Imagina na Copa

A Voz da Serra, 6/4/2013

Calçadão da Avenida Atlântica, noitinha, lá na altura da Siqueira Campos. Tempo bom, temperatura por volta dos 24º, muita gente passeando ou se exercitando, ciclistas e corredores para cima e para baixo na ciclovia e os quiosques movimentados. Já quase no final de minha caminhada treino, sou surpreendido por um homem enorme e muito gordo, passando por mim correndo, com um revolver em uma das mãos!

Por puro reflexo, desviei rapidamente para o lado da areia, evitando fazer qualquer contato visual com o, digamos assim, elemento. Imediatamente dois policiais militares me ultrapassaram, sacando as suas pistolas. Por um momento fiquei entre os três, esperando a hora que ia virar um óbvio alvo humano. Desacelerei e pulei na areia, buscando proteção na beira da calçada.

Ninguém atirou em ninguém. O suposto ladrão atravessou as pistas, em direção ao centro do bairro mas não teve folego para prosseguir. Os dois PMs facilmente o renderam sem violência. Foi aí que apareceu a vítima, um garoto russo, que saiu lá dos confins da Europa para ser assaltado no Brasil. Coitado, turista sofre.

*****

Rua Barata Ribeiro, Posto 4, Copacabana, duas e trinta da tarde. Assim que dobrei a esquina com a Dias da Rocha percebi o tamanho da encrenca: uns trinta garotos, divididos em 3 grupos, nas duas calçadas e no meio da via, bem espalhados, quase que ocupando o todo o quarteirão, caminhavam sem camisas, provocando os pedestres e cercando os carros na rua. Fechando o bando, uns quatro marmanjos bem fortes, dois de cada lado, como se seguranças fossem…

Imediatamente entrei no primeiro botequim que achei, junto com outros incautos, esperando a horda passar. O sentimento de todos ali, era de desalento com o abandono e falta de perspectiva daqueles jovens e revolta com a tal pacificação vendida pelo governo do estado e os jornais cariocas. Os garotos seguiram em direção ao Leme, aparentemente só com intuito de intimidar. Como bons cariocas, logo formamos os inevitáveis grupinhos para discutir esse quase “arrastão”. A conclusão foi unânime:

– Se isso acontece agora, imagina na Copa?

*****

E tem mais. O caso abaixo foi narrado por uma amiga nas redes sociais, textualmente:

“Cena de terror, ontem ao sair do trabalho…Caramba nunca havia passado por tamanha situação. Sai de carro do meu trabalho normalmente, peguei o túnel Rebouças. O trânsito estava lento, é claro. Quando sai do túnel, já no viaduto Paulo de Frontin, percebi que uma moto parou o trânsito literalmente, ficando de lado em frente a um carro. Eu era o quinto ou quarto carro atrás. De repente, um tumulto, todo mundo saindo do carro gritando que era um assalto. Fiquei apavorada, tremia como nunca tremi. Larguei o carro, peguei minha bolsa e meu laptop (não sei porque), corremos todos e, de repente escutamos dois tiros. Não sabíamos de onde vinham. Todos se agacharam no chão do viaduto, inclusive eu. De repente surgiu um homem abençoado, que estava parado no carro do meu lado, com uma pistola na mão dizendo que era policial e que iria na frente de todos. Aí os assaltantes correram e o todos voltaram para os seus carros, deixando o carro do policial ir na frente. Parecia um comboio. Tinha carro que não sei como conseguiu virar do lado contrário (na contramão). Só parei de tremer de fato, quando cheguei em casa, tomei muita água, pois minha boca parecia que não tinha saliva. Essa é a nossa Cidade Maravilhosa que receberá o jogo da Copa do Mundo e as Olimpíadas. Que Deus nos proteja sempre ao sairmos de casa, pois nunca sabemos se vamos voltar.”

*****

A questão é determinar até que ponto ações de marketing podem mudar a percepção que temos de uma cidade. No caso do Rio, o bordão que todos os cariocas usam para manifestar seu espanto e revolta diante de cenas de descaso, incompetência, violência e incredulidade diante do apetite voraz dos corruptos, o já nacionalmente famoso “imagina na Copa”, é apenas um desabafo, claro.

Pessoalmente, não tenho a menor dúvida que a Copa do Mundo será realizada sem maiores problemas. O dia seguinte é que me apavora…

Um comentário em “Imagina na Copa

  1. Imagina na Copa!
    Cejunior, numa época nós costumávamos ir ao Rio todos os anos. A gente caminhava sem medo. Uma vez, lembro que eu estava usando minhas jóias (que foram roubadas daqui de dentro da minha casa) e meu marido disse pra eu tapar as que tinha no braço quando passávamos por uma turma de mal encarados. Agora tá muito perigoso andar aí, vou confessar que tenho medo. São Paulo acho que ainda é pior e até aqui a gente tem que se cuidar. Tá virando uma neurose.
    Bjim

    Curtir

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