O voo do socó

Foto: Carlos Emerson Junior

Geralmente eles não ligam para humanos mas esse aí, abusou da vontade de “aparecer”: fez pose de lado, de frente e, quando percebeu que eu ia embora, deu esse belo voo, pousando alguns metros adiante para, na cabeça dele (ou na minha, “especialista” em socós) mais fotos. Caminhada da manhã, jardins do Country, Nova Friburgo.

Fuzil

Foto: Robert Capa

Aí você prepara a pipoca no micro-ondas, liga a TV, senta na velha e aconchegante poltrona, aproveita que a patroa não está em casa e coloca os pés na mesinha de centro de estimação e quase tem um “treco” quando a apresentadora do programa de entrevistas afirma para o governador recém-eleito que um homem com um fuzil nas mãos, em plena via pública, não pode ser considerado uma ameaça, um risco à segurança de terceiros.

Mas piora. Para tentar justificar a sandice, a emissora chama uma “cientista política” que candidamente explica que “as políticas de seguranças estimulam a compra de mais fuzis pela bandidagem, para combater os fuzis das forças de segurança.” (Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=1ZK58NlOPXM). Decididamente essa gente não tem a menor noção do que é um fuzil, além de “desconhecer” a Lei 13.497/2017, que qualifica a posse desse tipo de armamento como crime hediondo.

Quando estava no Exército o uso de um fuzil era cercado de muito treinamento, conhecimento profundo de toda a sua estrutura (desmontar, limpar e remontar) e responsabilidade pela arma e cada cartucho de munição usado. Após seu uso eram todos recolhidos a um paiol, devidamente trancado e guardado. Fuzis são armas de guerra, feitos para matar o inimigo. Seu emprego é controlado, sua operação restrita e, principalmente, seu porte jamais deve ser visto como atividade “sem riscos”, até mesmo (e principalmente) por militares. Por favor, não repitam qualquer bobagem que ouvirem por aí, principalmente se vocês forem da grande mídia.

Pega muito mal.

oOo

A foto que ilustra o post é de autoria do renomado fotógrafo húngaro Robert Capa (Endre Ernő Friedmann). Foi tirada em Córdoba, em setembro de 1936, em plena Guerra Civil Espanhola.

Os homens ocos

 

T.S.Eliot (1925)

 

I

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam a pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos esquivos à fala
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um gemido.

(Tradução: Ivan Junqueira
Arte: Owen Freeman)

O som do sino

Foto: Carlos Emerson Junior

Todos dos dias passava diante daquela casa com o sino na porta. Estava encantado. Ficava imaginado como seria o seu som, quem atenderia, o que diria. E seguia seu caminho. Um tarde nublada, voltando do trabalho, não resistiu: foi até o sino, puxou a corrente e… Ficou surpreso quando, ao invés da tradicional badalada, ouviu um toque eletrônico dentro da casa. Caramba, o sino então era só um enfeite? Decepcionado, saiu correndo pela rua vazia antes que alguém viesse atendê-lo. Ia falar o quê? Já fora de vista, ofegante, pensou que até mesmo os sinos agora eram feitos na China. Que coisa!

Curiosidade

Foto: Nasa

Enquanto o robô Curiosity trabalha intensamente a mais de seis anos na superfície marciana, coletando dados sobre o planeta, fazendo descobertas sensacionais, como as moléculas orgânicas em rochas com três bilhões de anos, analisando o clima, fotografando e até mesmo fazendo selfies, aqui no Brasil, bem, aqui no Brasil… Ah, deixa prá lá. Afinal, o grande Millor Fernandes já dizia que “com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado.” Como eu já estou indo para os setenta…

A propósito, a curiosa selfie do Curiosity é uma colagem de várias fotos tiradas pelo robozinho (uma gentileza, afinal ele tem o tamanho de um automóvel) para esconder seu braço mecânico-eletrônico-cibernético-nuclear (não é mentira, o bicho é movido por um reator atômico!) da foto. Trabalho da NASA.

Falando de flores

Foto: Carlos Emerson Junior

Sou um completo analfabeto quando o assunto são flores mas sei muito bem que, como “modelos” para fotos, são imbatíveis! Flores são tão bonitas que nem precisam fazer pose. Nunca reclamam da nossa demora para “acertar” a câmera, não se mexem e algumas até nos presenteiam com um perfume gostoso e elegante. Decididamente, fotografar flores é Zen e se for em Nova Friburgo é o próprio Nirvana!

Foto: Carlos Emerson Junior

Réquiem pra uma árvore

Foto: Carlos Emerson Junior

A árvore jaz morta na calçada,
com a base de seu tronco quebrada.
Não sei se foi o vento,
um veículo, até mesmo um raio.
Será que ela estava doente?
Teria sido vítima de uma violência gratuita?

Em uma cidade cercada pela Mata Atlântica,
mas onde, que ironia, poucas ruas são arborizadas,
a visão da árvore morta na calçada dói.
Muito!

*****

Sábado, dia 13 de outubro. Rua Dr. Barcellos, quase esquina com a rua Sara Braune, aqui nas Braunes, Nova Friburgo.

Prelúdio de Chopin

Um dos maiores arrependimentos que até hoje carrego no coração foi não ter estudado piano, como minha irmã muito acertadamente fez. E nem tenho como justificar que não fui estimulado, já que ela mesma muitas vezes me ensinava alguns acordes e até mesmo a entender algumas partituras.

Lembro que às vezes ficava quieto, acompanhando seus estudos no teclado. Logo depois, assumia o piano e tentava, de maneira tosca, é claro, repetir o que ouvia. O pior é que de vez em quando acertava e, feliz da vida, me via literalmente “assassinando” uma obra de arte de Beethoven ou Rachmaninoff. Isso sim, era um baita desrespeito.

Felizmente para a música, desisti de ser um pianista autodidata (eufemismo para “tocar de ouvido”) mas aprendi que Música Clássica era um assunto muito sério, além de profundamente belo. Ouvir Tchaikovsky, Bach, Brahms, Schubert, Wagner, Liszt, Debussy, Mahler e Mozart era como descobrir um mundo inteiramente novo.

Meu compositor preferido, no entanto, sempre foi o polonês Fryderyk Franciszek Chopin, um gênio que morreu com apenas 39 anos de idade mas deixou uma obra grandiosa, 264 trabalhos entre prelúdios, noturnos, valsas, mazurcas, sonatas, estudos, concertos e ainda 20 músicas para voz e piano, em sua língua natal.

Arthur Rubinstein, um dos maiores intérpretes de Chopin, escreveu o seguinte depoimento:

“Chopin fez uma revolução na música tradicional para piano e criou uma nova arte do teclado. Era um gênio de enlevo universal. Sua música conquista as mais distintas audiências. Quando as primeiras notas de Chopin soam por entre o salão de concerto, há um feliz suspiro de reconhecimento. Todos os homens e mulheres do mundo conhecem sua música. Eles amam isso. Eles são movidos por isso. No entanto, não é uma “música romântica”, no sentido byroniano. Não conta histórias ou quadros pintados. É expressiva e pessoal, mas ainda assim um arte pura. Mesmo nesta era atômica abstrata, onde a emoção não está na moda, Chopin perdura. Sua música é a linguagem universal da comunicação humana. Quando eu toco Chopin eu sei que falo diretamente para os corações das pessoas!”

E é com o próprio Rubinstein ao piano que fica o vídeo com o Prelúdio Opus 28, número 20, uma pequena obra-prima: