mais. Tomou de um revólver e o descarregou todo nos livros contábeis. Justificou o seu ato como sendo a morte da diferença.

Ainda nessa cidade conheci um contador que iniciara um curso de economia. Aprofundou-se nos estudos de economia inglesa e russa para depois estabelecer um confronto entre as duas. Uma coisa puxada, não resta dúvida… Mas, aproximava-se a época carnavalesca. Foi então auando o encontrei em pleno reinado de Momo, vestido de “baiana” e dizendo: “pro diabo” inglês e russo com seus métodos econômicos. Fiz um empréstimo bem à brasileira para me meter à baiana neste carnaval”…

No Rio tive oportunidade de travar conhecimento com um francês, verdadeiro mestre em organização, esplêndido contador e que chefiava o escritório de uma grande firma. O divertimento, ou melhor o hobby dêsse homem era perseguir os seus subordinados. E para iso tinha um livro preto onde fazia anotações mais ou menos assim: – “hoje provoquei o fulano. Êle tentou reagir, mas calou-se” – E assim por diante divertia-se êsse francês em aperrear seus comandados para ver até onde êles aguentariam sem reação as suas impertinências de chefe. Mas para infelicidade dele e felicidade geral de todos os auxiliares dessa firma, apareceu um carioca maluco que descobriu a trama do livro preto e um dia, fechando-se com o francês no seu escritório, o fêz engulir as fôlhas do livro a poder de socos e pancadas.

Foi um contador que eu conheci – alías que reunia poderes de procurador duma firma exportadora, que me deixou doente. Tive de abandonar a sala magnificamente mobiliada e atapetada do homem porque o meu estômago estava virado. É que êle fumava enorme charuto e sendo a sua salivação excessiva, utilizava um grande cinzeiro como escarradeia. Creio, não preciso contar como estava êsse cinzeiro…

A contabilidade produz um tipo extranho de homem. O ciumento. O contador fica tomado não sei se de complexos ou maluquices. Faz tudo dífícil. Tranca todo e qualquer detalhe nas gavetas. E sente-se nervoso e contrariado, quando alguém toca nos seus livros de contabilidade. Torna-se então um autêntico “guarda-livros”, pois guarda com mais ciúmes os seus livros nas gavetas do que a espôsa em casa…

Eu trabalhei muito tempo com um contador nessas condições. Como êle amava os seus livros e escondia maliciosamente os detalhes da contabilidade… Um dia o homenzinho ciumento adoeceu. Não quis mandar as chaves de sua mesa. Resultado, tive de arrombar as gavetas para dar prosseguimento no trabalho. Quando êle regressou quase três meses depois, não perdoou o meu crime de ter violenado a sua querida contabilidade e tantas fêz com a direção da casa que acabei mudando de emprêgo. Soube mais tarde de sua morte. E que coisa engraçada – um contador arranjado por um anúncio no Jornal do Brasil tomou conta do lugar, sem mistérios e seu cousa alguma e muito menos ciúmes, e o serviço contábil dessa firma está continuando…

Uma ocasião eu me vi atrapalhado com outro contador ciumento. Derramei tinta encarnada no seu livro “Diário”. Com tôda calma, fechei o livro e o juntei a outros livros que êle ia levar para casa para trabalhar no fim de semana. Na segunda-feira apareceu o homem e veio me contar uma proeza de seu filhinho de três anos, dando boas gargalhadas. E mostrou-me a página do livro “Diário” suja de tinta encarnada dizendo ter sido obra do garoto. E como êle falasse com tanta convicção, acabei acreditando que tinha sido mesmo o seu filhinho.

O tipo mais extraordinário que encontrei na contabilidade, foi um contador inglês. Muito amável. Educadísimo. E…poeta. Se um inglês poeta já é difícil, imaginem um inglês contador ser poeta.

Eu trabalhei com esse inglês até o início da guerra, quando retornou para a Inglaterra onde passou a servir na RAF. Muitas vêzes êle interrompia o nosso trabalho de perícia para perguntar como poderia interpretar sonetos de Bilac ou versos de Castro Alves. Fêz uma tradução do “Navio Negreiro”, de Castro Alves, para o inglês.

Há pouco tempo vim a saber que êle havia abandonado definitivamente a contabilidade para se dedicar à literatura, principalmente à poesia, na Inglaterra.

Numa grande indústria no Bráz, em São Paulo, conheci um contador com mentalidade de feitor. A sua mesa e cadeira estavam sob um altíssimo estrado de madeira e lá de cima êle controlava seus empregados. Lembro-me bem da péssima impressão que me ficou dêsse homem, quano batendo na mesa como um mestre de escola de crianças, disse para uma das moças: – dona fulana a senhora está aqui para trabalhar ou para olhar o teto ?”

Ainda não foram descobertos pelos romancistas os contadores para viverem os seus livros. São poucos os escritores e raríssimos os livros onde apaecem guarda-livros (hoje, peritos contadores) para heróis de novelas.

Será que se trata realmente no mundo todo duma classe despida de interesse ?

Durante a guerra, os escritores soviéticos andaram na moda. As livrarias abarrotadas de livros da URSS. Li um dêsses livros. Eram contos. E lá estava a história e uma mulher que queria que o filho fosse guarda-livros. Mas o próprio autor do conto comentava: – “a pobre mulher julgava que ser guarda-livros fôsse grande cousa…”

E dêsse modo, creio, até na Rússia o contador não tem muita sorte com os escritores…

*****

Mais uma crônica escrita por meu pai, Carlos Emerson, jornalista, contador e auditor, publicada na revista Palmeiras,de Campinas, São Paulo, no final de 1953. E não deixe de ler também:

Silveirinha (1957)
Decotes amigos (1962)
Coisas de jornal (1954)
O Rio? Vai muito bem, obrigado (1955)
Retrato de Copacabana (1961)

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