No dia 14 de julho

No dia 14 de julho não tem mais festa. Os turistas voltarão para suas casas. A FIFA desmontará as suas Fans Fests, centros de mídias e sua entourage rumará para a Suíça. As tropas federais marcharão para seus quartéis. A polícia militar se ocupará novamente das comunidades e suas UPPs. O trem, o metrô e as barcas imediatamente voltarão ao normal, isto é, atrasos, falhas operacionais e maus tratos aos usuários. Os ônibus, justiça seja feita, continuarão a mesma porcaria.

No dia 14 de julho, como que por milagre, as praias da zona sul testemunharão o retorno dos mendigos, menores, flanelinhas e assaltantes, desaparecidos que estavam desde o dia 12 de junho. Em compensação, sumirão os calceteiros que diariamente remendavam as calçadas, a turma que trocava as lâmpadas dos logradouros, a fiscalização do choque de ordem, a limpeza dia e noite dos pontos turísticos.

No dia 14 de julho já saberemos quem foi o campeão, mas isso não terá a menor importância e alguns desavisados descobrirão, espantados, que o mundo não mudou nem um pouquinho. Os telejornais exibirão entrevistas com as autoridades comemorando o sucesso do evento. Os jogadores comemorando seus títulos. Os dirigentes comemorando a valorização de seus atletas, visando futuros negócios.

No dia 14 de julho você vai receber a fatura do cartão de crédito. Os cheques pré-datado começam a bater. A mensalidade da escola dos filhos. Os remédios da mulher e da mãe. O conserto do carro na oficina da esquina. O bar proíbe novo pendura. O mercadinho suspende o fiado. O banco protesta seu título. O agiota avisa que está esperando sua visita.

No dia 14 de julho você lembra que em outubro tem eleição. E fica tonto quando percebe que quem era situação virou oposição, oposição se aliou com situação, situação brigou com situação, oposição virou situação, velhos políticos saíram de cena, outros improváveis apareceram e, de toda essa mixórdia, fica a certeza que o Brasil seguirá o mesmo por mais quatro e mais quatro e mais quatro anos.

No dia 14 de julho a praia estará vazia, suja, nublada e fria. Alguns garis recolhendo o lixo, moradores caminhando, ambulantes tentando se desfazer das últimas camisas de seleções por qualquer preço, um outro casal de namorados, aparentemente namorando, o bêbado caido na areia. A festa efetivamente acabou e no ano que vem não vai ter mais. E você se pergunta, lá dentro, se valeu a pena.

No dia 14 de julho de 1789, revolucionários franceses tomam a prisão da Bastilha, em Paris, dando início à famosa Revolução Francesa que depôs o rei Luis XVI, mudou a França e inspirou revoltas mundo afora. Mas isso aí é outra história, não tem a ver com o Brasil e seu pacífico e cordial povo alegre e disciplinado, como os nossos governantes fazem questão de lembrar.

Pois é, no dia 14 de julho.

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