A glória é efêmera

Quando um general da Roma Antiga retornava vitorioso, era homenageado publicamente desfilando com suas legiões pelas ruas da cidade. Nesse dia, ele usava uma coroa de louro e vestia-se com uma toga bordada de roxo e ouro. Em uma quadriga, carruagem com quatro cavalos, desarmado, vinha a frente dos soldados, prisioneiros e despojos de suas batalhas. Entretanto, durante toda a cerimônia, na mesma carruagem e bem atrás do general, um escravo sussurrava em seus ouvidos o tempo todo: “olhe para trás. Lembre-se de que és um homem e toda a glória é efêmera”.

Pois é! A historinha é de Roma mas reparem, serve muito bem para o Brasil.

Morro de vergonha

Arte: Brian Stauffer

Morri de vergonha quando vi a prisão do quinto ex-governador do Estado do Rio, todos por corrupção. Cinco! Deve ser um recorde mundial, digno (na verdade, indigno) de constar no Guiness. Mas eles não estão sozinhos. Dois ex-presidentes, uma penca de deputados da Alerj, prefeitos, ministros, secretários, assessores, vereadores, empresários, caramba, a lista não tem fim! Senti vergonha, sim. De ser brasileiro e carioca. Não levamos eleições a sério, nem hoje, nem nunca. Eleição é tratada como um jogo de futebol, uma obrigação chata que, para quem mora no Rio, acaba atrapalhando a praia.

Votamos mal porque um parente pediu, um vizinho recomendou, um amigo avalizou. Votamos mal porque o candidato nos dá telhas para o telhado de casa, promete uma assessoria para nossos filhos, contratos milionários e certos para nossas empresas nas licitações das prefeituras. Votamos mal porque, talvez, sejamos tão corruptos quanto os canalhas que acabaram com a economia do nosso Estado do Rio, com a Segurança Pública, com a Educação e a Saúde. Vocês já perceberam como nossas cidades estão quase todas na miséria?

Pois é… Cinco governadores! Morro de vergonha.

O lago morto

Foto: Carlos Emerson Jr.

Emily Brontë

O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua;
O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão tristes agora,
Recaem sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.
Minhas pobres alegrias…
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.
Lentamente, a raiz acaba de morrer.

(O Parque Santa Elisa tinha um lago. Na tragédia que devastou Nova Friburgo em 2011, ele morreu.)

Lixo em Lumiar

Foto: Saint Clair Mello

Confesso que fiquei arrepiado quando soube o motivo da revolta dos moradores de Lumiar, bucólico e simpático distrito de Nova Friburgo: a implantação de um lixão! Como assim? Querem matar o que ainda resta de turismo em nossa cidade? Nem foi preciso chegar, o jornal local A Voz da Serra reproduziu declarações de diretores da concessionária de lixo, a EBMA, garantindo que a intenção é a construção de um “ecoponto, local de entrega voluntária de resíduos recicláveis e para armazenamento temporário de resíduos domiciliares”.

Sei lá. Mais uma vez a falta transparência entre os órgãos da administração municipal e os moradores traz dúvidas e incertezas. O que tenho certeza mesmo é que uma obra dessas, da maneira como for feita e utilizada, pode produzir danos irreparáveis no meio ambiente e no turismo de Nova Friburgo. Acho bom ficarmos todos com olhos e ouvidos bem abertos.

Somos bárbaros

Candido Portinari (A Criança Morta)

Mas que humanidade é essa? Será que estamos precisando de uma reedição da segunda guerra mundial para aplacar as bestas que tomaram conta de nossas mentes e almas? Reconstruir os campos de concentração para exterminar todos os que pensam diferente de nós? Trazer de volta a doença, a fome, a sede, a miséria e morte? É esse o empoderamento que tanto falam?

Não me conformo com o massacre da escola de Suzano, os oito mortos, os dez feridos, as centenas de crianças que vão carregar para sempre um trauma horrível, conhecer a morte tão cedo, na sua frente, cega e implacável. Um dos dois atiradores tinha apenas 16 anos, tão jovem quanto suas vítimas. Qual o sentido de tudo isso?

Não me venham com papo de liberação de armas, apologia à violência. Isso tudo existe há muito tempo, quando descobrimos que matar o próximo era possível, desde que em nome do Rei, do Estado, da Lei, da Ordem, da Moral, da Religião, do Partido, da Inveja, do Preconceito, da Ignorância,de tudo! Atentados à escolas ocorrem no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. Tomamos alguma atitude? Que nada, ainda estamos discutindo abobrinhas, em gênero, número e grau.

Enquanto isso, crianças morrem. Até quando, Meu Deus, vamos aceitar passivamente tamanha barbaridade? Quando trouxerem de volta a segunda guerra mundial, por favor, não se esqueçam das bombas atômicas. Talvez elas deem um jeito em nossa desumanidade.

Voos do Rio

Foto: Varig

Li por acaso um “tuite” do escritor Aguinaldo Silva, reclamando que a partir de primeiro de abril,os vôos diretos do Rio para Nova York não existirão mais. Pior, a opção com escalas (o famoso e famigerado parador) começa com pulo até Brasília, quase que no caminho para trás! Aliás, uma rápida “googlada” mostrou uma matéria da Latam informando que suas rotas Rio – Miami e Rio – Orlando também serão encerradas a partir da mesma data. Seria uma brincadeira do “Dia da Mentira”?

Infelizmente, não. Segundo a American Airlines, o cancelamento da tradicional rota até Nova York (que teve origem em 1920, com hidroaviões da Pan Am, que pousavam na Baía da Guanabara), foi a queda da demanda, reflexo da crise financeira agravada pelos desmandos e roubalheiras dos dois últimos governadores do nosso combalido Estado do Rio, os notórios Sérgio Cabral e Pezão. Como a recuperação será lenta (os rombos continuam aparecendo), nosso futuro ainda é incerto.

Que pena. Uma cidade que já recebeu voos desde o dirigível alemão Hindenburg até o supersônico Concorde, não merecia mais essa perda. Para mim, fica a saudade dos vôos da Varig, pontuais, seguros e confortáveis, lembrança de uma época que o Rio ainda era a Cidade Maravilhosa.

Autopsicografia

Pintura: Almada Negreiros

Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Alegoria

Foto: Carlos Emerson Jr.

Quando alguém conta uma história, é bom ter em mente que, além da que você ouviu, existe uma versão diferente do outro lado do caso. Saber qual das duas é a verdade é o objetivo, isso se você não descobrir um terceiro lado, oculto, sombrio, esquecido, que pode provocar uma reviravolta em toda a conversa. Em tempos de redes sociais e mídias raivosas e partidárias, todo o cuidado é pouco. A palavra de ordem é desinformação, ou pior, a meia verdade, onde a brasa da sardinha é sempre puxada para um só lado (o certo, por óbvio, julgam eles).

Muita gente conhecida, querida até, está nessa aí. É pena. Talento jogado no lixo. Como uma alegoria usada no Carnaval.