No tempo que as pessoas fumavam

Meu pai fumava. Minha mãe também. Lembro até a marca dos cigarros, Lincoln para ele e Hollywood para ela. Meus tios fumavam. Os pais dos meus amigos. Meu pediatra fumava (se bem que apagava o cigarro quando iniciava a consulta). Motoristas de ônibus fumavam. Dirigindo. Motorneiros de bonde idem. A turma do táxi não ficava atrás e os mais gentis ofereciam um cigarro aos passageiros.

Nos aviões, fumavam os passageiros, comissários e pilotos. Professores fumavam nas salas de aulas. Os alunos não, aí já era bagunça. Mas o pessoal do supletivo podia dar suas tragadinhas. Também não podia fumar no cinema e no teatro. Mas o fumo era liberado nas lojas de departamentos, mercados, feiras e eventos. Estou me esforçando, mas não consigo lembrar se podia fumar durante a missa.

Fumar era elegante, sinal de boa educação e até mesmo um certo charme.

Afinal, Hollywwod era uma tradição de bom gosto, Kart dava quilômetros de prazer, com Hilton você ia sempre além, toda mulher tinha Charm, dava gosto “usar” Capri, Porto era a base da sua decisão, Carlton era o símbolo de distinção, enquanto o Free, uma simples questão de bom gosto. A preferência nacional era o Continental e o Hilton, um estilo de vida. Gente que sabe o que quer fumava Minister e o St. Moritz indicava nobreza: nos gestos, na exigência e nos hábitos. Quem gostava de levar vantagem ia de Vila Rica.

Pois é, mas nem tudo era azul nesse mundo encantado da propaganda.

Estimulado por minha mulher, médica e não fumante, larguei o fumo em 1978, há 36 anos, de um estalo. A gota d’água foi quando saí de casa para comprar cigarros, numa sexta-feira chuvosa e fria como hoje, em plena noite, para procurar um botequim ainda aberto. No meio do caminho, molhado e com medo de ser assaltado nas ruas desertas de um Leblon ainda fora de moda, dei um basta.

Nunca mais coloquei um cigarro na boca. E nunca, meus caros, é muito tempo. Sem arrependimentos, culpa ou concessões ao vício. É com satisfação que vejo a sociedade dando um basta no fumo. Já era hora. A propósito, hoje é o Dia Nacional de Combate ao Cigarro, um boa ocasião para ler alguns depoimentos de quem parou de fumar. Quem sabe você não se anima?

Arte: Tom Ross

10 comentários em “No tempo que as pessoas fumavam

  1. Você está certíssimo! Texto perfeito – cheio de “memories” de propagandas do passado que, convenhamos, eram muitos boas, mas o prejuízo à saúde era maior. Correto foi você que parou na hora certa. Parabéns!
    Um abraço e bom fim de semana.

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  2. Sempre trabalhei ou em redação de jornais ou na área de criação em agências de comunicação. Iniciar uma matéria ou começar a criar uma campanha sempre teve um ritual: o isqueiro acendendo o cigarro, a primeira tragada, havia uma ordem naquilo. Parei de fumar há 2 anos, confesso que gostava do gesto, mas o cheiro nas roupas, carro, lençol, isso era insuportável. Também parei porque achei melhor. Mas desconfio que entendi que ou eu parava com o vicio ou ele iria me parar.

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  3. Otimo o seu texto. Parabens. Eu comecei fumar na decada de sessenta pq era chic mulher fumar!…rs . Felizmente cai na real e parei alguns anos apos. Com tanta informacao atualmente so fuma quem nao da importancia a vida, sua e dos outros a sua volta…

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