Renascer

Foto: Carlos Emerson Jr.

Algum dia, não sei quando, desapareceremos do planeta Terra, nossa casa tão mal tratada. Não importa se será em consequência de uma catástrofe ambiental, uma guerra nuclear ou, simplesmente, pela apatia e desinteresse em prosseguir uma jornada de violência, destruição, ódio e desamor.   Nossas lembranças, virtudes e cultura ficarão como um legado para ninguém.

Desse dia em diante, as cidades serão apenas ruínas, os imensos pastos do interior brasileiro serão tomados pelas matas mas, infelizmente, milhões de animais que dependem de uma forma ou outra dos homens, perecerão com fome e sede. Em compensação, outros milhares, selvagens e mais adaptados e buscarão alimentos e abrigos no que restou das fábricas, usinas, barragens, hotéis, hospitais, quartéis e demais construções e espaços construídos pelo homem.

Os rios voltarão aos leitos originais e correrão para o mar limpos e piscosos como todos os rios já foram um dia. Os oceanos, por sua vez, livres de vazamentos de óleo, naufrágios de cargas poluentes, despejo de esgoto e lixo radioativo e todo o tipo de mazelas, explodirão de vida marinha, nutrientes e, quem sabe, algum dia seja berço de uma nova vida inteligente, mais adaptada. O ar que um dia respiramos será completamente diferente, limpo e saudável. 

Algum dia, não sei quando, a humanidade se vai e o planeta Terra renascerá e viverá em paz.

Suspeita clínica não é uma clínica suspeita

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Ou o suspeito é sempre o culpado. A palavra, não o cidadão, que tem à sua disposição o direito de defesa em primeira, segunda, terceira, quarta e sei lá quantas instâncias, ainda mais se for amigo de um magistrado ou puder pagar um advogado de primeira linha. 

Mas vamos ao caso: a suspeita caminhava de maneira suspeita por uma suspeitíssima viela numa comunidade carioca prá lá de suspeita. Por sua vez, em uma viatura da policia, suspeita, é claro, policiais observaram a atitude suspeita da suspeita e, de uma forma muito suspeita, a abordaram. Um “di menor” que passava por ali, viu a cena e, suspeitosamente saiu correndo morro acima.

Pois é, hoje a imprensa usa e abusa do suspeito, mesmo quando o elemento é pego com a mão na botija ou melhor, com uma arma na mão atirando em uma infeliz vítima. Querem um exemplo? Aquele monstro que trancou duas mulheres no banheiro da casa , incendiou o imóvel e fugiu, matando as duas queimadas. Alguns jornais do Rio chegaram a noticiar que o suspeito estava exaltado, o suspeito foi preso, o suspeito é isso, o suspeito é aquilo e por aí vai.

Um cidadão acima de qualquer suspeita. Já ouviram muito essa expressão, não é mesmo? Ela é clara, objetiva, curta e grossa; trata-se de uma pessoa com a reputação ilibada, que não pode ser acusada de nenhuma falta, um cidadão honesto e confiável. Quanto governadores do Estado do Rio, legitimamente eleitos, estão presos por, digamos, mal feitos?

No Direito “suspeito é uma pessoa relativamente à qual existam indícios não muito fortes que revelem sua proximidade com um crime que cometeu, participou, ou prepara-se para participar”. Ou em português claro, o cidadão pode ser um safadão, mas não temos como afirmar isso sem provas, correndo o risco de  incorrer em uma injustiça.

Se pararmos para pensar, somos todos suspeitos de alguma coisa e isso traz consequências desastrosas, como o da Escola de Base em São Paulo, caso típico de linchamento moral totalmente equivocado ou de má-fé, precursor dos famigerados cancelamentos que tomaram conta das redes sociais e tentam colocar sob suspeita qualquer um que escreva, fale ou filme algo que não agrade o sem noção da vez.

E piora: maridos suspeitando (e matando) suas companheiras. Policiais e similares prendendo, batendo e até mesmo eliminando negros com a infame desculpa que o “indivíduo estava em atitude suspeita”! E o que seria, para essa gente, uma atitude suspeita? Tratar mal uma pessoa humilde porque ela é isso, simplesmente humilde, automaticamente uma suspeita em potencial? Quem somos nós para julgar alguém?

É óbvio que a maioria dos suspeitos de hoje são bandidos mesmo, dos brabos, sem a menor suspeita, mas cabe somente à Justiça e a Deus decidir o seu destino. Nossa indignação é justa e necessária, até mesmo para cobrar seriedade, celeridade e correção nas investigações, mas daí a querer fazer justiça com as próprias mãos é incorrer em um crime maior ainda.

Enfim, não sou (até onde sei) suspeito de nada, a não ser, talvez, não saber quando terminar uma crônica. Ah sim, suspeita clínica é uma expressão médica designado a hipótese do diagnóstico de um paciente. Já uma clínica suspeita… Bom, quando eu era criança (e coloca décadas nisso) era aquele lugar também conhecido como fábrica de anjinhos, sem suspeita mesmo! Hoje em dia nem imagino o que fazem.

Uma boa semana para todos e vamos suspeitar menos e amar mais. Faz bem para a saúde e para a alma.

Flores de Novembro

Fotos: Carlos Emerson Jr.

Para um domingo sem eleição (Nova Friburgo não tem segundo turno), que tal umas flores para amenizar o ambiente e alegrar o final do dia, vença quem vencer? Uma curiosidade, hortências são muito comuns por aqui mas em dezembro e janeiro, com o calor. Essa da foto, pelo visto, gosta de um friozinho…

Uma boa semana.

Oração

“Concedei-me, Senhor a serenidade necessária
Para aceitar as coisas que não posso modificar.
Coragem para modificar aquelas que posso e
Sabedoria para conhecer a diferença entre elas.”
(Trecho da Oração da Serenidade)

Não sou religioso, crente, teólogo, padre, sequer um católico praticante. Pelo contrário, grande parte de minha vida mantive Deus a uma distância segura de convicções materialistas, leituras científicas e principalmente, minhas fraquezas, decepções e frustrações. Com a idade (como a gente aprende com o tempo…) fui percebendo que verdades não são imutáveis e nossas crenças (ou a falta delas) oscilam de acordo com momentos, realizações, alegrias e, é claro, sofrimentos.

Mas o objetivo da crônica não é falar de mim e sim prestar uma pequena homenagem a oração, princípio básico que rege todas as religiões desse mundão, sejam elas quais forem. Quem nunca se emocionou com a Oração de São Francisco de Assis, um apelo emocionante, simples e direto em busca e em favor da humanidade?

“Senhor, fazei que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado.Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado e é morrendo que se vive para a vida eterna.” (Oração de São Francisco de Assis)

Rezar ou orar é falar com Deus, mas também abrir o coração para nós mesmos, admitir nossos preconceitos, medos, ódios, dúvidas, paixões. É quase um estado de graça, um mantra, uma meditação, como queiram. É uma benção que temos para aliviar nossas dores internas, chorar vidas queridas perdidas, implorar por força para enfrentar obstáculos, pedir alimento, água e abrigo quando estamos sós e tristes.

“Que eu possa ser o refúgio dos seres sem refúgio.
Possa ser o protetor dos seres sem protetor.
Que eu possa ser a morada de seres sem moradia.
Possa ser o país dos seres sem país.
Que eu possa ser o amigo dos seres sem amigos.
Possa ser o apoio dos seres sem apoio.”
(prece budista)

Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, principal nome da reforma protestante, escreveu que “muitas vezes fui levado à oração pela irresistível convicção de que este era o único lugar para onde podia ir.” Foi exatamente essa atração que me levou a rezar com fé, a conversar com Deus, a ouvir o que meu eu estava falando. A acreditar que a oração acalma, consola e dá esperanças.

Em seu artigo “Rezar funciona!”, o Rabino Shabsi Alpern ensina que “antes de tudo, a oração nos ajuda a aceitar a vontade de D’us. Mais ainda, a prece estimula o seguinte pensamento numa pessoa sincera: “Como mereço ser atendida?” Ela faz uma auto-análise que, por sua vez, gera mudanças construtivas de caráter, tornando-a mais receptiva à bondade Divina — uma bondade que está sempre emanando, mas que nem sempre o ser humano está em condições de receber. Este é o papel da oração sincera”.

“O amor é um oceano infinito,
cujos céus são apenas um floco de espuma.
Saiba que as ondas do Amor é que fazem girar a roda dos céus,
pois sem o Amor o mundo seria sem vida.”
(trecho de oração islâmica)

E é com muito amor no coração que peço licença para agradecer publicamente a Nossa Senhora por uma graça recebida. Obrigado por ouvir minhas preces, por me dar força e serenidade quando mais precisei. Essa crônica é dedicada a ela e a todos que rezam com fé, desapego e amor.

Vacina

Foto: Carlos Emerson Jr.

Poliomielite
Caxumba
Meningite
Febre Amarela

Sarampo
Varicela
Tifo
Rubéola

Gripe
Pneumonia
Coqueluche
Difteria

Tétano
Varíola
Rotavírus
e outras mais.

Vacinar, para quê?
Ora, que pergunta,
vacinar é um ato de amor!
É respeitar a si mesmo e o próximo.
Proteger nossas paixões, filhos, pais, amigos,
até mesmo… desconhecidos.

Vacinar é humanidade.
Vacinar é vida.

A liberdade e a máscara

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“A liberdade enfaticamente não inclui a liberdade de deixar outra pessoa doente. Não inclui a liberdade de se recusar a usar máscara no supermercado, espirrar em alguém na seção de hortifrutigranjeiros e transmitir o vírus. Isso não é liberdade para a pessoa que é espirrada. Para essa pessoa, a “liberdade” da primeira pessoa significa doença potencial e até mesmo uma sentença de morte. Nenhuma sociedade pode funcionar com base nessa definição de liberdade. Liberdade significa a liberdade de não ser infectado pelo idiota que se recusa a se mascarar.” (Michael Tomasky, The New York Times)

O artigo de onde tirei o trecho acima, foi publicado hoje no NYT, abordando o aumento de casos da Covid-19 e a questão do direito de cada um de usar ou não a máscara de proteção, item importante contra a infeção do vírus. Apesar de abordar a crise americana, cai como uma luva aqui no Brasil onde o número de pessoas que acreditam que a pandemia acabou é preocupante e os gestores, políticos, militares e os palpiteiros de sempre, não são do ramo.

Enfim, vale lembrar Bernard Shaw: “liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.”

Bom domingo e ótima semana, amigos.

Eleições em novembro?

Correio da Manhã (Rio)

Já vou logo avisando, não voto em ninguém nas eleições de novembro. Aliás, para ser mais claro, não vou e sequer posso descer a serra até o Rio para cumprir minha obrigação cívica. Os motivos estão na cara, uma quimioterapia ainda por terminar, uma última cirurgia ainda por marcar e os setenta anos de idade que garantem minha isenção. 

Esclarecido esse ponto, vamos ao que interessa, quem está ganhando com isso? A democracia? Ora, façam-me o favor, o Brasil faz parte de um “seleto” grupo de 24 países (Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, República Democrática do Congo, Egito, Grécia, Líbano, Líbia, Nauru, Tailândia, Bélgica, Austrália e as cidades-estados Luxemburgo e Singapura) que ainda adotam o voto obrigatório, uma barbaridade colocada na Constituição de 1934, durante a de Getúlio Vargas.  

A Constituição de 1988, feita por políticos para políticos, repetiu a dose. Só não contavam com a expansão dos meios de informação que nos ensinaram que em 230 nações, entre elas todas as consideradas do primeiro mundo, o voto é… Facultativo! Em 2014, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 61% dos brasileiros era contra o sistema vigente. Alguém ligou? Que nada, todo mundo com cara de paisagem se entocou no Congresso, Palácios, etc…  

Os últimos anos vem desanimando cada vez o cidadão brasileiro. O ex-presidente sociólogo que se considera o mais bem preparado de todos os que vieram antes e os que virão depois, inventou a reeleição, um verdadeiro câncer político, já que o “ungido” passa todo o primeiro mandato com a cabeça no segundo e depois, já reeleito, o povo que se dane, vamos eleger o sucessor e aproveitar o máximo possível.  

Mas o que mais me desanima são os 6 governadores presos, afastados ou processados por corrupção, o impeachment de dois presidentes, ler nos jornais, dia sim, dia seguinte também, as listas de “autoridades” e “empresários” presos ou conduzidos coercitivamente à polícia para prestar “esclarecimentos” sobre atividades escusas. Mais lamentável é quando a justiça, invocando cláusulas obscuras, perdidas nos inúmeros códigos penais, processuais e quetais, solta todo mundo de uma penada só…  

E piora. A incompetência e a má fé são contagiosas e se espalharam pelas casas legislativas de todo o país. Com as exceções devidas e de sempre, a sensação é que nossos representantes estão mais preocupados com suas próprias vidas do que com o povo que os elegeram. Falta transparência e sobram conchavos, acordões, acordinhos, o diabo a quatro.  

A primeira eleição a gente nunca esquece e a minha foi um desastre só. Estou me referindo a de 1961, que consagrou Jânio Quadros, o da vassourinha. Eu tinha apenas 10 anos, mas nunca vi tanta esperança e alegria pelas ruas de Copacabana foi anunciada sua vitória. Infelizmente, o presidente não regulava bem e após apenas sete meses de governo, renunciou. O resto é história. 

Tenho pena da gente honesta, trabalhadora e de boa fé que investe o que tem e o que não tem para tentar mudar alguma coisa nesse país e se vê envolvida por raposas felpudas, para não dizer outra coisa, além dos esquemas escusos de sempre. Hoje, com os recursos tecnológicos, ainda tem que conviver com fanáticos e robôs nas redes sociais, desqualificando seu trabalho, difamando sua honra e ameaçando sua família. É duro!    

Enfim, por uma questão de saúde e uma profunda decepção com o Brasil, em novembro não voto! Ainda mais quando vejo uma lista com 16 nomes querendo a prefeitura de Nova Friburgo, a cara de pau de candidatos enroladíssimos com a lei liderando a eleição no Rio e por aí vai. Dá uma tristeza enorme e a certeza de que nós, brasileiros, não sabemos votar e desconhecemos a força que nosso voto poderia ter. Uma pena. 

Boa semana para todos os leitores.