Cinemas perdidos

Não gosto de ficar reclamando do tempo que passou. Também não sou saudosista e, sinceramente, vivemos tempos mais abertos e saudáveis, mesmo aqui no Brasil. A tecnologia avança em todos os campos e podemos ter uma vida melhor e mais confortável, sem os limites que nossos pais e avôs encontravam.

No entanto, algumas coisas novas me incomodam. A falta de cinemas, por exemplo: nasci e cresci em um bairro onde, por alto, podia escolher entre umas dez salas de exibição (algumas de altíssima qualidade) para assistir o que eu bem entendesse. Um belo dia, cismaram que cinema de rua era perigoso, não tinha estacionamento, etc. e tal e inventaram as tais salas kinoplex dos shopping centers, pequenas e pasteurizadas.

Ora, como o shopping mais perto de Copacabana fica em Botafogo, só restou o bravo Cine Roxy que, para atender aos tempos modernos, teve sua imensa sala de projeção dividida por três. E estou falando de um bairro referência do Rio para o turismo nacional e internacional. A falácia que nos venderam não se sustenta e basta ver a Europa, onde encontramos belos e tradicionais cinemas nas ruas de suas principais capitais.

É, eu sei, o choro é inútil e essa tendência tomou conta do Brasil. Dá pena ver no lugar do Metro Copacabana uma loja de roupas, um banco no lugar do Caruso e uma mega-academia de ginástica onde ficava o Cine Copacabana, famoso pelo seu ar-condicionado estupidamente gelado.

Tudo bem, o mundo gira e a Lusitana roda, como dizia uma propaganda daqueles tempos. Hoje posso assistir filmes no computador, televisão e, se bobear, até no iPhone. É muito fácil encontrar os últimos lançamentos e o aluguel por stream fica cada vez mais em conta. Títulos perdidos ou raros não são problema para encontrar na rede e ainda por cima, o conforto de ver um filme em casa, com boa companhia, no escurinho da sala, é sempre aconchegante.

Mas quando lembro que ir ao Metro Copacabana, assistir uma estreia era O programão, principalmente com a namorada de plantão, não dá para deixar de ter saudades. Perdemos todos com o fim do cinema de rua, essa é a grande verdade.

*****

Grandes cinemas pedem grandes filmes, não é verdade? O melhor espetáculo (e não dá para usar outra denominação) que assisti, nesses mais de sessenta anos de vida, foi o “2001 – Uma odisseia no espaço”, em Supercinemascope, na antiga sala de exibição do Cine Roxy, uma experiência pra lá de sensorial, onde imagem, som e roteiro conseguiam tirar o espectador da poltrona e se sentir jogado em um buraco negro espacial.

Outra grande experiência foi o filme “Grand Prix” em Cinerama, também lá no Roxy. Filmado com auxílio da NASA, que emprestou uma série de câmeras especiais usadas nos carros de corrida e um sonzão em 360º, que nos colocava dentro de um Fórmula Um, nas ruas do circuito de Mônaco. Um barato e pena que o sistema não durou.

No bom e infelizmente extinto Cine Rian, que ficava na Avenida Atlântica, em pleno Posto 4, assisti a estreia de Help!, com os Beatles, na abertura do, se não estou enganado, 1º Festival Internacional do Cinema, que teve como grande vencedor exatamente esse filme. O problema é quem não deu para ouvir nada, tal a gritaria das meninas dentro do cinema. Acho que foi o mais perto que chegamos da histeria da beatlemania por nossos trópicos.

*****

De qualquer maneira, ir ao cinema era um barato, principalmente para namorar. As últimas fileiras de poltronas ficavam lotadas e no fim da sessão, duvido que alguém lembrasse sequer do nome do filme que estava passando! Sei lá, acho que no fundo mesmo é disso que sinto falta. Afinal, namorar assistindo um DVD na tela de um notebook não é a mesma coisa, que me perdoem os mais novos.

4 comentários em “Cinemas perdidos

  1. Lembra da sessão surpresa do Metro Copacabana ?
    Não perdia uma, eram sempre boas estreias, até que um dia colocaram Viva Las Vegas com o Elvis… quase quebraram o cinema e tiveram que devolver o dinheiro . rsrsrs
    Também assisti 2001, na primeira vez, ( meu marido viu umas 3) no Roxy.
    Outro filme que me marcou foi Os Deuses Vencidos, com Marlon Brando ( adorava filme de guerra) também no Roxy.
    Já a minha pior experiência foi Rock Around The Clock,quebraram o Rian e saí apavorada !
    Agora o cinema que eu mais gostava era o Miramar, no fim do Leblon.
    Bons tempos …

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s