Não vai ter Copa

Em Nova Friburgo, é claro, e é para lá que eu vou.

Depois que li algumas “educadas” sugestões – na mais popular e esquizofrênica rede social – de que quem não gosta ou não está satisfeito com o torneio da Fifa que pare de reclamar e vá para a Suíça, resolvi seguir o conselho e fui contar os caraminguás na carteira.

Constatando que faltam recursos financeiros para bancar uma estada mensal à sombra dos Alpes, só me restou render à realidade: vou me refugiar em Friburgo mesmo, onde tenho casa, cama, comida e roupa lavada, além de montanhas para todos os lados que se olhe. Não é bem uma Suíça, mas é pertinho, sossegado e faz um frio danado de bom.

Meu problema com a Copa do Mundo não é de hoje. Começou em 1970, quando o, vá lá, governo da época vendeu para a população o mantra que a seleção era a pátria de chuteiras e quem não gostasse era um péssimo brasileiro, quem sabe um perigoso subversivo. Aí tivemos que ouvir, dia e noite, o “Prá frente, Brasil”, “Brasil, ame-o ou deixe-o” e outras ladainhas nacionalistas.

No entanto, a realidade era bem diversa… Amigos presos ou simplesmente desaparecidos, censura, violência, ditadura. O governo não teve o menor pudor de fazer do general presidente da época uma espécie de torcedor padrão, um tiozão que com um radinho de pilha no ouvido, vibrava com os feitos da seleção como qualquer um de nós. O Brasil era grande e seu futuro poderoso.

Daí pra frente, apesar de gostar de futebol, nunca mais consegui acompanhar uma Copa do Mundo. Sinceramente, teria que pesquisar no Google para saber quais foram os torneios que o Brasil ganhou depois de 70. Mesmo com a restauração da democracia, meu desinteresse persistiu e hoje, diante do descalabro que estamos assistindo, corro o risco de sentir nojo. Ou ódio.

Os Jogos Pan-americanos de 2007, aqui no Rio, foram uma espécie de trailer. Macabro, por sinal. O problema da mobilidade urbana foi “resolvido” com a pintura de uma faixa laranja nas principais vias. Quando surgia alguma delegação ou autoridade, todo mundo tinha que dar passagem, sob o risco de ser multado ou até preso.

Os legados ficaram pelo caminho: um Engenhão interditado tem mais de um ano, depois que descobriram que um erro de projeto podia causar uma tragédia com a cobertura; um velódromo completamente desmontado, quando perceberam que ele não atendia às normas olímpicas; um parque aquático que, pelo mesmo motivo, só vai sediar as provas de salto e por aí vai.

Agora, imaginem essa farra – que custou uma fortuna aos cofres públicos – em doze cidades Brasil afora, inclusive em algumas sem nenhuma tradição futebolística! Megalomania perde e descaso com o dinheiro público também. O Maracanã, por exemplo, que já tinha sido reformado em 2007, passou por outra plástica, coisa de mais de um bilhão de reais.

Pois é, e o tal legado da mobilidade urbana, que foi o mesmo discurso dos jogos no Rio, será… não sei! Para nós, cariocas, só vejo o prolongamento da Linha 1 do Metrô, em direção a Barra da Tijuca, completamente fora do projeto inicial e as linhas de ônibus BRT, equívoco monumental ao trocar o transporte sobre trilhos por ônibus articulados. Ah, mas funciona em Bogotá e Curitiba. Funciona sim, mas não serve para uma cidade com região metropolitana com mais de doze milhões de habitantes. Em cinco anos (se chegar a tanto e se as linhas ficarem prontas até lá) estará irremediavelmente ultrapassado.

Em suma, não gosto de Copa do Mundo, as obras no Rio são um estorvo sem o menor sentido e como o dito popular ensina que os incomodados que se mudem, subo para meu refúgio em Nova Friburgo onde, ainda bem, não sou amigo do rei. Tenho quatro livros me aguardando no Kindle e meia dúzia de crônicas e artigos encomendados e sequer iniciados.

Gostando ou não de futebol, uma coisa é garantida, meus caros: a seleção da CBF possivelmente vai levar a taça, mas o Brasil perdeu uma oportunidade de ouro de equacionar e resolver, pra valer, uma série de problemas estruturais, além de deixar uma péssima imagem no exterior. Só espero que respeitem as manifestações populares, contra ou a favor, como numa democracia que se preze.

Até porque, só nos falta perdê-la também.

8 comentários em “Não vai ter Copa

  1. Bravo! Faço minhas suas palavras. Se pudesse e meu dinheiro desse, sumia das Terras Tupiniquins. Como além de duranga, não sou amiga do rei, vou passar minhas férias de junho/julho em casa mesmo. Fazendo manutenção, dormindo, escrevendo e lendo muito. Esse é meu plano. O que não significa que seguirei a risca pois tudo pode mudar. Mas de Copa, não quero nem saber! Pra mim é um evento zero a esquerda.

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    1. Até porque os zeros a direita são só para alguns “privilegiados”…. O melhor de tudo é que lá em Friburgo não tem televisão (cancelei o contrato com a Sky e esqueci de procurar outra operadora). Ou seja, o isolamento será total!

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