E agora?

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Henfil

por Carlos Emerson Junior

Ainda no calor das manifestações que pipocam pelas ruas deste imenso Brasil, acho que cabe a indagação, principalmente de quem faz e vive da política. E agora? A escritora Rosiska Darcy de Oliveira, em seu artigo “O legado das ruas”, na edição do dia 22 de junho, no Globo, faz corretamente o diagnóstico:

“O movimento que está nas ruas não é pré-político como já foi dito, mas pós-política. É contemporâneo de novas formas de comunicação e ação pública. Habita o mundo complexo da interlocução imediata entre jovens e adultos de uma classe média que vem se expandindo, suficientemente informada para criticar a má qualidade dos serviços públicos, consciente de que a corrupção conta a história desse desastre. Corrupção nunca mais, legado maior da voz das ruas.”

“Inútil interpretar o movimento com os instrumentos da velha política, esvaziando-o de seu ineditismo. Viciados nos seus próprios métodos, os políticos, Maquiavéis de quinta categoria, perguntam-se a quem aproveita, temendo-se uns aos outros, penetras na festa em que são mal vindos. Incapazes de enxergar fora de seu mundo autista que há vida lá fora, não percebem que essa massa que canta o Hino Nacional, cujo mal-estar atingiu um ponto crítico, não está a serviço de ninguém senão de si mesma, de sua justificada aspiração ao bem viver.”

Políticos brasileiros são, em sua maioria, ultrapassados, prepotentes, preconceituosos e ignorantes, sejam de esquerda ou direita. Para piorar, além desses, ainda temos os fisiológicos e, falando diretamente, os corruptos e criminosos, que se infiltram nas casas legislativas para disfarçar suas atividades como cidadãos exemplares. É o clássico exemplo de lavagem de personalidade e chega a ser um insulto a maneira como circulam livremente pelos corredores do poder.

O desencanto com o atual sistema partidário é provocado pelo abismo que se criou entre a classe política e a população. Em algum momento, essas “excelências” realmente acreditaram que o povo é pacífico, ordeiro e precisa ser tutelado pelo estado. Em tempos de internet, de informação ao alcance de um mero clique de um mouse, essas ideias soam absurdamente antiquadas e antidemocráticas, caquéticas até.

Não por acaso, o Datafolha divulgou uma pesquisa realizada na quinta-feira passada apenas os manifestantes em São Paulo, com resultados nada surpreendentes: Joaquim Barbosa, presidente do STF, liderou com 30%. depois veio Marina Silva, com 22%, Dilma Roussef com 10%, Aécio Neves tem 5% e Eduardo Campos na lanterna com 1%. Votariam em branco, nulo ou sequer dariam as caras na seção eleitoral 27% dos entrevistados.

Aliás, é bom lembrar que em novembro de 1989, após uma série de protestos (praticamente diários) em Berlim e outras importantes cidades da extinta República Democrática Alemã, onde políticos e autoridades se viram contestados pelo povo, uma simples hesitação de um pelotão de guardas da fronteira, abriu as portas para a queda do muro que separava as duas Alemanhas, provocando, posteriormente, o colapso da União Soviética.

A analogia tem sentido. Deixamos que as elites políticas nos colocassem em um gueto, cercado de muros por todos os lados. O Brasil, hoje, tem um estado forte e uma população empobrecida e sem esperança, presa a planos sociais sem data de validade. Paramos de investir em educação, saúde e tecnologia. Assistimos a divisão de nossas riquezas entre uma meia dúzia de apaniguados e ainda por cima apanhamos quando vamos para as ruas reclamar. No entanto, basta um descuido do sistema e pronto, alguma coisa inesperada acontece.

Não sei o que vem aí, mas se for para mudar a cara do Brasil, podem contar comigo.

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